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Emancipação sexual das mulheres tornou os homens mais inseguros

Emancipação sexual das mulheres tornou os homens mais inseguros

Sexólogo Nuno Marques diz que exigências sexuais delas assustam parceiros

Edição de 07.09.2018 | Sociedade

A propósito do Dia Mundial da Saúde Sexual, que se assinalou a 4 de Setembro, O MIRANTE conversou com o sexólogo Nuno Marques, que dá consultas na Póvoa de Santa Iria, para saber o que preocupa homens e mulheres a nível sexual. Segundo ele a ansiedade é o principal inimigo de homens e mulheres na cama, podendo provocar disfunção eréctil ou ejaculação precoce nos homens e falta de desejo nas mulheres.

As mulheres estão mais exigentes com o seu prazer sexual e procuram-no sem constrangimentos e isso gera pressão nos homens que se sentem obrigados a corresponder, o que por vezes acaba por afectar a relação.
A opinião é do sexólogo Nuno Marques, que dá consultas na Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila Franca de Xira. “A mulher quer segurança, estabilidade e confiança. O problema é que o homem ainda não percebeu o que a mulher quer e por isso sente-se tão ou mais inseguro do que ela. O homem assusta-se com a exigência da parceira e isso deixa-o ansioso”, refere.
Nuno Marques explica a O MIRANTE que a ansiedade é a principal causa da disfunção eréctil ou ejaculação precoce. “A disfunção eréctil e a ejaculação precoce são situações passageiras que revelam a insegurança do homem que constrói ‘macaquinhos no sótão’ com muita facilidade. O mínimo comentário da mulher durante uma relação sexual, ou depois, mesmo que seja inofensivo vai desencadear sentimentos de insegurança”, realça.
O médico diz ainda que para muitos homens basta um episódio de disfunção eréctil para procurarem ajuda médica uma vez que acham que se passa algo de muito errado com eles. “A primeira coisa que faço é mandá-los para a especialidade de urologia para descartar situações orgânicas porque um dos sintomas da diabetes que se manifesta primeiro é a disfunção eréctil”, explica.
“Outro problema que afecta cinco por cento da população masculina é a ejaculação retardada que também é consequência da ansiedade e incertezas”, acrescenta.
As mulheres não procuram tanto o médico que dá consultas na Póvoa de Santa Iria e Nuno Marques considera que isso acontece por uma questão cultural. “A mulher foi ensinada durante muitos anos a reprimir a sua sexualidade e o prazer feminino só começou a ser importante depois do 25 de Abril de 1974. Antes disso a mulher nunca esteve habituada a colocar o prazer em primeiro lugar”, recorda. No entanto, explica que a maioria das suas pacientes o procuram para resolver a falta de desejo sexual.
Nuno Marques refere que os problemas surgem em qualquer idade. “Aos 20 anos o que preocupa o jovem é o desempenho porque, por uma questão social, sente que não podem falhar. Isso é uma grande pressão para um jovem que ainda não tem muita experiência”, reflecte.
Na sua opinião a falta de saúde sexual é muitas vezes motivada pela falta de conhecimento e de estabilidade emocional para viver a sexualidade de modo satisfatório e pleno. “O sexo não é só penetração. O coito é um por cento da sexualidade. Um simples beijo na boca pode ser sexualidade”, explica.

HIV é a segunda causa de morte em Portugal entre os 15 e os 34 anos
Nuno Marques explica a O MIRANTE que o HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) é a segunda causa de morte em Portugal na faixa etária entre os 15 e os 34 anos.
“Os jovens estão a descuidar-se e como a medicação e terapêutica para o tratamento desta doença evoluiu muito os jovens acham que basta tomar uns comprimidos que voltam a ficar saudáveis e descuidam-se. Os mais novos estão a relaxar-se demasiado e esquecem a importância de usar preservativo durante as relações sexuais casuais”, alerta, acrescentando que também a clamídia, que pode provocar esterilidade nas mulheres é a doença sexualmente transmissível mais comum.
O sexólogo defende que os pais e as escolas não estão a formar sexualmente os jovens e que é fundamental explicar aos mais novos quando entram na puberdade o que vai acontecer com a sua sexualidade. “Os pais deviam ter conversas francas com os filhos para eles estarem preparados quando começarem a descobrir a sua sexualidade. Os problema é que essas conversas nunca acontecem e os jovens ficam com carências emocionais que têm que resolver e normalmente falam com os amigos que também não têm experiência”, realça.
Nuno Marques diz que a literatura, o cinema e os meios de comunicação social ajudam a que se fale mais em sexualidade e derrubar tabus. A própria pornografia, que está mais acessível através da internet, veio ajuda a desmistificar o sexo. “Houve uma maior liberalização do sexo e a pornografia ajuda a “descomplicar”, a mostrar a todos que o sexo é uma coisa normal, que faz parte da vida do homem e que não há que ter medos ou vergonha”, conclui.

