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Jovem arquitecto de Tomar quer mudar o mundo a fazer casas de adobe
Os adobes são tijolos de terra crua, água e palha ou outras fibras naturais

Jovem arquitecto de Tomar quer mudar o mundo a fazer casas de adobe

Fábio Mendes promoveu curso de construção em que o principal material é a terra. Ainda faltam cinco meses para terminar 2018 e os ecossistemas do planeta já esgotaram os recursos naturais disponíveis para a humanidade, por ano, de forma sustentável. O Dia da Sobrecarga da Terra chegou a 1 de Agosto, o mês em que O MIRANTE encontrou em Curvaceiras, um jovem arquitecto que quer mudar o mundo, um tijolo (de adobe) de cada vez.

Edição de 17.08.2018 | Sociedade

De mãos e barba sujas de lama, mas de sorriso rasgado no rosto, foi assim que O MIRANTE encontrou Fábio Mendes, de 28 anos, na sua aldeia natal, na freguesia de Paialvo, em Tomar.
Em grande azáfama andam cerca de seis participantes do curso de arquitectura e construção em terra, cúpula de adobes, organizado por Fábio, formado na Universidade de Arquitectura de Lisboa, com uma tese de mestrado em Arquitectura de Reintegração Social Sustentável.
No grupo que frequenta a formação encontramos sobretudo estudantes de arquitectura ou arquitectos cansados dos projectos convencionais. O factor aglutinador é a curiosidade e o prazer de descobrir novas formas de construção mais ecológica e sustentável.
Cristina tem 26 anos, é de Tomar e estuda arquitectura na Universidade de Coimbra. Enquanto ajeita com as mãos o reboco, em terra e palha, de um dos pórticos, diz que teve conhecimento do curso pelas redes sociais e veio impelida a aprender um novo método de construção. Está a terminar a tese de mestrado numa área completamente diferente, mas quer abarcar o maior leque possível de tipos de construção antes de se decidir profissionalmente. Com uma carreira profissional de perto de duas décadas encontramos Maria João, de 48 anos. Formou-se na Universidade de Arquitectura do Porto e fez uma pós-graduação em Museologia, na Universidade de Évora. Durante muitos anos trabalhou na recuperação de habitações antigas no Alentejo e diz que não é fácil encontrar quem saiba trabalhar em restauro seguindo técnicas ancestrais. Maria, que veio da Venda do Pinheiro, chegou a desenhar os postos de abastecimento de combustível de uma conhecida gasolineira desde Leiria até ao Algarve, mas está desalentada com a arquitectura convencional onde “o projecto, que devia servir a construção, está apenas a servir a burocracia”.

Ainda há muito preconceito
As vantagens da bio-construção revelam-se principalmente no conforto térmico, no uso de materiais autóctones, cuja preparação pode ser feita no local da obra e, acima de tudo, na sustentabilidade. Contudo, Fábio afirma que ainda há muito preconceito relacionado com este tipo de construção, mas que lentamente as mentalidades vão mudando. À medida que cientistas e investigadores vão conhecendo melhor os materiais a nível molecular, a sua estrutura química e a forma como se comportam, mais facilmente estes materiais são aceites pela comunidade em geral, e pela construção civil em particular, que passa a olhar a arquitectura vernacular de outra forma.
Grande parte do edificado em Portugal, de norte a sul, foi feito recorrendo a técnicas e materiais tradicionais. Quer construções em pedra, mais a norte, quer construções em taipa e adobe, no centro e sul do país. “Agora estamos a voltar a esses métodos”, diz Marco Arestas, que organizou o curso em parceria com Fábio. Marco tem 37 anos, é natural de Lisboa e vive actualmente na região da Patagónia, na Argentina. Também arquitecto, chegou à América do Sul para fazer um mestrado em geometria, e foi assim, por casualidade, que chegou à construção de abóbadas em terra, pela mão de Jorge Belanko, referência mundial na área da bio-construção.
Cruzou-se com Fábio quando foi convidado a leccionar um curso de pós-graduação na Universidade de Arquitectura de Lisboa, promovido pelo Sustenta, Laboratório de Sustentabilidade.
Actualmente vive numa casa com “demasiado pladur”, diz sorrindo, mas está a construir uma habitação de adobe há quatro anos, na Patagónia, que terá cerca de 120 m2, e albergará toda a família, de quatro elementos.

Sustentabilidade económica é tão importante como sustentabilidade energética
Segundo Marco, construir uma casa recorrendo à bio-construção pode significar 15 a 20% de poupança económica ao nível dos materiais. Contudo essa percentagem é diluída em outros aspectos específicos desta construção como o próprio desenho, os colectores solares e de águas pluviais e, principalmente, pela humanização da equipa de trabalho. Por enquanto não é mais barato fazer uma casa de adobe do que uma de alvenaria, a grande diferença é que uma casa de adobe possibilita e motiva a auto-construção.
Para Marco a percepção da bio-contrução vai mudar em poucos anos, quando se tornar um negócio rentável. “A sustentabilidade económica é tão importante como a sustentabilidade energética, por exemplo”, refere, acrescentando que “na Argentina já há muitas empresas de construção deste género. Na Alemanha, por exemplo, as mesmas empresas que vendem o betão vendem os materiais bio, tudo pronto a usar, como a palha já cortada em pedaços de 5 cm ou a argila com a humidade certa. Em Portugal isso também vai chegar, tudo é uma questão de mercado”, remata o arquitecto.

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