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Idosa abandonada sete meses no hospital porque o filho não a ia buscar
Ana Cebola é responsável dos serviços sociais do Centro Hospitalar do Médio Tejo

Idosa abandonada sete meses no hospital porque o filho não a ia buscar

Um dos casos mais graves nos hospitais do Médio Tejo que teve a intervenção do Ministério Público. O Centro Hospitalar do Médio Tejo tem vários doentes que não consegue enviar para casa ou instituições, como dois imigrantes que perderam a autorização de residência, quando estavam internados. Situações como estas custam centenas de euros por cada dia que passa.

Edição de 24.05.2018 | Sociedade

O fenómeno de doentes abandonados nos hospitais após terem alta médica não é novidade, mas começa a ser uma realidade grave. Não só pelo número de casos como pelo tempo que ficam desnecessariamente nas enfermarias, como pela falta de resposta de familiares e instituições. O Centro Hospitalar do Médio Tejo teve em mãos um dos casos mais complicados do Serviço Nacional de Saúde, com uma idosa que devia ter sido recolhida pela família mas permaneceu sete meses no serviço. Sem solução junto da família e sem vagas em instituições, os serviços sociais do centro hospitalar (que agrega os hospitais de Tomar, Abrantes e Torres Novas) remeteram o caso para o Ministério Público. Entretanto já se conseguiu colocar a doente num lar.
Nem todos os casos como o desta idosa são de abandono. Há outros dois casos complexos de dois imigrantes amarrados a procedimentos legais. Uma doente imigrante, de 27 anos, em coma desde o ano passado, perdeu a autorização de residência em Portugal, porque caducou enquanto estava internada. Agora o hospital não a pode transferir porque está na situação de imigrante ilegal. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras já foi à unidade hospitalar, mas não é fácil desenrolar um imbróglio criado pela própria lei. Para renovar a autorização de residência é precisa a fotografia da pessoa e esta tem de a autorizar. Como está em coma é impossível obter a sua autorização.
Outro imigrante, de 59 anos, entrou em Janeiro nas urgências enviado por uma unidade de cuidados continuados, onde estava a receber assistência. Durante o internamento também ficou ilegal. Apesar de neste caso ser mais fácil tratar da renovação da autorização de residência, que ainda demora algum tempo, o problema é que com o arrastar da situação o doente perdeu a vaga na instituição de cuidados continuados, que entretanto foi ocupada por outra pessoa. O hospital ficou de mãos atadas e os serviços sociais desdobram-se diariamente em contactos e acções de pressão para tentarem encontrar quem o receba. Tarefa quase inglória porque há mais procura do que resposta.
Os hospitais são o último reduto destas pessoas, que representam um custo diário de cerca de 400 euros, porque “o hospital tem a porta aberta e não pode por os doentes na rua”, realça Ana Cebola, responsável pelos serviços sociais do Centro Hospitalar do Médio Tejo. Algumas famílias sabem disso e também não se esforçam por resolver as situações, até porque sabem que quem está a pagar as despesas são os contribuintes através dos orçamentos das unidades hospitalares. “Não podemos dar alta hospitalar às pessoas sem estarem reunidas as mínimas condições para o doente”, refere Ana Cebola, acrescentando: “Há famílias que têm a ideia que o Serviço Nacional de Saúde tem de tomar conta das pessoas, porque descontaram toda a vida”.
No ano passado o Centro Hospitalar teve 60 doentes, 34 homens e 26 mulheres, que ficaram nas enfermarias por não terem para onde ir ou porque as famílias não os iam buscar. A maior parte são pessoas idosas. Há trinta anos nos serviços sociais, Ana Cebola já se confrontou muitas vezes com casos de filhos que herdam os bens dos pais quando estes ainda estão vivos, que passam a receber-lhes a reforma e a ficarem com elas, e depois não lhes dão assistência e deixam-nas esquecidas nos hospitais. O centro hospitalar já teve de comunicar vários casos ao Ministério Público, quando já não consegue fazer mais nada.

O trabalho das assistentes sociais hospitalares

O Centro Hospitalar do Médio Tejo tem 13 assistentes sociais distribuídas pelos hospitais de Tomar, Torres Novas e Abrantes. O seu trabalho é inteirar-se dos doentes que entram nas unidades e em alguns casos acompanhá-los, quando se suspeita que pode vir a ocorrer uma situação de abandono. “Nas primeiras 24 a 48 horas percebemos logo se vamos ter problemas, verificando se as famílias aparecem no hospital a pedir informações, se tentam falar com o médico, por exemplo”, revela Ana Cebola, directora dos serviços sociais.
Quando se sente pouco interesse da família no doente, as assistentes sociais começam de imediato a trabalhar com os familiares sensibilizando-os que têm de ajudar, que a colaboração deles é fundamental. “Tentamos mostrar que não se podem demitir das suas obrigações e nós disponibilizamos todo o apoio possível”, diz Ana Cebola. Apesar de algumas situações de abandono, se não fosse feito este trabalho preventivo, “teríamos alguns pequenos grandes problemas” com situações de abandono. As assistentes percorrem todo o hospital mas é nas urgências que se identificam logo à partida os casos e começa-se logo a fazer o planeamento do tempo que a pessoa vai ficar internada e a gestão da sua alta hospitalar.

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