Disfunção eréctil pode conduzir a um ataque cardíaco

Para Alberto Silva, sexólogo em Torres Novas, a resposta sexual pode ser afectada negativamente por muitos factores, desde problemas de saúde físicos a hábitos comportamentais como o sedentarismo ou o tabagismo, à natureza afectiva, relacional e psicológica, à falta de experiência ou vivência sexual, ou mesmo a factores socioeconómicos e profissionais.
“Quando estes assuntos não são abordados potencia-se o efeito “bola de neve”, que faz aumentar medos e ansiedades, e que pode também ter consequências graves no organismo”, sublinha.
As patologias que surgem com maior frequência no seu consultório são as disfunções sexuais como a disfunção eréctil, a ejaculação prematura ou a disfunção do desejo e alterações do orgasmo. Embora também surjam, com menor frequência, casos de alterações morfológicas do pénis que condicionam o acto sexual, como fimoses ou curvaturas penianas. Contudo, a disfunção eréctil é, sem dúvida, uma das mais frequentes e pode, em termos nacionais, atingir mais de metade da população masculina entre os 40 e os 70 anos.
De acordo com Alberto Silva a disfunção eréctil é um importante marcador de doença cardiovascular, “um doente que tem uma disfunção eréctil é um doente que no espaço de um e três anos irá ter, provavelmente, um evento cardiovascular, seja um enfarte ou manifestações de uma cardiopatia isquémica, por exemplo”, refere.

O tabu e os riscos da internet
O problema das disfunções sexuais é que ainda é tabu para a maioria das pessoas que, para evitarem expor-se, acabam por procurar informação na internet onde, de acordo com o sexólogo, estão sujeitas a encontrar de tudo, “como medicamentos à venda, na maioria dos casos falsificados e que podem pôr em risco a sua saúde”.
Embora persista o tabu, o número de homens que recorre a consultas especializadas tem vindo a aumentar. Para o sexólogo o conselho que dá aos casais é que falem abertamente sobre os desejos, medos e problemas de cada um e que explorarem a sexualidade do parceiro. “Continuem a namorar permitindo que a relação, mesmo com o passar do tempo, permaneça com espírito jovem!” Sugere.

Em matéria de saúde sexual toda a gente diz que está bem”

Nenhum dos entrevistados por O MIRANTE sabia que o Dia da Saúde Sexual se assinala a 4 de Setembro. Interrogados sobre a sua saúde sexual dizem que estão bem. Já quanto à educação sexual nas escolas têm opiniões mais longas.

António de Jesus
46 anos
Não creio que falta educação sexual nas escolas mas acho que se devia falar mais desses assuntos em casa, porque ninguém melhor que os familiares para tratar desses assuntos com os jovens.

Ana Januário
25 anos
Penso que esteja tudo bem comigo a nível da saúde sexual. Todos os anos faço análises e quando tive um problema no útero fui acompanhada por uma médica que me deu muita informação importante. Tenho primas mais novas que eu, que estão a entrar na fase dos 14, 15 anos e eu já lhes disse que podem falar comigo à vontade. Eu já a ando ouvir essa história da educação sexual nas escolas desde o meu 7º ano mas nunca houve. E era importante que houvesse.

Anabela Aleixo
53 anos
Ainda há muitas jovens a engravidar porque os pais não dão informação em casa por isso concordo que haja aulas de educação sexual nas escolas. Os problemas acontecem porque não há informação. Com a minha filha expliquei-lhe logo tudo aos 11 anos e a resposta que ela me deu foi que já sabia. No meu caso, apesar de ser outra época, os meus pais também me explicaram tudo. Nesse campo tive uns pais espectaculares.

Ana Filipa Rodrigues
40 anos
Em relação à educação sexual, cada coisa deve ser explicada a seu tempo, de acordo com a idade mas concordo que exista nas escolas. Em casa, há medida que as crianças vão fazendo perguntas não se deve desviar o assunto. Explicar sem pressionar ou causar algum dano, eu acho que sim.

Dina Santos e Rui Santos
Casados
Dina - A educação sexual é importante. O sexo faz parte da vida e deve ser explorado em sede própria com as coisas devidamente explicadas, tanto na escola como em casa.
Rui - Concordo com a educação sexual na escola, até porque na escola apanha-se a fase da adolescência que é uma altura da vida em que há mais necessidade de esclarecimentos sobre esse assunto. A escola é o local ideal para dar esses esclarecimentos de forma construtiva e pedagógica.

Mariana Castelo
22 anos
É importante informar os adolescentes sobre essas coisas. Agora já há muita informação mas nem sempre as coisas estão bem explicadas. Eu quando andava na escola tive ainda uma ou duas aulas de educação sexual que foram muito interessantes porque aprendemos coisas novas e importantes para a nossa vida adulta. Quando tiver filhos e eles tiverem idade suficiente, penso que tanto eu como o meu marido iremos falar com eles para lhes explicar as coisas que são importantes.

Inês Silva
25 anos
Sobre a saúde sexual acho que todos devemos estar atentos. Eu preocupo-me comigo e com o meu parceiro e alerto regularmente os meus amigos e a minha família porque a saúde sexual não é apenas uma questão sexual ou de sexo. Reconheço que o assunto ainda é um bocadinho tabu. A educação sexual nas escolas é útil. Os miúdos de hoje têm acesso a tudo e convém serem esclarecidos. E em certas idades até é recomendável bloquear certos conteúdos.

Tânia Ribeira
37 anos
Concordo com a educação sexual nas escolas. É bom que as crianças comecem a perceber desde cedo como foram geradas porque não vieram no bico de nenhuma cegonha. Costumo falar com o meu marido sobre essas questões e acho que não vou ter qualquer tipo de pudor com os meus futuros filhos. Nem sequer será tabu eles verem os pais nus, por exemplo. No tempo dos meus avós não houve esta abertura para com os meus pais mas já houve abertura da minha mãe para comigo.

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