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Mário Pereira ainda tem três anos para controlar a crispação política em Alpiarça

Mário Pereira ainda tem três anos para controlar a crispação política em Alpiarça

Chegou a presidente da câmara com objectivo de pacificar a política mas fartou-se de sofrer durante quatro anos

Edição de 06.09.2018 | Sociedade

O presidente da Câmara de Alpiarça, a cumprir o último mandato, não tem tido uma vida fácil. Primeiro confrontou-se com uma dívida municipal que praticamente bloqueou a câmara, impedida de recorrer à banca e fazer investimentos. Nos últimos seis anos apertou o cinto para pagar quase seis milhões de euros à banca, de forma a ter agora folga para conseguir fazer obras, investimentos e actividades em prol da população. Em breve arrancam as obras do mercado municipal. Depois, no segundo mandato, teve o opositor mais aguerrido, mais chato, mais incisivo que podia ter. Que contestava tudo e mais alguma coisa, que acusava, maldizia e que levou várias vezes Mário Pereira ao limite da paciência. Agora voltou a paz às relações políticas, apesar de algumas discussões serem mais acaloradas, e recuperou-se a saúde financeira.

O presidente da Câmara de Alpiarça tem uma vida mais descansada desde o início deste mandato porque já não há o clima crispado na discussão política desde que saiu de cena o ex-vereador Francisco Cunha. Nos corredores junto ao auditório do município, onde se realizam as reuniões do executivo, já não se ouve a gritaria de outros tempos, com o presidente Mário Pereira a perder a paciência. O autarca confessa que a irritação era “momentânea e difícil de controlar”, mas garante que nunca dormiu mal por causa disso nem precisou de fazer ioga para acalmar os nervos.
Foram muitos os episódios em que Francisco Cunha conseguiu tirar o presidente do sério e o problema estava, não nos assuntos que este trazia à discussão, mas sim a forma como colocava as coisas, num tom de confronto. Agora, Mário Pereira sente-se mais tranquilo com dois vereadores socialistas a fazerem-lhe uma oposição mais cordial e com menos beliscões. Às vezes há alguns momentos mais quentes na discussão política, mas é o próprio presidente que confessa que as relações entre a maioria e a oposição se inserem “num quadro de normalidade”.
Quando entrou para a presidência da câmara, Mário Pereira dizia que queria pôr água na fervura das tensões políticas que sempre foram muito maiores que em qualquer outro concelho do distrito de Santarém. Fruto de marcas históricas relacionadas com a reacção anti-fascista, com o facto de Alpiarça ser um bastião comunista e até mesmo devido a “clivagens”, que o autarca admite existirem. A eliminação da crispação que pretendia no início da sua presidência em 2009 “nem sempre foi possível”, reconhece Mário Pereira. Mas, sublinha, conseguiu-se alguma paz com a excepção do período de 2013 a 2017, em que o vereador da coligação PSD/MPT arranjava todos os motivos para mudar as feições serenas do presidente.

Gostava de ter defrontado Joaquim Rosa do Céu
Pouco tempo antes das últimas eleições reapareceu na cena política de Alpiarça o socialista Joaquim Rosa do Céu, que tinha estado na presidência do município antes de Mário Pereira, tendo deixado o mandato a cerca de um ano do fim para assumir funções de presidente da Entidade de Turismo de Lisboa e Vale do Tejo, até meados de 2013. O autarca comunista diz que não ficou preocupado com o ressuscitado socialista e garante que teria sido interessante defrontá-lo como adversário na campanha eleitoral.
“Estive a defrontar nas campanhas candidatos socialistas que não tiveram responsabilidades nos mandatos do PS. Com Joaquim Rosa do Céu seria possível confrontar o responsável da gestão socialista”, argumenta Mário Pereira. Não é difícil de adivinhar que um dos temas principais da campanha eleitoral seria a dívida deixada pelo ex-presidente que, realça Mário Pereira, tem atrofiado a gestão dos últimos anos.

