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“Meter as famílias ciganas em bairros só de ciganos é errado e gera problemas”
Carlos Miguel

“Meter as famílias ciganas em bairros só de ciganos é errado e gera problemas”

Escolaridade dos portugueses de origem cigana é baixa mas há muitos casos de sucesso

Edição de 12.07.2018 | Sociedade

Em Abril, depois de reconhecer o fracasso da estratégia aprovada em 2013, para maior integração das comunidades ciganas, o Presidente da República revelou que uma das componentes da nova estratégia em preparação é a educação. Carlos Teles, conhecido por Caló, ex-forcado dos Amadores de Vila Franca de Xira, não pode deixar de estar mais de acordo.
“A escola e o acesso ao emprego são factores essenciais para facilitar a integração. Há muitos ciganos que, por terem estudado, chegaram a lugares de topo. A Leonor Teles (cineasta que recebeu um Urso de Ouro no Festival de Berlim com o filme “Balada de um Batráquio”) e o meu primo direito Carlos Miguel, que foi presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras e hoje é secretário de Estado das Autarquias Locais, são bons exemplos”, sublinha.
O Dia Nacional do Cigano celebrou-se a 24 de Junho e O MIRANTE falou com alguns ciganos de sucesso. O secretário de Estado das Autarquias foi um dos que aceitou dar o seu testemunho sobre o tema.
Carlos Miguel, que se tornou a primeira pessoa de origem cigana a chegar a um Governo de Portugal conta que nunca sentiu mais dificuldades na vida por ser cigano. “Já foi mais difícil ser-se cigano em Portugal mas ainda hoje a comunidade tem algumas dificuldades. Tem sido difícil implementar políticas que possam a médio/longo prazo vencer estigmas que persistem”, diz o governante.
O pai de Carlos Miguel era de etnia cigana e vendia sapatos nas feiras. A mãe não era cigana e a relação dela com as pessoas de etnia cigana sempre foi complicada. “A culpa da fraca integração da comunidade é repartida. Nunca há culpa só de um lado. É evidente que a comunidade cigana tem de ser mais aberta a outras formas de estar na vida e também ser mais respeitadora em pequenas coisas do quotidiano que por vezes se transformam em grandes problemas, mas também não é menos verdade que a sociedade dominante e o Governo devem apostar em políticas e acções que tornem esse caminho mais fácil”, defende.
E dá um exemplo de uma situação que muitas vezes gera graves problemas mas que poderia ser atenuada. “Uma família cigana que esteja instalada num condomínio e tiver música em altos berros até às tantas da manhã, é óbvio que incomoda os vizinhos e que estes depois vão dizer mal não daquela família mas dos ciganos em geral. Se tivéssemos um mediador que falasse com uns e com outros e que chamasse a atenção daquela família que está a criar mau ambiente, o problema poderia morrer à nascença”, defende.
“Ser cigano dá-me o ‘salero’ que os outros não têm”
O facto de ser cigano não impediu Carlos da Conceição (Parreirita Cigano) de vingar no mundo da tauromaquia. Cavaleiro profissional desde o ano passado, quando tirou a alternativa a 29 de Junho na Grande Corrida de O MIRANTE no Campo Pequeno, o toureiro garante que ser cigano não o tem prejudicado e até destaca algo positivo. “Ser cigano dá-me o ‘salero’ que os outros não têm e as pessoas apreciam”, afirma o jovem de 30 anos, realçando que todos os seus colegas o acarinham.
Apesar do seu orgulho e amor-próprio, reconhece que ser cigano ainda pode prejudicar algumas pessoas. “Sei que os ciganos estão associados a coisas negativas e é um problema mas eles são capazes de estudar e de arranjar trabalho”, defende, dando o exemplo de uma irmã que se licenciou em Gestão de Empresas, de uma outra que é licenciada em Farmácia e de uma terceira que abriu o seu próprio negócio.
Tanto ele como o ex-forcado Carlos Teles sublinham a importância da família e também do respeito. “Nós temos uma cultura diferente mas a diversidade e a diferença não são coisas más. O meu pai, António Teles, sempre foi uma figura importante na comunidade cigana e fora dela, sendo um elo de ligação entre as várias raças ciganas e entre os ciganos e a sociedade em geral. Entre os seus amigos, destacam-se pessoas como Júlio Borba, José Falcão e D. Duarte de Bragança, que o convidou para o seu casamento.
Quanto a um dos aspectos negativos da integração, menciona as políticas de habitação social aplicadas durante muitos anos, que defendiam o princípio de não se misturarem os ciganos com os restantes elementos da comunidade. “Colocarem as famílias ciganas em bairros sociais, longe da restante comunidade, é errado. É aí que nascem os criminosos”, desabafa.

Carlos Conceição (Parreirita Cigano)

Comunidade cigana em Portugal andará pelas 37 mil pessoas

Não há números exactos sobre o número de portugueses ciganos mas em Maio do ano passado, o alto-comissário para as Migrações disse que a comunidade cigana em Portugal seria constituída por cerca de 37 mil pessoas, sendo que 91,3%, não têm o 3.º ciclo do ensino básico.
Os dados mencionados por Pedro Calado, que resultaram de um primeiro estudo nacional sobre as comunidades ciganas em Portugal feito com a ajuda das autarquias, revelavam também que, para mais de 50% dos ciganos o RSI (Rendimento Social de Inserção) tinha sido um factor que tinha contribuído para os fazer regressar à escola, estudar e ir mais longe.

Carlos Teles
“Meter as famílias ciganas em bairros só de ciganos é errado e gera problemas”

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