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“A voz como instrumento obriga-nos a mostrar a alma e isso é assustador”

“A voz como instrumento obriga-nos a mostrar a alma e isso é assustador”

Raquel Oliveira é uma soprano de Benavente que canta poesia de Natércia Freire, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. A primeira vez que a ouvimos ficamos rendidos. Daí esta conversa numa altura em que estreou um novo espectáculo. É uma conversa para darmos a conhecer a mulher, a mãe e a professora. Falta neste texto a critica especializada ao seu espectáculo e à sua voz. Esperamos que ao longo do tempo os leitores mais exigentes possam ouvi-la por aí para partilharem, ou não, o nosso entusiasmo.

Edição de 21.06.2018 | Entrevista

Raquel Miriã de Oliveira, vamos começar por aqui. Que nome é este?

Quando os meu pais me foram registar no Consulado Português na África do Sul disseram que Miriã se escrevia assim, com til e teve que ficar assim.

Joanesburgo porquê?

Os meus pais já viviam lá há três anos. Foi lá que nasci e onde ainda tenho família a residir.

Ainda sentiu o que era viver numa outra terra embora só até aos seis anos?

Tenho muitas memórias, sobretudo da comunidade portuguesa e daquela união da qual muito se fala quando as pessoas vivem fora de Portugal. Havia um grande espírito de união. Tenho gratas memórias dessas amizades de infância.

Quando chegou a Portugal notou muitas diferenças?

Muitas. Foi em 1980. Tudo era diferente em Portugal. Aqui parecia tudo muito mais antigo. Ir à mercearia do bairro era uma coisa que lá não existia. Achei as pessoas muito fechadas. Na altura, os meus pais vieram viver para Muge [Salvaterra de Magos] e ainda hoje tenho aquela memória das senhoras todas vestidas de negro, porque eram viúvas. E isso para mim era algo muito estranho, porque não estava habituada a essa cultura. E depois as pessoas eram muito reservadas, muito tristes.

E a língua, como é que foi?

Em casa era o português. O inglês era sobretudo na escola. A minha geração que ficou por lá agora só fala inglês. Poucos mantém o português e sempre como segunda língua. No meu caso, o inglês era segunda língua.

Porquê Muge?

Os meus avós viviam cá.

O Ribatejo é a sua terra de sempre?

Inicialmente custou-me muito a adaptação, mas hoje gosto muito de viver em Benavente. E gosto muito de viver em Portugal. Já não me imagino a regressar à África do Sul. Aliás, das vezes que lá voltei houve sempre a questão da insegurança.

De que forma é influenciada pelos hábitos e costumes da região?

Bastante. Gosto muito da lezíria. E da figura do campino, do cavalo e do colorido da paisagem e do que está associado ao campo. Gosto muito do Ribatejo.

Já fez um piquenique nas margens do Rio Tejo?

Sim e gosto de fazer caminhadas junto à zona ribeirinha.

Porquê professora?

Teve muito a ver com a influência da minha mãe que era professora de Educação Musical. Acompanhei de perto a sua vida profissional e isso influenciou-me.

A sua mãe também é culpada dos seus gostos musicais?

Sim, também, porque a minha mãe também estudou canto e piano no Conservatório. Sempre houve na nossa casa um ambiente muito ligado à música. Há um piano nas nossas vidas comuns que foi o primeiro presente que o meu pai deu à minha mãe depois de casarem. Antes da mobília foi o piano. Comecei a aprender piano, depois guitarra e a participar nos projectos que a minha mãe ia dinamizando.

Onde foi buscar essa voz de soprano?

Se calhar também é herança da minha mãe. Fui parar ao canto a conselho da diretora da Escola de Música de Santarém. A minha ideia inicial era inscrever-me nas aulas de violino. Nessa altura nem me imaginava a cantar.

Não sabia que tinha essa voz ?

Cantava, mas não assim. E tinha vergonha de me expor. Era muito tímida, achava que com um instrumento passava mais despercebida. A voz como instrumento obriga-nos a várias exposições e uma delas é a nossa intimidade/interioridade; na altura aquilo para mim era muito intenso, duro e assustador. Para falar verdade nunca tive esse sonho de ser cantora.

Nunca pensou prestar provas para voos mais altos?

É difícil ter uma vida profissional com filhos e ainda juntar uma actividade cultural. Como professora acabo por ter sempre muito trabalho, mesmo quando não estou em aulas.

Ter uma família é tão importante como ser artista?

Para mim é muito importante.

Ganha dinheiro com a música?

