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Casével: uma freguesia onde se vive bem mas de carrinho à porta

Casével: uma freguesia onde se vive bem mas de carrinho à porta

No extremo norte do concelho de Santarém, a 27 km da sede de concelho e encostada a Alcanena, Torres Novas e Golegã, Casével tem vindo a perder população nas últimas décadas. Incapaz de fixar população jovem, há no entanto algumas excepções. O MIRANTE foi conhecer gente resiliente que se molda às circunstâncias e ali persiste, faz vida, trabalha e tem filhos.

Edição de 19.07.2018 | Sociedade

Rita Costa é um dos exemplos de resiliência. Com 43 anos, é natural da freguesia vizinha, Alcorochel. É casada com Filipe Rangel, de 48 anos, natural de Angola. Viveram em Torres Novas, num apartamento, enquanto Rita trabalhava na sua área de formação, engenharia agrícola, com o curso da Escola Superior Agrária de Santarém.
Durante mais de 10 anos trabalhou como gestora da gama jardim na base do Intermaché, em Bugalhos, Alcanena. No currículo tem também o cadastro olivícola do distrito de Santarém, feito para o INGA-Instituto Nacional de Intervenção e Garantia Agrícola, ou a formação na cooperativa agrícola de Torres Novas, mas o que gostava mesmo de fazer era ter um negócio próprio, de preferência relacionado com as ervas aromáticas. “Galinha de campo não gosta de capoeira”, graceja.
Quando o marido, na altura agente imobiliário, descobriu a casa ideal para saírem da cidade, fê-lo em Casével. Foi em Casével que surgiu a oportunidade de ter o negócio que Rita almejava. Um dia enquanto fazia compras na pequena mercearia do lugar de Perna Atrás ouviu a proprietária dizer que tinha intenção de abandonar o comércio.
Apesar de estar, àquela data, grávida de 8 meses, Rita e Filipe arriscaram e tomaram conta da mercearia e do café “Cervejaria Azinheira”, que exploram desde 2009. “Não foi fácil”, conta Rita, enquanto serve mais um café, “trabalhamos muito, mas o negócio não dá rendimento suficiente para sustentar uma família de quatro”. É por isso que Filipe segue todos os dias para Santarém onde trabalha como bancário. Não sem antes abrir o café aos primeiros clientes, muitas vezes pouco depois das 6 da manhã.
Com dois filhos, um de 13 e uma de 9 anos, Rita vê como um ponto positivo na freguesia o facto de a escola continuar aberta, ao contrário do que tem acontecido em freguesias vizinhas, como Alcorochel ou Brogueira, que já encerraram por falta de alunos, “obrigando os miúdos a deslocações diárias para outras escolas como a dos Riachos”, exemplifica. Contudo lamenta que não haja infra-estruturas desportivas.

Estefânia e José vivem da agricultura com a ajuda das reformas
Casével não existe como lugar, resulta do nome dado ao conjunto de todos os locais que compõem a freguesia, e tem como “sede” a Comenda (Comenda da Ordem de Cristo). Foi aqui que O MIRANTE encontrou Estefânia. Acabou de sair do pequeno posto farmacêutico que há no centro da freguesia, uma extensão da farmácia Almeida em Pernes, com um horário errático, mas que normalmente coincide com os dias em que há atendimento no posto médico da freguesia (às segundas e quintas-feiras).
“Fui comprar uma pomada para as dores, dói-me o tornozelo. Tenho uma tendinite. São as maleitas da idade. Não perdoam. Ainda não há muito tempo fui parar ao hospital, rebentou-me uma úlcera no estômago”, diz já sentada em casa. “Por mês vão mais de 30 euros para a farmácia. Tensão, estômago, dores…”. Mesmo assim é ela que trata das lides domésticas e que ajuda o marido e o filho mais novo nas contas da agricultura. “Há muita papelada para pôr em dia”, desabafa.
Ao marido, José, de 68 anos, qualquer maleita que chegue é tratada com vinho tinto. Mais difícil é contornar as novas regras ambientais, que obrigam, por exemplo, à entrega dos plásticos usados na agricultura num centro, na Chamusca, a cerca de 40 km de Casével. “A GNR anda aí sempre a vigiar, isto agora é assim”, queixa-se e encolhe os ombros.
Estefânia e José Leitão são filhos de pais casavelenses e sempre ali moraram. Estefânia, agora reformada, com 63 anos, foi professora do Primeiro Ciclo e deu aulas mais de 24 anos em Alqueidão, um lugar da freguesia. “É bom viver aqui, mas temos que ter sempre o carrinho à porta”, graceja, aludindo ao facto de não haver praticamente comércio, serviços ou transportes na freguesia. “Se queremos alguma coisa temos que pegar no carro e sair”, remata.
“O trabalho na agricultura não presta, não dá rendimentos suficientes para a malta jovem. Dá para os velhos porque têm a reforma. É uma forma de se entreterem”, diz José. Ainda assim, o filho mais novo do casal, Francisco, de 33 anos, vive com os pais e faz vida da agricultura, ajudando o pai a cultivar mais de 30 hectares onde todos os anos semeiam aveia, trigo ou cevada. Além do cultivo de sequeiro também têm vinha e oliveiras.
Para cuidar de tanta terra José tem três tractores, “cada um mais velho do que o outro”, diz em tom brincalhão. O mais antigo tem 40 anos, a mesma idade da ceifeira-debulhadora John Deere utilizada a meias com João Fazenda Coimbra, o colega agricultor que O MIRANTE encontrou a debulhar cevada no Casal Escabelado.
Da produção anual de fardos, a maior parte segue directamente para a Monsiagro, de Monsanto. Outra parte é vendida localmente, e ainda há que reservar alguns para a alimentação e cama das 60 ovelhas, quatro vacas e um boi.
Segundo José, as sementes seleccionadas têm um custo elevado, “o preço de compra é o dobro do preço de rendimento”, mas não quis especificar valores. Quanto à palha é vendida a cerca de 12 cêntimos o quilo, com os fardos pequenos a rondar os 20 kg e os grandes os 300 kg.
Depois de falar a O MIRANTE, José pega na carrinha 4x4 praticamente nova, abre o vidro, sorri e diz: “isto é tudo pago com o dinheiro da reforma dos velhotes”.

