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“Ser campino não é vestir a farda em dias de festa”
António Marramaque é o campino homenageado nas festas de Samora Correia deste ano

“Ser campino não é vestir a farda em dias de festa”

António Marramaque, mais conhecido por António ‘Guarda’, de 73 anos é o campino escolhido para ser homenageado na Festa de Samora Correia no sábado, 18 de Agosto.

Edição de 17.08.2018 | Sociedade

Começou a guardar ovelhas com oito anos quando ainda frequentava a escola primária. Nasceu na Barrosa, concelho de Benavente, trabalhou no campo e fez-se campino, seguindo as pisadas do seu pai. Foram 57, os anos de trabalho em várias herdades, de um dos campinos mais antigos da Lezíria.
António Marramaque, mais conhecido por António ‘Guarda’, de 73 anos, é o campino escolhido para ser homenageado na Festa de Samora Correia no sábado, 18 de Agosto, pelas 16h30. Em 2008 foi-lhe prestada homenagem no Colete Encarnado, em Vila Franca de Xira.
O campino fardado a preceito esperava a reportagem de O MIRANTE à porta de sua casa. Junto ao quintal das traseiras apresentou o anexo onde orgulhosamente tem em exposição alguns objectos que lhe recordam a vida de campino, como o seu primeiro colete, pampilhos e a manta que o aconchegava no campo, que lhe fora oferecida pela sua mãe. É aí que gosta de receber a família e os amigos, e de onde avista a Lezíria através de uma pequena janela.
Conta que lhe “nasceram os dentes a cuidar de animais”. A vida no campo iniciou-a aos oito anos, na Herdade Vale da Asseiceira porque o seu pai, António Bento Marramaque, “já estava encravado com dores”. Ganhava 25 tostões. Trabalhou para outras casas até partir para o Ultramar, onde cumpriu o serviço militar. É depois do seu regresso que inicia funções de campino, na Herdade da Adema, em Samora Correia. “Os dias passavam-se a trabalhar. Tinha pessoas mais antigas que me ensinavam a tratar das vacas bravas”, recorda.
Esteve 17 anos ao serviço da Companhia das Lezírias, três anos como maioral das vacas bravas e os restantes como maioral das éguas. Recorda os tempos em que via nascer um bezerro e o tirava junto da mãe para lhe por o brinco na orelha. “Tinham de estar bem marcados e registados”, diz explicando que é importante para o negócio dos ganadeiros os progenitores estarem identificados correctamente.
Apaixonado por cavalos desde criança, já não monta há oito anos, desde que se reformou, e “não podia estar mais ansioso para voltar a montar para a homenagem”. Agora os tempos são passados a cuidar da sua horta e na Universidade Sénior de Benavente e Rancho Etnográfico Samora e o Passado.
Um dos seus três filhos foi campino como o pai, mas trocou de actividade, porque “ninguém enriquece a ser campino”. Na altura ainda se trabalhava duro, “comia-se muito pó e muita lama”. “Os campinos de hoje são mais finos. Já não passam horas a trabalhar só com a ajuda de cabrestos e cavalos. Agora só lidam com cabrestos nas festas”, diz a O MIRANTE.
Ganhou o primeiro prémio numa corrida dos campinos a cavalo, em Santarém, já não se recorda do ano. “Antigamente ninguém treinava para as provas. Agora os cabrestos são de plástico, pouco mais fazem do que participar em festas. Outro negócio que se criou”, diz em tom de crítica.
“A campinagem é uma arte que está a perder a sua essência. Se voltássemos à arte de campino há 40 anos metade destes campinos não vestiam o colete. Muitos são empregados de escritório, tratoristas, que vestem a farda nas festas”. Os verdadeiros campinos, aqueles que passaram noites e dias no campo a lidar com toiros, vacas e cavalos “contam-se pelos dedos da mão”, diz.
Na homenagem espera ver a sua família e amigos, de cima do dorso do cavalo, apetrechado com o seu arreio de campino. O barrete que vai enfiar é o que o acompanha há 30 anos e o enche de orgulho.

“Ser campino não é vestir a farda em dias de festa”

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