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A vida de campino mudou com o tempo mas continua a seduzir
Paulo e Duarte Carta

A vida de campino mudou com o tempo mas continua a seduzir

A vida de campino já não é o que era, porque a evolução tecnológica facilitou ou suprimiu tarefas a esses homens cuja imagem icónica continua associada ao cavalo e ao toiro. Embora haja alguns que já só montam a cavalo para as festas. A profissão, em muitos casos, vai passando de geração em geração.

Edição de 12.07.2018 | Sociedade

O campino, imagem de marca das Festas do Colete Encarnado, foi homenageado este sábado em Vila Franca de Xira. O MIRANTE falou com as pessoas que assistiam à cerimónia da entrega do pampilho de honra e a maioria mostrou que a imagem do campino lhe sugere as ideias de “campo” e “trabalho”. Mas também houve quem falasse em “Ribatejo”, “bois”, “homens valentes”, “Colete Encarnado” e “loucura”.
Os campinos Daniel Coelho, Paulo e Duarte Carta dizem que “trabalho” e “campo” são as palavras mais acertadas para definir a profissão mas mostram que há muito mais a descobrir nessa actividade. “O amor à profissão”, de que nos falou Mário Coutinho, 46 anos, técnico de material aeronáutico, e Cristiano Afonso de 14 anos e estudante, e a “paixão pelo trabalho que praticam” referida por Augusto Madeira, 67 anos, técnico de máquinas, são visíveis nos olhos destes homens quando descrevem o que fazem.
Daniel Coelho é maioral da Ganadaria Cunhal Patrício há quinze anos e explica que o trabalho no campo consiste essencialmente em vigiar os animais, alimentando-os e verificando que estão bem. Apesar da evolução dos tempos, na Ganadaria Cunhal Patrício o trabalho ainda se faz a cavalo, utilizando tractores apenas para levar a alimentação ao gado.
Daniel Coelho nota que, desde que começou a trabalhar, tem havido alterações significativas. Entre elas, destaca os horários mais reduzidos que alguns colegas de profissão têm, o que não é o seu caso, porque vive na propriedade e não tem horas para começar ou para acabar a jornada, fins-de-semana ou feriados. Refere: “Isto é mais por um gosto meu do que por imposição dos patrões. Eu entendo que deve ser assim. Se eu como todos os dias, os animais também têm de comer todos os dias”.

“Dantes andava tudo a pé, havia campinos a sério”
Paulo Carta, da casa Herdeiros de Alexandre Carta, também nota diferenças entre a arte de campinar de hoje e a de há vinte anos. O maioral refere: “Antigamente levava-se o gado de um lado para outro a pé ou a cavalo. Hoje uma camioneta vai buscar um toiro ali e depois leva um jogo de cabrestos. Dantes andava tudo a pé, havia campinos a sério”. Conta que os seus familiares ligados à campinagem transferiam o gado de terrenos a pé, o que hoje já não é usual, porque as distâncias são maiores e a evolução trouxe novas formas de fazer esse serviço.
O jovem campino Duarte Carta, filho de Paulo Carta, tem onze anos e acompanha o pai desde os quatro. Diz que quer seguir as pisadas do pai, continuar a montar a cavalo e lidar com o gado. A primeira vez que lidou com os toiros sentiu um pouco de medo, mas a paixão pela vida no campo é tão forte que o faz enfrentar esse medo.
Paulo Carta, campino desde os catorze anos, conta que o filho ainda era muito pequeno e já ia ter com o pai à herdade onde este trabalhava. Paulo Carta passou por várias casas agrícolas antes da casa Herdeiros de Alexandre Carta, como a Casa Agrícola Eng. Rosa Rodrigues, Quinta das Paulinas e Manuel Assunção Coimbra.

Até os cavalos foram mudando
A paixão pela profissão vem de família e vai passando de geração em geração. “Não se deve deixar morrer esta profissão. Não é por interesse ou por dinheiro nem com brigas e zaragatas com os colegas nas festas, porque isso não é nada. Vale mais ter força de vontade por gostar disto e andar na arte por amor à camisola e darmo-nos todos bem”, diz Paulo Carta.
O maioral conta que até os cavalos foram mudando, pois antigamente estavam mais trabalhados do que hoje, porque acompanhavam sempre os campinos e agora estão mais confinados às cocheiras, o que por vezes provoca situações em que os animais atiram os cavaleiros para o chão.
No seu dia-a-dia, costuma ir a cavalo tratar do gado, mas há quem siga de carrinha. Explica que os toiros recebem melhor os cavalos do que os carros, dos quais fogem quando se aproximam. Paulo Carta destaca a ligação que existe entre os cavalos e os toiros e estes animais e o maioral: “É o maioral que põe a farinha aos toiros, chega lá e fala com eles, manobra-os, eles olham e reconhecem-no. Se for outra pessoa estranham e fogem”.

Daniel Coelho

Um trabalho reconhecido

Das onze pessoas com quem O MIRANTE falou, que assistiram à Homenagem ao Campino, sete conhecem o trabalho do campino enquanto as outras quatro nunca viram, mas imaginam algo muito próximo da realidade. Joaquim Pereira, 60 anos, fiel de armazém, de Évora, que costuma vir às festas do Colete Encarnado, diz que para ser campino é preciso gostar-se muito do que se faz.
Rogério Charrua, 55 anos, afirma: “Tem que se pôr um C grande no campino. O campino é um homem do Ribatejo”. Já para Mariana Ribeiro, de 20 anos e estudante, a festa do Colete Encarnado serve para mostrar às pessoas, vilafranquenses e forasteiros, o que é a figura do campino e que aqui pode também notar-se que a tauromaquia abrange muito mais do que as touradas, pois engloba o trabalho destes homens.

A vida de campino mudou com o tempo mas continua a seduzir

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