Amadeu conhece a freguesia como a palma da mão
Amadeu Rodrigues desloca-se em duas rodas, nasceu na freguesia há 58 anos e sempre ali viveu. Depois de uma breve passagem pelos torneados em Pernes e de 17 anos a trabalhar nos curtumes em Alcanena, trabalha agora para o Clube de Caça e Pesca de Santarém como Guarda dos Recursos Florestais. Exerce esta profissão há 14 anos, tendo uma área de intervenção de 2155 hectares. Apesar de ser uma área inferior à área total da freguesia, de 34,188 km2, afirma conhecer Casével “como a palma da mão”, realçando que nota cada vez mais “um enorme despovoamento”.
“Nos locais dispersos vê-se muita casa abandonada ou desocupada”, realça Amadeu, acrescentando que “há quem diga mal dos caçadores, mas acho que são muito úteis porque acabam por ser também vigias e trazem algum dinamismo ao comércio local”. A época venatória começa a 15 de Agosto, termina no final de Fevereiro e atrai caçadores de várias regiões do país, como Lisboa ou Leiria. É a altura em que tem mais trabalho, principalmente às quintas, domingos e feriados, que são os dias permitidos para a caça.
“Faço vigilância e controlo dos caçadores, vejo se têm a documentação em ordem, se respeitam as distâncias obrigatórias a manter em relação às estradas, habitações e zonas de cultivo com rega gota-a-gota, porque os chumbos podem fazer estragos”, explica Amadeu.
A freguesia tem vindo a perder população nas últimas décadas. De acordo com os dados do último Censos, viviam em Casével 864 pessoas (no Censos anterior a população ultrapassava o milhar), o que representa uma densidade populacional de 31,2 habitantes por km2. O despovoamento leva à desocupação das terras e cada vez há mais parcelas por amanhar. Nestes terrenos ao abandono multiplicam-se os sacarrabos, que são carnívoros e “dão cabo dos coelhos e das galinhas” refere o guarda. Há ainda outra praga a crescer na zona. São os javalis, que destroem culturas de milho, abóboras e outras.
Mas a grande “praga” que assola a freguesia é a falta de trabalho, um mal que tem levado muitos filhos da terra a procurar oportunidades nos concelhos limítrofes, como Torres Novas, Alcanena, ou, em alguns casos, mesmo na Capital.

Uma freguesia duas identidades

Este trabalho teve em consideração apenas o espaço e habitantes da antiga freguesia de Casével, que desde 2013 passou a designar-se União das Freguesias de Casével e Vaqueiros. Uma alteração ditada pela Lei n.º 11-A/2013, 28 de Janeiro, que obrigou à reorganização administrativa do território e à consequente extinção da freguesia de Vaqueiros, por deliberação da Assembleia Municipal de Santarém, a 20 de Julho de 2012.

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