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Usar piercing dá estilo mas pode ser um problema
Andreia Vicente e Cláudia Martins

Usar piercing dá estilo mas pode ser um problema

Os piercings fazem parte da cultura urbana, tornaram-se um acessório de moda como muitos outros e até já existe o Dia Internacional do Piercing Corporal, que se assinala a 28 de Junho. Há quem os coloque expostos à vista de toda a gente ou em partes mais íntimas do corpo como um mamilo ou o clítoris. Diz quem sabe que as raparigas são mais desinibidas nesse campo.

Edição de 27.06.2018 | Sociedade

Já lhe mandaram esconder os piercings no trabalho e já foi olhada de lado, mas nada que impedisse Filipa Pais de continuar a colocar mais piercings no seu corpo. “É como andar numa montanha russa. A adrenalina sentida é tão boa que vale bastante a pena”, afirma a jovem de 29 anos que neste momento está à espera do seu primeiro filho. Uma condição que não a impede de ter 14 piercings no corpo, como na língua ou num mamilo. E não tem dúvidas que o piercing está mais que na moda: “Neste momento é mais difícil encontrar alguém sem piercing do que com pelo menos um. É que, para além de se poder tirar, não prejudica no dia-a-dia”.
A residir há quatro anos no Sardoal, Filipa Pais conta que foi com nove anos que fez o seu primeiro piercing. As suas amigas também tinham e a sua mãe autorizou. A partir daí nunca mais parou. “Comecei nas orelhas, depois fiz no nariz, no pescoço, no freio da boca, no umbigo, no mamilo e nos pulsos. “O que me doeu mais foi mesmo o do pescoço. Na altura tinha 16 anos e fui com o meu pai. Como era um piercing ‘surface’ senti tudo”, recorda.
Há dois anos a gerir a loja Anarchy Tattoo & Piercing, em Abrantes, Filipa Pais admite que são as raparigas que mais pedem para fazer piercings. “Eles são mais medricas”, ri-se. O mesmo acontece em relação aos pedidos. Elas são mais aventureiras que eles. “Nelas já fiz no clítoris e no mamilo. Quanto a eles apenas fiz no mamilo”. O problema, diz, é a abstinência sexual que é necessária depois de ser colocado o piercing. “Eles não lidam bem com o facto de terem de ficar um mês sem poderem ter relações sexuais”, adianta.
Os patrões anti-piercing
Uma para se sentir mais bonita. Outra para ser diferente. Cláudia Martins, 40 anos, e Andreia Vicente, 19 anos, mãe e filha, há muito que já adoptaram a moda dos piercings lá em casa. Uma paixão tão grande que Cláudia decidiu tirar um curso para os colocar e abrir uma loja dedicada às tatuagens e piercings em Santarém. “Isto é uma paixão incondicional. É por isso que já penso fazer o próximo. Desta vez no mamilo”, revela Cláudia Martins.
E se a mãe, com apenas três piercings – língua, nariz e umbigo – não tem sido prejudicada no trabalho, já com Andreia, que opera no ramo da restauração, a história é outra. “Já tive de os colocar mais pequenos e mesmo de os tirar. Na restauração os proprietários são muito austeros”, conta a jovem actualmente com piercings nas orelhas, língua, nariz e mamilo.
Foi aos 13 anos que Andreia fez o seu primeiro piercing. Na altura, fez no nariz por ser mais discreto. “A minha mãe nunca me incentivou. Muito pelo contrário. Ela sempre travou a minha vontade para não me prejudicar a nível do trabalho”, explica a jovem.
“É uma pequena dor mas, fica tão bonito no corpo que vale a pena”, confessa Andreia Vicente. O mesmo sente a sua mãe. “Coloquei o meu primeiro piercing no umbigo aos 18 anos. Na altura, foi forma de me sentir sensual e ser diferente. Agora se tirar os piercings sinto-me logo despida”, admite Cláudia Martins.

Filipa Pais

Dois pedidos especiais

Proprietária há cinco anos da loja Star Tattoo, Cláudia Martins diz que hoje os piercings são cada vez mais vistos como um acessório. “Aqui na loja não fazemos nem nas zonas genitais nem no freio da língua e no septo – que separa as duas narinas – por ser perigoso. Mas também já recusámos colocar piercings cruzados no mamilo”, explica Cláudia, lembrando-se de dois pedidos que a comoveram. Um, conta, foi de uma mulher de 60 anos. “Ela queria colocar o seu primeiro piercing no nariz e nós fizemos”. Outro foi de uma rapariga que tinha leucemia num estado muito avançado e tinha o sonho de ter um piercing no umbigo. “Foram momentos que vão ficar sempre na nossa memória”, confessa Cláudia Martins.

Inês Louro

A importância de recorrer a profissionais

No Dia Internacional do Piercing Corporal, que se assinala a 28 de Junho, celebra-se, sobretudo, a arte da perfuração corporal. Quem faz piercings sem possuir formação para tal não tem noção do risco em que coloca o outro. Não é só espetar uma agulha. Há locais e formas específicas para serem colocados e pontos do corpo que quando furados podem afectar a saúde e provocar danos irreparáveis, para não falar das infecções fúngicas, bacterianas e doenças transmissíveis, que podem resultar da falta de esterilização do material. A opinião é de Inês Louro, 27 anos, body piercer há quatro anos na Old Cat Tattoo, em Samora Correia.
A profissional da perfuração corporal é especializada na colocação de praticamente todo o tipo de piercings, entre os quais nariz, sobrolho, umbigo, cartilagens, língua, genitais, microdermais e surfaces. No concelho de Benavente, garante que os mais procurados são os piercings no umbigo, língua, nariz e orelhas; e que é raro alguém pedir para furar em sítios mais íntimos, como nos mamilos ou genitais. Os surfaces e microdermais começam a ganhar procura.
Inês Louro considera inadequado pessoas não profissionais desempenharem a actividade. Critica a falta de fiscalização dentro da profissão, especialmente em matérias de segurança e higiene.

Patrícia Almeida

“Acho normal que cada um se fure onde quer e bem entender”

Cinco piercings nas orelhas, um no nariz e outro no umbigo. A contagem não vai parar por aqui. Prepara-se para furar novamente o umbigo, desta vez na parte inferior, e gostava de perfurar o septo nasal. Chama-se Patrícia Almeida, tem 41 anos e ainda vive a fase “rebelde” da vida.
“Acho normal que cada um se fure onde quer e bem entender, desde que seja feito por profissionais”, da perfuração corporal, diz Patrícia a
O MIRANTE. Era ainda uma adolescente quando fez os primeiros furos nas orelhas e aos 23 furou o nariz em casa de uma amiga, com uma pistola de furar, utilizada geralmente para colocar brincos nas orelhas. “Não infeccionou, mas podia ter corrido mal”, recorda.
Frequentou a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, mas acabou por deixar os estudos e tornou-se bailarina de danças orientais de fusão. Actualmente está a tirar nova formação em dança clássica indiana e este é um dos motivos porque quer voltar a furar o umbigo. “Neste tipo de danças, o piercing no umbigo já faz parte dos acessórios utilizados. São geralmente piercings de grandes dimensões”, explica a bailarina.
Perguntamos se já sentiu algum tipo de discriminação no local de trabalho. Patrícia acena afirmativamente com a cabeça: “Metem-nos carimbos. Favorecem o exterior, quando na verdade o mais importante é o desempenho da pessoa. Não era capaz de trabalhar num sítio onde não me aceitam como sou”. Apesar disso, considera que a sociedade está mais “mente aberta” e já não vê as pessoas com furos corporais como “delinquentes”.

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