Até agora tem sido mais o dinheiro que investi do que o que ganhei.

Acha que é suficientemente conhecida na sua comunidade?

Se calhar sou. Não sei se quero ser ainda mais. Talvez como divulgadora de poesia. Isso interessa-me como realização pessoal.

Fale da sua experiência como professora e das diferenças em relação à sua geração

Dou aulas há 20 anos. Há grandes mudanças na sociedade que a escola tem dificuldade em acompanhar. Na sua maioria os alunos parece que estão sempre a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Têm interesses que não são necessariamente aqueles que nós lhes queremos ensinar. Acho que é um grande trabalho para nós, professores, repensarmos a escola e a sala de aula para estarmos mais de acordo com aquilo que os alunos precisam de aprender, tendo em conta as novas realidades.

Consegue saber quais são os alunos que gostam de poesia ?

Consigo. Vamos falando sobre quase tudo. Eles vêem muitos filmes, séries na televisão e, sobretudo, dedicam-se aos jogos. O universo dos jogos está sempre muito presente. Isso às vezes preocupa-me como professora.

Como é que vê a relação entre rapazes e raparigas?

Às vezes espanto-me como ainda existe tanto preconceito e desigualdade.

Culpa do meio rural ?

Sim. E do contexto familiar.

Como nasceu a ideia de juntar Fernando Pessoa e Florbela Espanca num espectáculo de canto e música?

São dois poetas que admiro. Pessoa tem um poema em que fala de Florbela Espanca e se refere a ela como “uma alma sonhadora” e “uma alma gémea da sua”. Este espectáculo propõe um diálogo entre os dois a partir da sua poesia.

Quem é que a ajudou a montar este espectáculo?

A minha mãe, a Maria Calixto Curado, que toca piano, e o Carlos Marques, que fez os arranjos da parte instrumental.

A forma de interpretar cada poema foi muito trabalhada?

Nem por isso. Faço isto com alguma facilidade.

Quantos poemas tem o espectáculo?

Tem quinze poemas. São oito de Fernando Pessoa e sete de Florbela Espanca. Dá um espectáculo de uma hora porque faço questão de misturar sempre uns poemas de Natércia Freire. É uma forma de invocar uma grande escritora da minha terra.

A arte como realização pessoal logo a seguir à família e à profissão

Raquel Oliveira é uma artista de Benavente que gosta de cantar poesia. Descobrimo-la recentemente em Benavente num espectáculo dedicado à poesia de Natércia Freire que criou momentos emocionantes na hora de homenagear a poeta que nasceu no coração do Ribatejo. Mais recentemente Raquel Oliveira deu corpo a um outro espectáculo que estreou em Abril também em Benavente. Com a ajuda da mãe e de alguns amigos, musicou e cantou poemas de Fernando Pessoa e Florbela Espanca, dois dos mais significativos poetas da língua portuguesa de todos os tempos.
Raquel Oliveira diz que gostava de continuar a divulgar a poesia mas para isso precisa de dar a conhecer o seu trabalho. Concordamos com ela e propusemos uma conversa que a desse a conhecer ao público, mas também a quem tem a responsabilidade de organizar iniciativas culturais. Como é fácil verificar pela conversa que se segue o cachet não é problema.
A soprano Raquel Oliveira anda sempre a cantarolar. É professora, nasceu em Joanesburgo, onde viveu até aos seis anos, e reside em Benavente. Tem dois filhos. Para ela, citando Pessoa, a pátria é a língua portuguesa. Muito influenciada pela mãe no gosto pela música, nunca deixou de estudar, nomeadamente na Escola de Música de Santarém, onde fez a sua formação. Raquel Oliveira nunca se imaginou a cantar. Era muito tímida e sentia que o canto a obrigava a uma exposição que ela não gostava.
Aos quinze anos, quando se foi inscrever nas aulas de violino, a directora da Escola de Música Santarém aconselhou-a a mudar para o Curso Geral de Canto. Com os conselhos e a influência da mãe, que também estudou canto e piano e é professora de Educação Musical, aceitou o desafio. Vive em Benavente, onde se sente bem. Gosta da lezíria, dos campinos, dos cavalos e do colorido que lhes está associado. Costuma fazer caminhadas à beira-rio e sente que hoje Benavente começa a ter uma maior proximidade ao Tejo. Nunca pensou seguir uma carreira artística mas a música faz parte da sua vida e tem uma componente de satisfação e gratificação que a ajuda a ser feliz diariamente.

“A voz como instrumento obriga-nos a mostrar a alma e isso é assustador”

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