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Dois viajantes belgas com casa no cais de Vila Franca de Xira
Luc Fannes e Anna Mermans fazem do seu barco a sua casa

Dois viajantes belgas com casa no cais de Vila Franca de Xira

Luc Fannes e Anna Mermans encontraram no Ribatejo um porto de abrigo que os deslumbrou pela paisagem. Vivem num veleiro e estão encantados com a hospitalidade dos vilafranquenses.

Edição de 27.07.2018 | Sociedade

Para ir ao encontro de Luc Fannes e Anna Mermans atravessa-se a plataforma da marina de Vila Franca de Xira. De um lado, a imensidão do Tejo, do outro os vários barcos atracados na marina e o jardim Constantino Palha. Recebem O MIRANTE com um sorriso rasgado e encaminham-nos para a sua casa: o veleiro Distant Song, o último barco da plataforma que fica mesmo em frente ao cais. O casal belga diz que a paisagem que rodeia o veleiro, no qual vivem desde Janeiro de 2017, foi um dos motivos que os fez ficar aqui até hoje.
O nome “Distant Song” vem do som que o barco faz quando o vento bate nos seus dois mastros e que parece uma melodia. Luc diz que aquele som o faz sentir como se estivesse no ventre da mãe e como se o barco o protegesse. Anna refere que a princípio acordavam a meio da noite com o barulho, mas que hoje, se acordam, pensam “Ah, ok, é só o barco a cantar!”.
Anna e Luc, com idades entre os 55 e os 63 anos, vieram pela primeira vez a Vila Franca de Xira em Dezembro de 2016 para ver um barco que estava à venda na Internet. Em Janeiro compraram-no, arranjaram-no e por ali ficaram.
Apesar de já terem viajado por muitos países e de a experiência de viver num barco não ser novidade para este casal originário de Retie, na flamenga Antuérpia belga, nunca tinham vindo a Portugal. Estiveram nos Estados Unidos, no Reino Unido, Canadá, França, Espanha e nas ilhas do Canal da Mancha (Jersey, Guernesey e Alderney).
A simpatia dos vilafranquenses conquistou-os. “As pessoas tentam ajudar-nos e dizem-nos olá de manhã. Não se faz isso na Bélgica, ninguém diz nada”, conta Anna, e sublinha: “Aqui a vida é como ela é, não é como no Algarve. Aqui há os verdadeiros portugueses. Não é um local de férias. Se queremos outra coisa, podemos sempre ir a Lisboa ou a Cascais.”
Por outro lado, contam que nos primeiros tempos foi um pouco difícil comunicarem com os vilafranquenses, porque, apesar de serem simpáticos, poucos falam inglês no comércio local. Valeu-lhes Anna falar espanhol, ir conseguindo aprender um pouco de português e também as primeiras pessoas que conheceram na cidade - Eduardo Solano, um piloto da TAP reformado que domina a língua inglesa e que lhes vendeu o barco, e Luísa Vieira, proprietária do bar Flor do Tejo que, mesmo não falando inglês, os tentou sempre ajudar na adaptação à cidade.
Em Vila Franca de Xira, tomam o pequeno-almoço no barco, mas costumam ir tomar café fora e vão com regularidade ao mercado da cidade fazer compras. De vez em quando, viajam de barco até ao Seixal, Cascais, Arrábida ou Tróia. Têm planos de, num futuro próximo, irem até ao Algarve ou à Madeira.
Vivem 80% a 90% do tempo no barco mas Anna mantém a sua casa na Bélgica e, de vez em quando, vai lá. Já Luc, que teve um stand de venda de automóveis e está reformado há dezoito anos, vendeu tudo (casa e apartamentos que tinha na Bélgica) há cerca de dois anos. Comprou um pequeno iate nos Estados Unidos onde ficaram cerca de ano e meio e que os levou até ao Reino Unido, França e Espanha. Foi depois de vender este primeiro barco na Holanda que pensou comprar outro e o destino trouxe-os até Vila Franca de Xira.

