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De maior metalúrgica do mundo a placa de cimento em Alverca
Alguns ex-operários da Mague e autarcas do concelho reuniram-se para a cerimónia de inauguração do memorial

De maior metalúrgica do mundo a placa de cimento em Alverca

Memorial da Mague foi inaugurado no centro da urbanização da Malvarosa. Duas dezenas de trabalhadores da antiga metalúrgica Mague, de Alverca, juntaram-se para a inauguração do memorial que perpetua a história da empresa, que chegou a empregar mais de três mil trabalhadores. Quem lá trabalhou não esconde a tristeza e revolta pelo colapso do projecto.

Edição de 19.04.2018 | Economia

Da casa onde vive, Ildefonso Coelho foi um espectador privilegiado do crescimento do império da metalúrgica Mague, em Alverca do Ribatejo, e do seu desmoronamento em 1994. Trabalhou na empresa durante 33 anos e viu o crescimento brutal de pavilhões e máquinas durante anos a fio, acabando por ver depois o arrasar daquela indústria e o crescimento do que é hoje a urbanização Malvarosa.
“É uma tristeza muito grande, tive na Mague as melhores memórias da minha vida. Vi o império crescer e desmoronar-se de um momento para o outro. É uma tristeza ver o que há aqui hoje, estes montes de cimento [apartamentos] não me dizem nada”, confessa a O MIRANTE, com a voz embargada.
E não é o único. Dos quase 3 mil trabalhadores que a Mague teve nos seus tempos áureos, pouco mais de duas dezenas compareceram na inauguração, na manhã de sábado, 14 de Abril, do memorial que a Câmara de Vila Franca de Xira construiu no centro da Malvarosa. Um bloco de cimento com uma réplica das letras que estavam colocadas por cima do portão da empresa.
João Luís é outro ex-trabalhador que ainda hoje coloca na sua profissão de metalúrgico o que aprendeu na Mague. “O sentimento é de grande tristeza por ver no que isto deu, a tecnologia que hoje se emprega na metalomecânica ainda fica atrás do que há 25 anos se fazia na Mague”, revela.
Outro ex-trabalhador da empresa, João Lourenço, lembra que mais do que bons trabalhadores a Mague também formava “grandes homens”.
A Mague foi fundada em 1952 e teve um papel preponderante para o crescimento populacional, económico e social de Alverca e do concelho de Vila Franca de Xira. Além da sua participação na maioria das grandes obras nacionais, internacionalizou a sua produção nos anos 70 e 80 e ainda hoje muitos portos mundiais operam com máquinas produzidas em Alverca. Depois de 42 anos de laboração e após uma venda atribulada a accionistas estrangeiros, a empresa colapsa e cessa actividade em 1994.

Economia portuguesa tinha ficado a ganhar
Alberto Mesquita, presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, abriu a cerimónia lembrando o potencial económico da Mague e lembrou que o país “só tinha ficado a ganhar” se a sua existência tivesse sido salvaguardada. Ele próprio ex-trabalhador da Mague, lembrou que a empresa foi, antes de tudo, “uma escola de democracia” e uma referência na produção de produtos eficientes e de qualidade.
“Este momento tem também para mim um valor e um simbolismo muito especiais. Foi também graças ao impulso dado por alguns ex-trabalhadores da Mague, como o Fernando Moreira, que se construiu este memorial. A memória do que em tempos foi este território continuará a ser evocada e dignificada, quer pelo memorial quer porque para nós a Mague foi uma escola de vida, de conhecimento técnico e científico que gerou capital humano de inestimável valia”, defendeu.
Também Carlos Gonçalves, presidente da Junta de Alverca, lembrou que “não há alverquense que não conheça ou tenha estado ligado à Mague”, empresa que considerou ter contribuído “substancialmente” para o desenvolvimento do concelho e da freguesia.

Lúcio Janeiro

O dia em que as máquinas pararam

Lúcio Janeiro, 77 anos, foi operário metalúrgico, mecânico e chefe de manutenção. Mas foi como membro da comissão de trabalhadores que o seu nome é recordado. Às escondidas da PIDE ajudou a organizar vários protestos em defesa dos direitos dos trabalhadores da empresa. Incluindo dias antes do 25 de Abril de 1974, quando às 13h50 todas as máquinas pararam. “Foi uma paragem simultânea em toda a fábrica, foi impressionante, parou mesmo tudo. Foi como se alguém tivesse desligado o quadro eléctrico”, recorda.
A luta era para que os trabalhadores recebessem todos 500 escudos de aumento, qualquer coisa como 2,5 euros em moeda actual. Houve um abaixo-assinado prévio dos trabalhadores a exigir o aumento mas a administração fez orelhas moucas. “Fico profundamente triste com tudo o que aconteceu à Mague. Ao contrário do que se diz, a desgraça da nossa economia não foi o 25 de Abril. A dada altura a Europa tirou trabalho à Mague. Tínhamos trabalho adjudicado e até pagamentos já feitos e eles roubavam-nos o trabalho”, lamenta.

De maior metalúrgica do mundo a placa de cimento em Alverca

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