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“Já senti o preconceito em relação aos meus filhos por serem deficientes”
Isabel Silva é vice-presidente e voluntária na Cerci Flor da Vida de Azambuja e diz que nasceu para cuidar

“Já senti o preconceito em relação aos meus filhos por serem deficientes”

Isabel Silva é vice-presidente e voluntária na Cerci Flor da Vida em Azambuja

Edição de 16.08.2018 | Três Dimensões

Viveu sempre em Azambuja, apesar de ter nascido em Lisboa, porque os seus pais são dali. Gosta tanto do concelho que não se imagina a viver noutro lado. Isabel Silva é vice-presidente e voluntária na Cerci Flor da Vida, instituição que acolhe os seus filhos, ambos portadores de deficiência. Como mãe e cuidadora acha que é tempo de a sociedade parar de olhar para as pessoas com deficiência como coitadinhos e despirem de vez os preconceitos. A Cerci tem aproximadamente 300 utentes, dos quais 24 em lar residencial. Conta com 82 funcionários, três dos quais voluntários na direcção.

Quando era criança sonhava ser tanta coisa. Queria ser hospedeira, tradutora de línguas... mas acabei por não fazer nada disso. Fui para onde a vida me levou. Quem sabe não foi o destino pois já na escola diziam que tinha nascido para ser cuidadora. Nessa altura ajudava sempre os colegas que tinham mais dificuldades.
Foi em Azambuja que fiz a minha vida e não me imagino a viver em mais sítio nenhum. Quando estive emigrada na Alemanha do que mais sentia saudade era do ambiente calmo de Azambuja. Há pessoas de cá que só conseguem ver os defeitos que existem no concelho mas eu adoro isto. Acho que nem sei viver noutra terra.
Nasci em Lisboa mas vivi aqui porque os meus pais são de cá. Cresci aqui e guardo boas e doces memórias da minha infância. Na altura não havia computadores mas havia muito tempo para brincar e inventávamos as nossas próprias brincadeiras. Lembro-me que em determinada altura, no meu grupo de amigos, cada um de nós interpretava uma personagem da série de ficção científica “Espaço 1999”.
Quando soube que os meus filhos sofriam de deficiência o meu mundo desabou. Mas arregacei as mangas e peguei o toiro pelos cornos, não fosse eu do Ribatejo. Estou casada há 28 anos e hoje, eu e o meu marido, somos o complemento um do outro. Se assim não fosse não conseguiríamos suportar certas dificuldades pelas quais já passamos com os nossos filhos.
Tornei-me voluntária e ajudo pessoas por causa do problema dos meus filhos. Ambos foram diagnosticados com atraso de desenvolvimento global, por volta dos três anos de idade. Hoje a minha filha tem 27 anos e o meu filho 23, mas continuam a ter mentalidades de crianças. Deixei de trabalhar para cuidar deles e depois de terem deixado a escola vieram para a CERCI e eu vim com eles, entregando-me como voluntária.
Continuo como voluntária mas agora com mais responsabilidades porque sou vice-presidente. Antes passei pela loja social e pela piscina terapêutica e fui vogal na direcção a convite do presidente. Depois surgiu o convite para ser vice-presidente. Fiquei reticente e o que me fez aceitar foi acreditar que posso fazer mais alguma coisa por esta instituição. Os problemas financeiros continuam a ser o principal entrave.
Nem todas as mães deixavam os seus empregos para cuidar dos seus filhos e se dedicarem ao voluntariado. Respeito isso mas eu sinto esta paixão de gostar de dar algo aos outros em troca de um sorriso. No início sentia-me acanhada por estar a ajudar os adultos na piscina, mas depois tornou-se normal. O meu filho é que ainda fica reticente sempre que eu estou na instituição. A minha filha, pelo contrário, adora que eu venha porque depois levo-os para casa mais cedo.
Já senti na pele, enquanto mãe o preconceito para com as pessoas deficientes. Quando ia levar os meus filhos à escola sentia a pressão do olhar dos outros pais como se eles fossem uns coitadinhos. Os colegas e professores, pelo contrário, sempre foram impecáveis e protegiam-nos muito.
O preconceito está a decrescer mas ainda há uma longa batalha pela frente. Ainda há quem olhe com preconceito e quem os chame de coitadinhos. Dois extremos que eles não gostam de sentir. Falta as pessoas lidarem todos os dias com estas pessoas, pois parece que ainda há medo de se aproximarem. Era bom que houvesse mais voluntários nestas instituições, onde há tantos utentes a precisar de carinho e de serem olhados de maneira igual.

“Já senti o preconceito em relação aos meus filhos por serem deficientes”

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