“Nós vivemos na água”
Luc Fannes nota que em Portugal as pessoas vivem mais na rua do que na Bélgica e que há o hábito de ir comer fora. Anna acrescenta: “Aqui, nós vamos jantar fora duas ou três vezes por semana. Se temos visitas, vamos todos os dias para as pessoas poderem escolher o que querem comer. Quando estamos sozinhos, gostamos de cozinhar, especialmente no Inverno, porque às 19h00/20h00 já está escuro e o que é que vamos fazer para a rua a essa hora?”.
O casal faz a maior parte da vida no barco. Entre as limpezas necessárias e os pequenos arranjos que o barco vai precisando, têm tempo para ler e sair um pouco pela manhã: “Não somos daquelas pessoas que saem muito à noite, gostamos mais de sair pela manhã e de ver como a cidade acorda”.
Os locais da cidade que preferem são, primeiro a vista a partir do barco, depois o mercado, o passeio pedonal até Alhandra e a zona histórica. Vão muitas vezes até Alhandra num barco mais pequeno. Anna conta: “Nós vivemos na água. Ontem estava lua cheia e sentámo-nos aqui só a observá-la”.
Já tiveram televisão no barco na Bélgica, mas agora optaram por não a ter. “As noites eram todas iguais como numa casa normal e então, desta vez, eu disse que não queria tê-la. Se for preciso, vamos dar um passeio à noite, é melhor”, esclarece Anna. Têm Internet, através da qual podem ver as notícias, os jogos do mundial de futebol ou trabalhar, pois Anna ainda não está reformada.
Luc adora viver no barco, já o faz há 45 anos, pois também tem um atracado na Bélgica. Anna confidencia: “Não o ponham numa casa. Deixem-no lá dois dias e percebem que têm de o trazer de volta para o barco”. E Luc acrescenta: “É o meu modo de vida. Até na Bélgica e no Inverno, íamos todos os fins-de-semana viajar de barco”.
Das viagens que Luc fez, a mais longa foi acompanhado e esteve treze dias no mar, quando viajou dos Estados Unidos para o Reino Unido. Já a mais longa que fez sozinho foi de quatro dias e quatro noites no Golfo da Biscaia, da Bretanha, em França, até à Corunha, em Espanha. “Vi uns cem golfinhos e um milhão de estrelas como não se podem ver de terra. Não há uma única coisa que nos impeça de ver as estrelas. É muito bonito. Mas quando a noite é escura, é tudo escuro no mar. Se não estiver nublado, as únicas luzes que temos são as das estrelas e da lua”, diz Luc.

“Se as touradas estão bem para vocês nós respeitamos isso”

O casal ainda não conseguiu estar em Vila Franca de Xira durante as festas do Colete Encarnado ou da Feira de Outubro, mas tem esperança de um dia virem a conhecê-las. No entanto, vão acompanhando as transformações da terra quando se prepara para essas festas. Sobre a tauromaquia, Luc diz: “É a tradição do país. Nós aqui somos os imigrantes e vivemos com as vossas leis. Se as touradas estão bem para vocês, nós respeitamos isso”.
Os grafitis que vão aparecendo em Vila Franca de Xira fazem-lhes impressão: “Sempre que volto, vejo novos grafitis. São terríveis! Pintam as ruas, as casas, as estações e os comboios… É demais!”, diz Anna, desagradada com os estragos que alguns grafitis representam.
Consideram que a informação que chega ao estrangeiro sobre Portugal não é muita. Sabe-se que existe, há informação sobre Lisboa e Porto e pouco mais. Aconselham que se promova o país de maneira a que se conheçam outras localidades que, mesmo sendo mais pequenas, têm imensa história e são muito diferentes umas das outras. Contam que quando foram a Alenquer ficaram agradavelmente surpreendidos com a vila e a acharam tão diferente de tudo o que já tinham visto no país.
Anna e Luc pensam viver em Vila Franca de Xira por mais uns anos. Vão viajar, mas voltam sempre e não têm planos de voltar a viver na Bélgica senão daqui a uns anos. Sentem-se mais seguros, vêem bastante polícia nas ruas e nas lojas o que favorece essa sensação de segurança. “Vemos muito mais polícias nas ruas aqui do que vemos na Bélgica”, referem.
Anna esteve uns dias fora e conta que quando voltou, foi tomar um duche, olhou pela pequena janela da casa-de-banho do barco, viu a luz do sol reflectida na água e pensou: “Como tive saudades disto… da pequena janela e da água!”.

Um barco que é uma casa

O barco tem tudo o que precisam: cozinha, duas casas-de-banho, quartos e sala e se precisarem de ir à Bélgica, estão lá num instante. Meia hora de comboio até à estação do Oriente, seguem de metro até ao aeroporto, apanham o avião e do aeroporto até à casa de Anna, na Bélgica, são 20 minutos. Os bilhetes de avião na época baixa são baratos, por isso vão e vêm com facilidade sempre que precisam.
Têm carro em Vila Franca de Xira mas quase não o usam, porque gostam mais de utilizar o comboio. A estação está a dois passos do barco e Lisboa é já ali ao lado. No entanto, já foram de carro a Sintra algumas vezes e as pessoas de lá já os reconhecem quando voltam.

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