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“Nunca tive prazer com nenhum homem e no início até sentia nojo”
Foto DR Bonitas mulheres recorrem à prostituição para ganhar a vida

“Nunca tive prazer com nenhum homem e no início até sentia nojo”

O Dia Internacional da Prostituta foi assinalado no sábado, 2 de Junho. A comemoração da data tem como objectivo denunciar a discriminação e a exploração das prostitutas, assim como as precárias condições de vida e de trabalho. O MIRANTE recolheu testemunhos de profissionais do sexo que trabalham em Santarém e Tomar.

Edição de 07.06.2018 | Sociedade

No Dia Internacional da Prostituta, que se assinalou no sábado, 2 de Junho, O MIRANTE foi falar com algumas profissionais do sexo que trabalham na região. Ligamos a catorze trabalhadoras da mais antiga profissão do mundo mas só duas aceitaram falar para a reportagem.
Paula, de 50 anos, que atende na cidade de Santarém, e com anúncio num dos jornais diários, aceitou falar com o jornalista para contar como a vida a trouxe até esta profissão. Conta que casou com 16 anos e que perdeu o seu marido num trágico acidente de automóvel, ficando viúva aos 28. Natural do sul do país, trabalhou em Queluz numa pastelaria e de repente viu-se “sem emprego” depois do estabelecimento comercial encerrar há cerca de sete anos.
“Fomos de férias e quando voltei a firma tinha encerrado e vi-me sem emprego e com contas para pagar. No nosso país, com 45 anos somos velhos demais para arranjar emprego e somos novos demais para a reforma e foi esse o motivo que me trouxe até esta vida depois de velha”, conta, acrescentando que ninguém da sua família sabe da sua forma de ganhar a vida. “Pensam que estou a tomar conta de uma senhora idosa”, explica.
Paula afirma que escolheu Santarém por ser uma cidade onde não conhecia ninguém e para ninguém saber da sua profissão. “Para Lisboa não podia ir porque vai para lá muita gente, podiam encontrar-me por lá e por isso escolhi Santarém”, refere.
“Não tenho prazer naquilo que faço e só o faço para sobreviver, não podia ir viver para debaixo da ponte. Nunca tive prazer com nenhum homem e no início até sentia nojo. Com o primeiro cliente foi muito doloroso, senti muito nojo por ele me estar a tocar e não o conhecer de lado nenhum. Depois comecei a encarar isto como um trabalho como outro qualquer. Desta porta para dentro é o meu trabalho. Quando saio sou uma senhora como outra qualquer”, diz a O MIRANTE.
Paula conta que vai “continuar nesta vida” até à sua reforma. Já tem clientes fixos e alguns até já são seus amigos. “Arranjei muitas amizades porque são muitos anos no mesmo sítio, que é mesmo assim”.

“Foi esta vida que me escolheu a mim”
Carol é brasileira, tem 35 anos e está há cerca de seis meses em Portugal. Atende em Tomar e nem sequer sabia que se comemorava o Dia Internacional da Prostituta. “Isso existe, querido?”, questiona, com alguma desconfiança. “Nem as meninas que já trabalham aqui há muito tempo me falaram disso”, exclama.
Carol conta que não escolheu esta vida. “Foi esta vida que me escolheu a mim. Tive alguns problemas na vida e acabei nesta profissão”, afirma enquanto vai tentando despachar a conversa porque diz não poder continuar a falar e que liguemos mais tarde. Ligamos mas nunca mais atendeu as nossas chamadas.

Ex-prostituta da Nova Zelândia condecorada pela Rainha de Inglaterra

Uma antiga prostituta neozelandesa chamada Catherine Healy foi condecorada pela Rainha de Inglaterra, a 21 de Abril, com a Ordem de Mérito pelos serviços em prol dos direitos das trabalhadoras do sexo. A descriminalização da prostituição na Nova Zelândia foi aprovada em 2003.
Quando a polícia da Nova Zelândia prendeu Catherine Healy depois de invadir o bordel de Wellington em que trabalhava, durante os anos 80, era impossível imaginar que um dia seria reconhecida pela rainha pelos seus serviços à indústria.
Durante anos, Catherine Healy e outras profissionais do sexo lutaram contra o estigma querendo mais direitos e reconhecimento da profissão. Ajudou a desenvolver um projecto de lei ao lado de políticos que descriminalizava o trabalho e salvaguardava os direitos das trabalhadoras do sexo. Healy esteve presente no momento da votação em 2003, quando o projecto de lei foi aprovado no parlamento por um voto.

Data celebra protesto

A origem do Dia Internacional da Prostituta está no protesto de 2 de Junho de 1975 quando mais de cem mulheres ocuparam a igreja de Saint-Nizier, em Lyon, França, em protesto contra a repressão sofrida na altura. O protesto visava as multas recebidas, as detenções e os assassinatos de colegas que não eram investigados.
A cobertura mediática do incidente levou a mais protestos organizados por prostitutas, quer em França, quer noutros países do mundo. Apesar do apoio da população, a ocupação terminaria na madrugada de 10 de Junho, após uma expulsão pela polícia fazendo uso da violência. A brutalidade das autoridades levaria a uma maior indignação e desde 2 de Junho de 1976 relembra-se anualmente este incidente e luta-se para a regularização da profissão.
A comemoração deste dia tem ainda o objectivo de denunciar a discriminação e a exploração das prostitutas a nível mundial, assim como as precárias condições de vida e de trabalho.

“Nunca tive prazer com nenhum homem e no início até sentia nojo”

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