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O alfaiate que vestiu as estrelas de “Dallas”
José Carlos Ganhão regressou dos EUA há 20 anos e vive em Salvaterra de Magos

O alfaiate que vestiu as estrelas de “Dallas”

José Carlos Ganhão trabalhou durante anos para os actores da série televisiva norte-americana que fez furor nos anos 80. Reformado e à distância de quase quarenta anos, na sua casa em Salvaterra de Magos, conta-nos algumas histórias desses tempos.

Edição de 03.05.2018 | Sociedade

Durante anos José Carlos Ganhão conviveu com duas das principais estrelas da série norte-americana “Dallas”, que prendeu várias gerações de portugueses ao pequeno ecrã nos anos 80. Hoje, o alfaiate ribatejano já não cria o vestuário das personagens J.R. (Larry Hagman) e Bobby (Patrick Duffy) e é do sofá da sua casa em Salvaterra de Magos, na companhia da esposa, Maria Luísa Almeida, que vai seguindo as novas andanças da saga da família Ewing, entretanto relançada.
Passados 20 anos de ter regressado dos Estados Unidos da América onde esteve emigrado durante 40 anos, já com um rosto marcado pelo tempo e alguns cabelos brancos pelo meio, o alfaiate natural de Salvaterra de Magos ainda se recorda bem de alguns momentos hilariantes passados com os actores.
Uma vez Larry Hagman, que fazia de vilão, apareceu embriagado na sala de prova de roupas. “Vesti-lhe um casaco e comecei a fazer a prova. Só que, como ele estava todo torto para um dos lados, tive de lhe dizer para ir beber mais uns copos ao bar para se endireitar. E não é que ele foi? Depois, regressou e vesti-lhe outra vez o casaco. Foi quando ele arrancou uma das mangas que lhe disse para voltar noutro dia. Não podia ser de outra maneira”, conta.
Extrovertido e desenrascado, o alfaiate de 82 anos arranjou amizade facilmente com os actores da série americana. “Não estávamos autorizados pela empresa onde trabalhava, a Neuman Marcus, a dar confiança aos famosos, mas como português que sou sempre gostei de conversar”, conta José Carlos Ganhão, dizendo que foi assim que ficou amigo de Larry Hagman. O actor apareceu para provar umas roupas e o alfaiate, apesar de só “arranhar” o inglês, começou a falar com ele. Foi quando se apercebeu que ele falava português. “Os pais dele tinham comprado um rancho no Brasil e foi aí que aprendeu a falar a língua de Camões”, diz.
O sonho americano
Apaixonado por grandes cidades (viveu em Nova Iorque, Dallas e Washington), o alfaiate reformado conta que os primeiros tempos em terras do Tio Sam não foram fáceis. As saudades da família, a língua e as temperaturas extremas foram as maiores dificuldades que sentiu mas que rapidamente ultrapassou. “Estava com o amor da minha vida, a concretizar o meu sonho e num país de sonho. Não podia pedir mais nada”, admite José Carlos Ganhão mostrando a única peça de que ainda não se desfez: a tesoura que sempre usou para cortar os tecidos nos Estados Unidos da América.
Hoje, arrependido de não ter filhos, confessa que ele e a sua esposa souberam gozar os 40 anos que estiveram emigrados, mas também houve oportunidade para pouparem. Pé-de-meia providencial para José Carlos Ganhão combater o cancro da próstata. “Foi durante um exame numa consulta de medicina de trabalho que descobriram. Depois fiz uma cirurgia, vendi tudo e regressei à minha terra”, conta com lágrimas no rosto. “Para morrer, mais valia ser na minha terra”, diz.

Os fatos para Américo Tomás

José Carlos Ganhão sempre quis ser jornalista, mas as dificuldades económicas da sua família fez com que abraçasse a arte da alfaiataria. “A minha mãe trabalhava no campo e o meu pai fazia charretes e carroças. Éramos uma família pobre e tive de me fazer muito cedo à vida”, explica ao mesmo tempo que olha para uma fotografia da sua mocidade.
Aos 13 anos decidiu ser alfaiate porque o seu pai não queria que ele trabalhasse no campo. “Fui para Lisboa aprender o ofício na alfaiataria Lourenço e Santos, no centro da capital portuguesa”, conta, dizendo que foi aí que conheceu Maria Luísa Almeida, a costureira com quem viria a casar.
Ainda esteve nessa loja durante dois anos até que o amigo José Luís Rosa convidou-o para ir trabalhar com ele e aceitou. Ainda lá esteve um ano até que o convidaram para trabalhar numa alfaiataria de Coruche. Aí, adianta, fez as fardas do corpo diplomático quando a Rainha de Inglaterra, Isabel II, veio a Portugal e os fatos do ex-Presidente da República, Américo Tomás, na sua visita a Angola.
José Carlos Ganhão ainda se manteve alguns anos em Coruche até que, aos 20 anos, a Embaixada Americana convidou-o para ir para trabalhar para os Estados Unidos. “É que, na altura, tinham uma carência muito grande de alfaiates”, explica. Ainda trabalhou numa lavandaria, junto à fronteira com o Canadá, mas foi em Nova Iorque, na empresa francesa Guy Laroche, e mais tarde na empresa Neinam Marcus, em Dallas e em Washington, que a sua carreira ganhou asas. Regressou passados 40 anos.

Modelos nuas quanto baste

Uma das partes que mais detestava do seu ofício na empresa americana Neuman Marcus era a passagem de modelos. “Aquilo era tudo uma paneleirice”, revela o alfaiate de Salvaterra de Magos enquanto olha para uma das suas últimas fotos que guarda religiosamente com o actor Larry Hagman. Ainda assim, diz, “valia por ver as modelos nuas enquanto ia dando os últimos ajustes às roupas”.

Manicure diária

Homem que é homem não faz manicure, mas José Carlos Ganhão passou a ser obrigado a fazê-lo todos os dias logo de manhã quando entrou na empresa Neuman Marcus. “Era uma mariquice, mas se não tratasse das unhas era logo chamado a atenção”, conta. E se com as unhas havia sempre muito rigor, também na roupa havia exigências. Diariamente o alfaiate tinha de vestir um fato diferente e andar sempre aprumado. “E se não respeitasse estava o caldo entornado”, garante.

Natal era para viajar

Natal é sinónimo de família, mas, para o alfaiate, durante os 40 anos que esteve emigrado, foi de solidão. Longe do seu país e de outros familiares, José Carlos Ganhão e a sua esposa nunca celebravam essa festividade. Preferiam antes viajar e conhecer novos locais. É que assim, explica, “não nos doía tanto”.

O alfaiate que vestiu as estrelas de “Dallas”

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