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Os crematórios estão a acabar com o negócio das campas e lápides
Lucílio Caria produz lápides há mais de 30 anos

Os crematórios estão a acabar com o negócio das campas e lápides

Lucílio Caria, 69 anos, continua a trabalhar a pedra na sua oficina em Atalaia, no concelho de Santarém, mas considera que a actividade está em risco de extinção.

Edição de 26.07.2018 | Identidade Profissional

Lucílio Caria, 69 anos, cedo optou pelo ofício de britar pedra seguindo as pisadas do pai. Actualmente, a fazer lápides na sua pequena oficina na Atalaia, freguesia de Almoster, concelho de Santarém, cria autênticas obras-de-arte em mármores vindos da Batalha. E se quando se iniciou no ofício os clientes eram muitos, agora, com o recurso aos crematórios a aumentar em detrimento da sepultura em cemitérios, começam a contar-se pelos dedos. Tanto que acredita que a arte está em vias de extinção.
Nascido e criado em Atalaia, Lucílio Caria desde cedo foi obrigado a agarrar-se ao martelo e ajudar o seu pai que trabalhava numa pedreira em Casal do Paul, freguesia de Almoster. “O meu pai ficou doente e fui ajudá-lo”, confessa o marmorista. Ainda se manteve na pedreira dois anos até que foi para uma oficina no Cartaxo. “Fiz os meus 14 anos e decidi aceitar o convite e iniciar-me no ofício de fazer pias para lava-loiças”, conta.
Lucílio ainda trabalhou no ramo durante nove anos, até aos 23 anos, quando foi cumprir durante dois anos o serviço militar em Angola. Entretanto regressou e ainda trabalhou numa oficina no Cartaxo durante um ano e meio até se dedicar a fazer lápides para campas. “Comecei por fazer umas folhas e umas flores. Hoje, faço um pouco de tudo. É o que os clientes me pedirem desde crucifixos a santos”, conta Lucílio, que vive da reforma e dos trocos que ganha com esta arte.
Passa os seus dias entre a oficina, mesmo ao lado da sua casa, e o seu pequeno espaço onde coloca os mármores que traz da Batalha. O dia de trabalho começa logo pelas nove da manhã depois de passar pelo café da terra, onde faz questão de ir todos os dias. Depois de uma pequena pausa para almoço, Lucílio continua o seu ofício só parando pelas 19h00, hora que costuma jantar. “Faço questão de fazer sete horas diárias de trabalho, mas se for necessário faço mais. Depende do que tenho para fazer”, revela.
Histórias não faltam na vida deste homem que faz lápides há mais de 30 anos. Uma vez, conta, contactaram-no pelas 22h00 a dizer que tinha morrido uma mulher na Atalaia e era necessário que fosse desmanchar a campa. Como no dia seguinte ia arrancar logo pelas 6h00 para o Algarve decidiu ir fazer o trabalho naquela noite. Agarrou num gerador e num projector e foi juntamente com um ajudante até ao cemitério.
“Já estávamos a trabalhar quando passou lá alguém que achou estranho haver movimento no cemitério àquela hora. Foi por isso que contactou o presidente da junta que, como estava em Fátima, decidiu telefonar à GNR”, conta. Entretanto, já ia para casa quando uma mota começou a fazer-lhe sinais de luzes para parar. “Foi aí que ele me perguntou o que estava a fazer no cemitério e fiquei a saber de tudo”, adianta, dizendo que o condutor da moto logo se aprontou a contactar com a GNR para voltar para trás.
Apesar do ofício das lápides ser considerado por muitos como um negócio de luxo, Lucílio Caria confessa que há cada vez menos pessoas a mandar colocar pedras nas campas. Tudo porque, defende, a cremação está na moda. É que, diz, antes fazia-se duas cremações por ano e agora fazem-se duas por mês. Mas, esse não é o único problema dos marmoristas. Existem também os clientes vigaristas que são cada vez mais. “Eles contactam-nos e nós fazemos o trabalho. O problema é depois, porque na hora de abrir a carteira não pagam. Resultado, obrigam-nos a ir buscar o trabalho”, adianta.

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