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“Já tive que sair de um Tribunal de Família com escolta policial”

“Já tive que sair de um Tribunal de Família com escolta policial”

Raquel Caniço, 44 anos, advogada em Vila Franca de Xira

Edição de 06.09.2018 | Três Dimensões

Raquel Caniço é um nome familiar na advocacia vilafranquense, com escritório localizado a poucos metros do tribunal. Formou-se em 1998 numa profissão que diz adorar apesar de já sentir falta de um horário fixo das nove às cinco da tarde. Diz que nem sempre as sociedades de advogados são a melhor escolha para defender os clientes. Gosta de fotografia, de viajar e de passar tempo com a família. Não gosta de pessoas arrogantes nem hipócritas.

A advocacia é uma doença. O meu pai, Manuel Caniço, já era advogado quando decidi seguir essa profissão [e ainda advoga] e agora o clã está a crescer. Já tenho a estagiar comigo a minha sobrinha, Rita Caniço Albano. Gosto de praticar uma advocacia de proximidade, conhecer os clientes e os funcionários judiciais com quem partilhamos o terreno todos os dias. Isto não é um emprego das nove às cinco, é permanente. E gosto do que faço.
Há colegas que dizem que a advocacia em prática individual está obsoleta e ultrapassada. Segundo eles isso acontece por não haver o critério da especialidade que há nas sociedades de advogados. Eu não penso assim. Nós somos uma face que se vê diariamente e que é contactável a qualquer hora e não alguém que está fechado num empreendimento em Lisboa a despachar processos como se estivesse numa unidade fabril.
Há muitas sociedades a recrutar estagiários às dezenas mas nem sempre pelos melhores motivos. Infelizmente o estagiário quando é bom e dedicado é uma ferramenta de trabalho apetecível sem grandes custos. Na generalidade do que vejo os alunos vêm bem preparados das faculdades mas nem sempre sabem pôr a teoria na prática. Acho que não devem desanimar à primeira ou frustrar-se nas vicissitudes dos processos. Neste trabalho nunca se pode desistir, nem no primeiro nem no último momento. Podemos mudar a estratégia e adaptar-nos à mudança. Mas desistir não é uma palavra que goste de usar.
Gosto muito de decoração e sou apaixonada pela fotografia. Tenho várias máquinas fotográficas em casa. Sou fã das analógicas, de rolo, mas tive de me adaptar às digitais. De há um tempo a esta parte não tenho fotografado tanto porque é preciso tempo para o fazer. Mas tenho no escritório várias fotos emolduradas que tirei ao longo do tempo. Cativa-me na fotografia a ideia de conseguirmos reter a vida num segundo e ela ficar para sempre naquela imagem.
Os meus tempos livres são para passar com as minhas filhas. Vamos ao cinema e à praia. Passeamos, gostamos de conhecer restaurantes novos, ver exposições. Mas é muito difícil conseguir desligar do trabalho. Às vezes penso em trabalho nos sítios mais estranhos que se possa pensar. Detesto a arrogância e a soberba. A hipocrisia também me irrita.
A reorganização dos tribunais prejudicou Vila Franca de Xira. Na parte do crime foi um erro gravíssimo. Do ponto de vista prático temos verdadeiras aberrações processuais que estão a acontecer entre os tribunais de Vila Franca de Xira e Loures que não fazem sentido. Há pessoas a serem ouvidas em primeiro interrogatório aqui na cidade que depois vão a Loures para outras diligências e se o caso for de primeira instância regressam cá. Há também arguidos daqui a serem ouvidos em Loures com testemunhas em Vila Franca de Xira a serem ouvidas em videoconferência. Estamos a ocupar dois tribunais e a duplicar meios para o mesmo julgamento e isso não faz sentido.
Já fiz algumas viagens de sonho mas tenho muitas mais que quero fazer. Sou uma eterna sonhadora. Malásia, Indonésia, Vietname, Birmânia e Cambodja, são destinos que me fascinam.
Já fui desafiada para ir para a política e não quis. Há muitos advogados que estão na política. Penso que isso acontece porque a política é uma actividade altamente sedutora para quem faz advocacia. Para o bem e para o mal.
Já meti as mãos no fogo por um cliente e depois vi que fui enganada. Fui aprendendo com a vida. É uma frustração muito grande quando somos enganados. Irrita-me porque é a minha cara que está em jogo. E já tive duas situações complicadas de ameaças. Numa delas tive de sair do tribunal de família e menores com escolta policial. O caso tinha a ver com menores retirados aos pais porque estavam a ser muito negligenciados. Os pais acharam que eu era a culpada. Da outra vez tratava-se de um cliente que era muito maltratado pelo filho e que depois me ameaçou. A vida vai-me ensinando umas coisas e uma delas é aprender a relativizar tudo.

“Já tive que sair de um Tribunal de Família com escolta policial”

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