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Última Página: O médico Lopes Dias não falava de política, mas tinha opinião sobre as pessoas que faziam política

A morte do médico Henrique Lopes Dias, da Golegã, apanhou-me a ler um livro de memórias que fala da terra mãe.

Edição de 11.10.2018 | Opinião

A morte do médico Henrique Lopes Dias, da Golegã, apanhou-me a ler um livro de memórias que fala da terra mãe, da respiração dos sentimentos do berço, da contemplação das diferentes nuvens em céus diversos do mundo que, no entanto, nos transportam sempre para a terra natal das palavras que dizemos e escrevemos, que guardam o nosso local de nascimento.
A Golegã podia ser a minha terra. Os lugares, os caminhos e as pessoas fazem parte importante do meu imaginário. Lopes Dias foi o médico da minha família até muito depois de se reformar. À noite, quase sempre depois do jantar, o seu consultório era o meu banco de urgências, para mim e para toda a família. Por causa de um internamento de um familiar no Hospital da Golegã atravessei o Dique dos Vinte no auge da maior cheia de sempre, no ano em que cedeu com a força da água. Tenho memória disso em casa porque o Francisco Cid estava lá com a máquina fotográfica.
Apesar de ser especialista em ouvidos, nariz e garganta, Lopes Dias fazia clínica geral. Não era um homem de muita conversa mas era afectuoso. Trabalhava todos os dias. Lembro-me de falar com ele sobre o stress do trabalho e ele confessar que fazia o que gostava. Por isso, dava consultas à noite depois de um dia normal de trabalho. Muitas vezes, eu era o único doente. Saltava da sala de televisão para o consultório só para me atender. Nessas alturas dialogava mais. Púnhamos a conversa em dia. Ele não falava de política, mas falava das pessoas da política. Guardo dele uma voz amiga e solidária, nas horas em que mais precisamos de alguém que nos faça esquecer que “viver é irreparável”, e que “é terrível ter o destino da onda anónima morta na praia. A citação literária vem a propósito, porque falávamos muito de literatura e de Miguel Torga em particular.
No mundo não há nada mais importante do que os médicos e os farmacêuticos das pequenas cidades (inspirado num verso de Mário Quintana e a recordar-me também da morte de Joaquim Cabeça, Joaquim Machado (farmacêuticos) e Armando Cumbre e Artur Barbosa (médicos)).
JAE

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