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Pegar um toiro à noite e ir trabalhar no dia seguinte cheio de nódoas negras
Muitos forcados já tiveram que faltar ao trabalho por causa da paixão pelos toiros

Pegar um toiro à noite e ir trabalhar no dia seguinte cheio de nódoas negras

Forcado Ventura Doroteia dos Amadores de Cascais faz a sua última temporada

Edição de 27.07.2018 | Sociedade

Paulo Loução, forcado no Grupo de Forcados Amadores de Cascais, é operador portuário em Sines e na noite de 19 de Julho, quando entrou no Campo Pequeno com os seus companheiros sabia que a seguir às pegas tinha à espera uma viagem de cento e cinquenta quilómetros e mais um dia de trabalho.
Em conversa com O MIRANTE confessa que tem tido sorte com o patrão que por vezes lhe facilita a vida e permite que chegue mais tarde nos dias a seguir às corridas. “Tenho que lhe agradecer por compreender esta minha paixão. Isto é um “hobbie” que tenho que conseguir conciliar com o meu emprego. Até agora tenho conseguido”.
Muitos forcados já tiveram que faltar ao trabalho por causa da sua paixão pela tauromaquia e alguns só continuam a vestir a jaqueta do seu grupo e a pegar toiros porque têm patrões aficionados.
Orlando Lino, dos Forcados Amadores da Chamusca, é engenheiro electrotécnico e explica a O MIRANTE que quando é necessário mete férias para poder ir às corridas. Com 40 anos diz que já não participa em tantas touradas como quando era mais jovem e acrescenta que sempre procurou que a sua actividade taurina não interferisse com a sua actividade profissional.
Revela que não sente obrigação de dizer ao patrão que é forcado nem utiliza essa actividade para se justificar. “Se me aleijo e não consigo ir trabalhar no dia seguinte tenho que avisar que me magoei, como é natural, mas não entro em detalhes. Quando sei que vou a muitas corridas tiro férias”, afirma.
Vários forcados da corrida de toiros de
O MIRANTE no Campo Pequeno, no dia 19 de Julho, falam do entusiasmo de pegar toiros sem ganharem ordenado e da obrigação de trabalhar. As nódoas negras e as dores no corpo fazem parte da vida de forcado e enquanto se sentirem em forma vão continuar a pegar toiros.
Ventura Doroteia, do Grupo de Forcados Amadores de Cascais, é trabalhador agrícola e admite que nem sempre é fácil conciliar a sua paixão com o trabalho. “Umas vezes o patrão facilita-me a vida mas outras vezes não. Tento organizar-me para não falhar com nada, mesmo que isso implique menos horas de sono e trabalhar com nódoas negras e muitas dores no corpo”, afirma.
Rodrigo Ferreira tem 19 anos e é forcado nos Amadores da Chamusca há cerca de um ano. Terminou o primeiro ano do curso de Mecanização e Tecnologia Agrária, na Escola Superior Agrária de Santarém, e ajuda o pai na sua empresa de máquinas e alfaias agrícolas. Diz que não tem dificuldade em conciliar os estudos, com o trabalho e a forcadagem.
“A hora de deitar não tem a ver com a hora de levantar. Nunca faltei às aulas por causa dos forcados. Se tenho corridas à noite, no dia seguinte o meu pai dá-me folga mas eu apareço sempre para trabalhar, um bocadinho mais tarde do que o habitual mas apareço”, confessa, com um sorriso.
LESÕES GRAVES NÃO OS FAZEM DESISTIR DA PAIXÃO PELOS TOIROS
A maioria dos forcados já conta com um grande historial de lesões, algumas mais graves que outras, mas nem isso os leva a ponderar abandonar aquilo que todos dizem ser uma paixão e um modo de estar na vida.
Pedro Espinheira, cabo do grupo de Forcados Amadores do Ribatejo, já fracturou a coluna, as pernas, os braços e as costelas mas apesar de tantas mazelas nunca pensou em deixar os forcados. A paixão por pegar toiros não se extingue devido a qualquer dor no corpo depois de uma corrida.
Forcado há 21 anos, Orlando Lino também já sofreu várias fracturas em algumas pegas mais rijas. A pior memória que guarda nesse aspecto é a de uma corrida na Nazaré. Por ter partido o nariz e...pior que isso, por ter sido obrigado a sair da arena sem conseguir pegar o toiro.
Rodrigo Ferreira é forcado há cerca de um ano, apesar de desde pequeno ter o bichinho da festa brava. Quando era adolescente a mãe disse-lhe que não o autorizava e ele esperou ansiosamente pela maioridade. “Ela disse-me que quando fizesse dezoito anos podia escolher. E assim foi. Nessa altura fui a um treino e nunca mais saí”, recorda.
Pouco tempo depois de entrar para os Amadores da Chamusca lesionou-se no menisco, o que o obrigou a uma paragem de três meses. Mas já regressou às arenas e diz que nada o vai fazer desistir.
Apenas Ventura Doroteia, de 31 anos, já pensou deixar as arenas. “Tenho doze anos dedicados à forcadagem. Já tive muitas lesões graves. Já perfurei um pulmão, parti uma perna, um pé, a clavícula...já são muitos anos, muitas lesões, muitos toiros e tudo tem um princípio, meio e fim. Tenho muita pena mas este vai ser o meu último ano de forcado. Tem mesmo que ser”, diz para se mentalizar, antes de saber que iria receber o prémio da melhor pega da noite.

Pegar um toiro à noite e ir trabalhar no dia seguinte cheio de nódoas negras

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