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Temerário Serafim das Neves

Edição de 19.04.2018 | Emails do Outro Mundo

Aqui há tempos li um belo naco de prosa do deputado Carlos Matias, do Bloco de Esquerda, com o título “O Regresso às Hortas”. Foi no entroncamentoonline ou no Diário da República, já não me recordo bem. Li-o de cabo a rabo e deram-me umas saudades tremendas dos tempos em que o povo semeava as suas próprias batatas e couves nas suas hortinhas e quintais, ouvia a Amália cantar uma casa portuguesa com pão e vinho sobre a mesa e era feliz e magro, ao invés de obeso e pré-obeso como agora, facto sublinhado pelo autor.
Escreve ele, felicíssimo da vida, que a Câmara do Entroncamento parece finalmente decidida a pôr o pessoal a cavar a terra através da criação de hortas municipais o que irá reforçar, entre outras coisas, o famoso Estatuto da Agricultura Familiar pelo qual o Bloco tem labutado de sol a sol. A cada novo parágrafo sente-se o cheiro a terra revolvida, escuta-se o chiar de minhocas a fugirem à lâmina da enxada, bem como o pipilar dos pássaros e o álacre saltitar de água num regato. Com um pouco de esforço consegue-se mesmo imaginar as Pupilas do Senhor Reitor à conversa com a Joaninha dos rouxinóis.
Invejo o pessoal do Entroncamento que imagino já debruçado à janela a ver passar o deputado Matias, quiçá montado no seu burrico, de alfaias a tiracolo, a caminho das abóboras meninas e das favas que medram no seu palmo de terra ganho no sorteio das hortas populares...perdão, municipais. E antecipo com gosto o viril entrechoque de enxadas faiscando ao sol, nos habituais confrontos gerados por guerras de extremas ou desvios da água da rega feitos à falsa fé.
A Agrotejo e a Agromais, que andaram anos e anos a enganar os agricultores da Golegã e Riachos, convencendo-os a alinhar num projecto de emparcelamento tipo capitalista, vão ser postas na ordem. O povo é modesto. Não quer as riquezas geradas pelas grandes extensões agrícolas, tratadas por maquinaria que só gera desemprego e miséria entre os imigrantes nepaleses. Não sonha com carros topo de gama, nem com férias em destinos exóticos, vivendas luxuosas ou smartphones topo de gama. Para o bom povo, hortinhas adubadas com estrume é que são bonitas. E românticas. A Reforma Agrária do deputado Matias vencerá! Oh, se vencerá!!!
Para além do bucólico regresso às hortas, o que também me enternece é amor municipal às flores. Esta semana em Vila Franca de Xira decorreu a festa da flor da terceira idade. Havia lá flores oriundas de todos os lares de idosos daquele concelho. Todas bem viçosas apesar de algumas já terem para cima de noventa anos. Uma explosão de cores vivas.
Fazer festas de flores municipais onde o desleixado povo insiste em não ter flores é o sonho de qualquer autarca. Em cada terra está a nascer a tradição de fazer uma ou duas festas das flores. É o desabrochar de uma nova vertente do poder local, depois de anos de esgotos, ETARs e enchimento de buracos das ruas com remendos de alcatrão.
São momentos de alegria e confraternização entre criancinhas das escolas e velhinhos dos lares, oportunidades únicas para os autarcas encherem o peito de ar e debitarem gongóricos disparates e para os vereadores e funcionários baterem palmas e cantarem umas cantigas em coro para arrebitar as celebrações.
Podia falar de mais festas como as da cerveja, do chouriço, das sopas e dos petiscos. Podia mas vou-me resguardar porque eu próprio ando a tentar organizar uma Festa do Cozido à Portuguesa para tentar classificar aquele prato nacional como Património da Humanidade. E eu quero fazer uma coisa em grande. Uma coisa digna!
Não vale a pena dizeres que já há muitas Festas do Cozido à Portuguesa porque eu não desisto. O meu cozido só vai ter couves, batatas e nabos gerados nas hortinhas do deputado Carlos Matias. E vai ser mais verdadeiro e sincero que um discurso do mesmo, se isso é possível, porque as carnes serão provenientes de um reco saudável, sem colesterol nem trigliceridos e abatido com delicadeza por alguém verdadeiramente amigo dos animais e não um bruto qualquer.
Saudações hortícolas
Manuel Serra d’Aire

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