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Solos “diabólicos” de guitarra eléctrica na igreja de Cem Soldos podem afectar o Festival Bons Sons

Solos “diabólicos” de guitarra eléctrica na igreja de Cem Soldos podem afectar o Festival Bons Sons

Diocese de Santarém lembra aos padres que as obras a executar nas igrejas são sujeitas a exame prévio. Vídeo de concerto do Festival Bons Sons na Igreja de Cem Soldos, publicitado por ultra-conservadores católicos, leva Diocese de Santarém a pressionar párocos e pode afastar dos templos toda a música que não seja religiosa.

Edição de 07.09.2018 | Sociedade

Um concerto do músico Afonso Dorido, autor do projecto musical “Homem em Catarse”, na igreja de S. Sebastião, em Cem Soldos, Tomar, durante o Festival dos Bons Sons, levou à emissão de um comunicado da Vigararia Geral da Diocese de Santarém em que são referidas “observações de escândalo”.
O concerto foi no dia 11 de Agosto, às duas da tarde, mas a polémica só começou dezanove dias mais tarde, quando um grupo identificado como ultraconservador católico publicou na sua página do Facebook “Senza Pagare” um vídeo com uma parte da actuação do músico, que intitulou “Woodstock na igreja de São Sebastião em Cem Soldos”.
Junto com o vídeo é divulgado um email enviado à Diocese de Santarém em que é referido que na nota sobre os “Princípios e Orientações sobre os Bens Culturais da Igreja”, emitida pela Conferência Episcopal Portuguesa a 16 de Novembro de 2005, é dito que a música autorizada nos espaços religiosos católicos deve ser condizente com o lugar sagrado e que os concertos devem ser gratuitos.
Em declarações a O MIRANTE, Luís Ferreira, criador e director do Festival Bons Sons, lamenta que um grupo de católicos ultra-conservadores se tenha servido de um concerto na igreja da terra durante o festival deste ano para criar ruído e incitar ao ódio.
“O Festival Bons Sons tem treze anos mas mesmo em criança eu lembro-me de haver concertos na igreja desde encontros de coros a outros. Os concertos do Bons Sons que são realizados na igreja, sempre respeitaram o espaço e foram autorizados. O Festival é um espaço de amor e nada foi escondido. O que é feito envolve toda a comunidade, incluindo a comunidade católica, o representante da igreja e queremos que assim continue”, diz.
No vídeo de cerca de um minuto, divulgado pelo “Senza Pagare”, o público está de pé a bater palmas a compasso, acompanhando um peça rock tocada pelo músico numa guitarra eléctrica. No texto enviado à Diocese de Santarém está escrito que aquela música não deveria ser tocada ali.
“O concerto que decorreu na igreja de São Sebastião não foi de música sacra ou religiosa. O ambiente foi totalmente profano, nada condizente com o ambiente de culto a Deus que é próprio de uma igreja”, pode ler-se.
Em comunicado, a direcção do Bons Sons repete as declarações de Luís Ferreira a O MIRANTE. “A polémica parte de pessoas ultra conservadoras que têm uma visão muito fechada da Igreja Católica, que não vai ao encontro da visão e da harmonia promovidas pelo Bons Sons. O vídeo que originou o manifesto não é de um concerto de rock. Tratou-se de um concerto intimista, com voz e guitarra, dedicado ao interior do país, às suas paisagens e aos problemas de desertificação. O pequeno excerto apresentado retrata apenas o final mais efusivo e feliz do concerto”.
O comunicado da Diocese, colocado no domingo, 2 de Setembro, às 11h35, começa por referir que não consta que até ao presente ano o Festival Bons Sons de Cem Soldos tenha usado os espaços sagrados de modo a causar escândalo ou que exigisse a intervenção da autoridade diocesana mas termina rogando aos párocos para que na promoção ou aceitação de concertos ou outros eventos dentro das igrejas observem a norma do direito canónico que refere que esse evento “não deve ser contrário à santidade do lugar”.
Entre as normas referidas no comunicado está pelo menos uma que pode levar a que nas igrejas apenas venha a ser ouvida música religiosa. “Em tempo útil apresentar-se-á o pedido por escrito ao pároco ou outro responsável pela igreja explicitando as obras e os nomes dos autores, bem como dos executantes, pode ler-se, acrescentando-se depois que o pedido é enviado para “(...) o ordinário diocesano, que o apreciará com a colaboração do Departamento de Liturgia”.
Insistindo sempre que o Festival Bons Sons é um local de paz, amor, comunhão e partilha que envolve toda a comunidade, Luís Ferreira lembra que o espaço religioso sempre foi respeitado e que, tal como é exigido pelas Lei Canónica, o Santíssimo Sacramento sempre foi levado para outro lugar digno quando da realização dos concertos.
“Sempre assim foi feito e, se for entendido que ao fim destes treze anos não poderemos continuar a utilizar a igreja, acataremos essa decisão uma vez que o que foi feito foi com consentimento pois nunca nos passaria pela cabeça invadir um espaço religioso”.
No comunicado distribuído, a organização do Bons Sons socorre-se de uma citação do Papa Francisco para defender a continuidade dos concertos na Igreja. “Um cristão sem alegria não é cristão; um cristão que continuamente vive na tristeza também não o é. Quando a Igreja é medrosa e não recebe a alegria do Espírito Santo ela adoece, as comunidades e os fiéis adoecem”.

Mais na Igreja mas sem incomodar

Na Igreja de São Sebastião, em Cem Soldos, esteve a funcionar durante o Festival Bons Sons deste ano o Palco MPAGDP, do Projecto “Música Portuguesa A Gostar Dela Própria”, que teve a seu cargo a programação do mesmo. Para além do concerto que deu origem à polémica foram anunciados para o mesmo local, concertos de Palankalama, Vozes de Manhouce, com Isabel Silvestre, Patrícia Costa, Meta, Artesãos da Música, Orquestra de Foles e Douradas Espigas. Os concertos na Igreja eram entre as duas e as quatro da tarde uma vez que o espaço é fresco e tem uma boa acústica.

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