Pudor em recorrer à justiça para destituir Rosa do Céu da Fundação José Relvas
No início de 2016, a mais de um ano das eleições autárquicas, a Câmara de Alpiarça invocou a ilegalidade da eleição de Rosa do Céu para a presidência da Fundação José Relvas, por não corresponder ao estabelecido no testamento do político que proclamou a implantação da República. Mário Pereira chegou a pedir que o assunto fosse à assembleia da fundação, órgão presidido pelo seu inimigo político Francisco Cunha, exigindo a anulação das eleições, mas a acção da autarquia, que tem um papel fiscalizador e de regulação na fundação, deu em nada. Passados dois anos e meio o presidente do município diz que tem algum pudor em meter o caso em tribunal, apesar de o testamento e os estatutos referirem que não podem ser eleitos para os órgãos sociais da fundação “quem exerça ou tenha exercido funções públicas remuneradas pelo município de Alpiarça”, como é o caso.
Ao contrário, devido a divergências com os rendimentos de um dos legados administrados pela câmara e que serve para financiar a actividade da fundação, Joaquim Rosa do Céu recorreu à justiça. O presidente da fundação considera que a câmara não transfere o valor que devia do legado para ajudar ao funcionamento da instituição. Mário Pereira diz que a câmara transfere todo o resultado apurado após pagamento das despesas e que nunca precisou de recorrer aos tribunais nas relações com a fundação. O autarca realça que esta deve ser a primeira vez que há um caso na justiça envolvendo as relações entre as duas entidades. A situação não motivou Mário Pereira a avançar com um processo para destituir Rosa do Céu, preferindo “ter um ascendente em termos morais e éticos sobre a fundação”.

A maior pressão é educar dois filhos adolescentes

O presidente da Câmara de Alpiarça é professor de profissão e casado com uma professora. Apesar de já não lidar com alunos desde 2009, o autarca considera que os “miúdos portam-se cada vez pior”. Quando Mário Pereira e Conceição Pereira, directora do Agrupamento de Escolas de Fazendas de Almeirim, se encontram em casa ao fim do dia não é possível perceber-se qual deles está mais cansado ou nervoso por causa do dia de trabalho. Porque “a maior pressão em casa não é o trabalho, apesar de influenciar, mas é a necessidade de educar dois filhos adolescentes”.
Mário Pereira confessa que a lidar com tanto problema financeiro lhe deu maior capacidade e conhecimento de gestão. O autarca, a cumprir o último mandato, abre-se em termos da sua vida pessoal para dizer que não é forreta, mas que nos gastos da sua vida tenta ser sempre ponderado, até porque sabe o que é nascer no seio de “uma família de pessoas trabalhadoras”.

Município sai da lista negra de excesso de endividamento

O Imposto Municipal Sobre Imóveis em Alpiarça subiu para 0,42% do valor patrimonial (o máximo é 0,45%). Na decisão, tomada no ano passado, a maioria comunista diz que se trata de garantir a sustentabilidade financeira do município, que há seis anos tem um plano de saneamento financeiro. “O plano tem sido o que nos tem permitido sobreviver estes anos, porque herdámos uma situação de desequilíbrio estrutural, em que o município excedia em 2,7 vezes o limite de endividamento”.
A estratégia tem sido ir pagando a dívida, baixando o excesso de endividamento e conseguir fazer algumas obras financiadas por fundos comunitários, como vai acontecer com a requalificação do mercado municipal. No mês de Junho o município deixou de estar com excesso de endividamento, com 1,45 de rácio de endividamento. Para o que contribui o esforço de amortização anual das dívidas.
Nos últimos seis anos a câmara tem amortizado todos os anos cerca de um milhão e trezentos mil euros de dívidas. Actualmente a dívida total da autarquia situa-se nos oito milhões de euros. “Pagámos já quase seis milhões de euros que podíamos ter investido em actividades e equipamentos para a população e que tem sido entregue aos bancos para pagar uma dívida que não fomos nós que fizemos”, explica Mário Pereira. O autarca realça que os socialistas endividaram o município a uma média de 800 mil euros por ano para fazer face às actividades que entenderam. “Nós não pudemos fazer dívidas e ainda temos de pagar as deles”, desabafa.
“A câmara pagando aos bancos, pagando aos funcionários e aos fornecedores ficaria sem nada. Daí a necessidade de termos uma taxa mais elevada de IMI, quando já esteve no mínimo”, realça. Para Mário Pereira é injusto comparar duas gestões, em que uma tem a possibilidade de gerir recorrendo a empréstimos bancários e outra que está impedido de o fazer.

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