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Trabalhar nos Estados Unidos da América sem sair de Santarém
Pedro Oliveira, respondeu a um anúncio de trabalho no jornal e foi contratado para trabalhar nos EUA

Trabalhar nos Estados Unidos da América sem sair de Santarém

Pedro Oliveira é funcionário de uma empresa de consultoria na área da indústria farmacêutica com sede em Memphis, no Tennessee, Estados Unidos da América. Respondeu a um anúncio de trabalho e foi contratado. Não conhece os seus chefes nem a maioria dos seus colegas.

Edição de 25.04.2018 | Sociedade

Levanta-se todos os dias de manhã, veste-se e prepara-se para trabalhar mas não tem que sair de casa. Pedro Oliveira trabalha para uma empresa de consultoria da indústria farmacêutica nos Estados Unidos da América (EUA) mas, ao contrário do que aconteceu com muitos portugueses, não teve que emigrar. A sala de casa é o seu local de trabalho, em Santarém. Em cima da mesa está um computador portátil com dois ecrãs, um telefone ligado ao auricular. É tudo o que precisa para trabalhar. É habitual estar a trabalhar ao telefone a falar com clientes norte-americanos enquanto olha pela janela e observa os seus borregos e ovelhas a pastarem no quintal.
Pedro Oliveira tem 34 anos e é licenciado em Farmácia pela Universidade Lusófona, em Lisboa. Começou por trabalhar na área da farmácia comunitária, onde esteve durante cinco anos. Estava a trabalhar numa consultora, no Estoril, quando decidiu responder a um anúncio de emprego do jornal Expresso. A empresa americana estava à procura de profissionais para trabalho de curto prazo. “Na época da gripe precisam de reforçar as equipas de profissionais e por isso puseram o anúncio”, explica Pedro Oliveira a O MIRANTE.
Os contactos com a empresa foram todos feitos através de telefone ou videochamadas. Foi contratado sem nunca ter precisado de se deslocar aos EUA. “Sempre quis ter uma experiência internacional e queria sair da empresa onde estava. E esta oportunidade tinha uma coisa boa para mim que era ter essa experiência internacional sem ter que sair de Portugal, porque nunca tive vontade de emigrar”, conta.
O jovem farmacêutico decidiu arriscar e aceitou o desafio. Começou por fazer um contrato por um período de seis meses. Ficou a trabalhar na área da informação médica. “As empresas farmacêuticas norte-americanas têm uma linha de informação médica para esclarecimento a profissionais de saúde e a doentes. Por exemplo, na área da gripe, um profissional de saúde ligava porque tinha um doente com uma reacção alérgica a um determinado componente. Queria saber se determinado medicamento tem esse componente para poder administrar ou não a esse paciente. Querem confirmar as situações e perguntam também sobre os efeitos adversos dos medicamentos. Eu tenho que responder. Tenho que saber onde procurar a informação o mais rápido possível para poder esclarecê-los”, explica Pedro Oliveira.
O contrato de seis meses terminou e o farmacêutico assinou um novo contrato, desta vez permanente, o que lhe dá mais segurança. Agora, está a trabalhar nas áreas da Hematologia (cancros líquidos), Distrofia Muscular de Duchenne (doença rara) e Dermatologia. Pedro começa a trabalhar às 14h00 e termina às 22h30. Tem meia hora para almoçar, seguindo o horário de trabalho norte-americano. Pode fazer pausas pessoais de cinco minutos. Não tem quem vigie o seu trabalho directamente mas tudo o que faz fica registado num programa que indica sempre o que estão a fazer, incluindo se estiverem em pausa. Confessa que a parte mais dura foi habituar-se ao horário de trabalho. Integra a equipa americana mas nunca conheceu os seus chefes porque nunca houve necessidade de se deslocar aos EUA, sendo o único estrangeiro na sua equipa. Nos meses em que trabalhou com a Gripe atendia cerca de trinta chamadas por dia. Actualmente, atende entre 10 a 15 chamadas por dia mas o tipo de trabalho é mais complexo e o número de clientes é maior.

“NEM SEMPRE É FÁCIL TRABALHAR SOZINHO”
Apesar de gostar do que faz diz que este é um trabalho solitário e que nem sempre é fácil trabalhar sozinho. No entanto, já teve a informação que a sua empresa vai abrir, em breve, um escritório em Lisboa, o que o vai obrigar a deixar o seu ‘escritório’ de Santarém. “Vai ser bom estar integrado com outros colegas portugueses, todos no mesmo espaço. Sempre vou poder conversar com outras pessoas. Será diferente”, refere. Tem um salário bem remunerado em relação ao salário médio nacional mas dentro do que se paga na indústria farmacêutica em Portugal. “O que me motiva neste trabalho é a experiência internacional e o currículo na indústria farmacêutica”, diz.
O seu dia-a-dia de trabalho é todo passado ao telefone e na internet e talvez por isso sinta necessidade de desligar das novas tecnologias quando não está a trabalhar. Por isso garante que não namora na internet nem seria capaz de viajar com pessoas que conhecesse na net. Na rede gosta de comprar livros porque adora ler. “Depois de um dia de trabalho ao computador gosto de desligar e estar com os meus amigos. Ver pessoas. Este trabalho não me permite uma grande vida social durante a semana porque o horário é complicado mas ao fim-de-semana faço questão de sair e divertir-me”, confessa.

O apego às raízes ribatejanas

Pedro Oliveira nasceu em Lisboa mas os seus fins-de-semana foram sempre passados ou na Parreira (concelho da Chamusca), terra da sua família paterna, ou na Carvoeira, Tremês (concelho de Santarém), terra do lado materno. As suas memórias de infância são a correr com o seu cão ou a andar de bicicleta nos caminhos de terra batida da Parreira. “Nasci em Lisboa mas sinto-me ribatejano. Tirei um dia de trabalho para ajudar o meu pai na matança do porco. São tradições que gostamos de preservar. Não sou pessoa de só viver em Lisboa, não consigo”, afirma.
Conta, com orgulho, que é neto do Chico Picarrilha, de Tremês, que como tantos portugueses, nos anos 60, se viu obrigado a emigrar para França para dar uma vida melhor à sua família. “Era um homem corajoso. Uma vez uma pessoa mandou-se para um poço e ele foi lá salvá-la”, recorda.
O seu avô paterno era conhecido como Gabriel da Perna Molhada, feitor na propriedade que tinha o nome que lhe valeu a alcunha, na Parreira. Pedro não herdou as alcunhas dos avós mas recorda-os com orgulho. O seu sonho de criança é escrever. Um dia gostava de ter coragem para publicar um romance.

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