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Quatro invisuais num bairro em Benavente a sofrer com obras
Manuel Vieira e Lúcia Mateus protestam por falta de gradeamentos junto aos buracos

Quatro invisuais num bairro em Benavente a sofrer com obras

A conclusão da obra de grande dimensão está prevista para o final do ano. No bairro Ribasor, em Benavente, vivem quatro invisuais, que diariamente utilizam aquelas ruas para se deslocar e têm enfrentado severas dificuldades há vários meses. Criticam a falta de sinalização e de passagens seguras, adequadas à sua condição.

Edição de 17.08.2018 | Sociedade

Obras num bairro são sempre um transtorno, mas quando nesse bairro residem pessoas cegas os obstáculos e incómodos transformam-se em perigos. No bairro Ribasor, em Benavente, quatro invisuais estão a sofrer com trabalhos de requalificação dos arruamentos e passeios da zona, que decorrem desde 17 de Abril. Os moradores têm receio de tropeçar ou cair nos buracos, pedras e outro tipo de material que se encontra na via e que não está devidamente sinalizado, para que possam identificar o perigo. Passaram a circular pela estrada e utilizam percursos alternativos, que não conhecem.
Maria Teixeira Silva, 61 anos, invisual de nascença mora naquele bairro há 25 anos. Conhece os cantos à casa, mas ultimamente é como se andassem a trocar a mobília de sítio. “A cada dia somos surpreendidos por mais buracos, que não estão sinalizados”, diz a O MIRANTE, enquanto caminha pela estrada, na Rua Alfredo Betâmio de Almeida, com todos os cuidados para não tropeçar. Apesar dos buracos de maior profundidade estarem sinalizados e com uma rede, há buracos mais pequenos e materiais para as obras que não estão vedados.
Os moradores invisuais concordam com a necessidade da requalificação daquele local, mas criticam o planeamento da obra, que consideram desorganizado, por “partirem tudo” e deixarem buracos a descoberto. “Queria que a câmara olhasse mais para as nossas dificuldades e que tomasse consciência dos perigos”, desabafa Maria Teixeira Silva. Manuel Vieira, 64 anos, é cego de nascença e a sua esposa, Lúcia Mateus, 66 anos tem menos de 20 por cento de visão. Moram numa das travessas do bairro há 21 anos e utiliza pontos de referência, que identifica com a bengala para se situar. Agora anda “a apalpar o terreno” e já passou inclusive “por dentro de buracos”, mas, até agora, sem ter caído. “Tenho medo de andar porque não sei onde estão os buracos, eles ainda não avisam onde estão”, diz com ironia.
Manuel Vieira sugere que se coloquem grades a vedar as zonas em obras. Enquanto caminha com cautela, Manuel Vieira conta que há uns dias ia caindo dentro de um buraco fundo, certo de que naquele local estava o caixote do lixo que utiliza, mas que foi mudado de sítio por causa das obras. Valeu-lhe o grito de uma vizinha, que o alertou do perigo.
Lúcia Mateus viaja todos os dias para Lisboa, onde faz voluntariado numa associação de retinopatia. Reformada devido ao problema de saúde que lhe roubou mais de 80 por cento da visão, também perdeu parte da audição, o que lhe provoca algumas perdas de equilíbrio. Desde que começaram as obras já teve de “pedir ajuda porque não sabia se ia para a direita ou esquerda, porque em todo o lado chocava com pedras”. Utiliza agora, um percurso em terra batida, onde é difícil identificar pontos de orientação. “Um caminho bem vedado” resolveria, na sua opinião, o problema.

Obras estão a andar em bom ritmo
A obra, cujo custo estimado é de aproximadamente 500 mil euros, é “uma expectativa de há muitos anos dos moradores”, que “finalmente é possível concretizar”, refere Carlos Coutinho. Sobre os transtornos causados, o autarca afirma, que “as obras têm necessariamente inconvenientes”, mas estão a andar a bom ritmo. “Esta semana já haverá a pavimentação de betuminoso destas primeiras zonas, para que as coisas fiquem minimamente em condições e reduzir obstáculos, para depois se avançar para as próximas intervenções”, conclui.
As ruas principais e a zona junto ao Centro de Saúde fizeram parte de uma primeira intervenção. Há mais seis travessas que vão ser intervencionadas em fases posteriores da obra.

Maria Teixeira Silva, invisual, critica o mau planeamento da obra
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