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“Admito que aqui ou ali possa cometer excesso no que digo”

“Admito que aqui ou ali possa cometer excesso no que digo”

Pedro Pereira, 41 anos, vereador do Partido Socialista na Câmara de Benavente

Edição de 29.11.2018 | Entrevista

Foi candidato a presidente da câmara, não venceu mas conseguiu ter um dos melhores resultados de sempre do PS em Benavente. Pedro Pereira tem o coração ao pé da boca e tem causado nos adversários políticos autênticos ataques de nervos, nem sempre pelas melhores razões.

F

alta de respeito. Estas têm sido das palavras mais usadas e repetidas em reunião de câmara pela maioria CDU que gere a Câmara de Benavente para classificar as expressões, intervenções e acusações que o vereador do PS, Pedro Pereira, lança ao presidente do município, Carlos Coutinho. O líder da concelhia socialista de Benavente já chamou quase todos os nomes ao presidente do município nas reuniões de câmara e nos comunicados de imprensa mas não o fez nesta entrevista a O MIRANTE. Jornal que, curiosamente, sempre atacou e acusou de estar subserviente ao poder da câmara, mas que agora elogia.

A sua postura tem sido de confronto e de intervenções duras. Está apostado numa política de ruptura com o que existe?

Cada um tem o seu perfil, a minha personalidade é de coragem e de combater o poder instituído, apresentando alternativas. As coisas mudaram e a realidade é que a forma como se faz hoje oposição e se prova a verdade dos factos é mais forte do que era nos últimos tempos.

Não teme cair no ridículo?

Admito que aqui ou ali possa cometer um excesso mas nisto não há virgens, se vamos falar em excessos a CDU tem cometido muitos. Comecei este mandato sem nunca ter acesso a documentos que pedi. O que temos conseguido, através desta oposição combativa, é que a maioria CDU ceda a documentação que nos é fundamental para podermos avaliar as matérias que estão a ser discutidas. A CDU não convive bem com este novo ambiente que queremos proporcionar.

Vai manter no futuro a postura que tem tido nas reuniões de câmara?

É normal que com a experiência me torne uma pessoa mais moderada, mas sempre que achar que tenho razão será para continuar. É preciso um combate forte ao poder instituído e apresentar soluções alternativas. Não uma oposição destrutiva mas antes de caminhos alternativos. Quero chegar ao final do mandato e sentir a consciência tranquila que fizemos com a minha equipa um grande trabalho na oposição, construindo um projecto alternativo para inverter o rumo lento de desenvolvimento que estamos a sentir.

Com essa postura acabou por conseguir um dos melhores resultados de sempre no PS no concelho desde 1976.

Todos os candidatos do PS até hoje fizeram o melhor que puderam. Ser oposição neste município nunca foi fácil. Há aqui uma rede de poder instituído pela CDU que precisa de uma oposição forte e combativa e que não deixe de meter o dedo na ferida do que está mal e apontar caminhos. Sei que tenho oposição interna, mas os militantes do PS não podem correr o risco de mandar fora este trabalho que temos construído. O maior desafio é unir todos os militantes do PS.

Como explica que o PS seja poder a nível nacional e nunca tenha sido em Benavente?

A rede que a CDU montou estende-se a colectividades e instituições, com eleitos do PCP nas direcções de muitas dessas colectividades. Além dos meios financeiros disponíveis nas campanhas, têm recursos logísticos que nós não temos e não nos proporcionam chegar perto. Se a CDU fizesse um trabalho que me agradasse não teria sido candidato. No dia em que sentir que o município está no bom caminho deixo de ter razões para ser oposição. Vim para a oposição por discordar do modelo de gestão interna. Há beija-mão na câmara, porque há pessoas que sentem que só indo ao atendimento ao público do presidente é que resolvem o seu problema.

Sofreu um processo disciplinar quando trabalhava na câmara e era também candidato nas eleições. Foi vítima ou carrasco nesse processo?

Fui vítima de duas ou três provocações de um chefe de divisão. Há quem ache que foi propositada para eu reagir, sabendo que sou pessoa frontal e directa. Esse processo disciplinar é uma profunda treta, de disciplinar não tem quase nada. Não houve ofensas, agressões nem injúrias. E já houve agressões na câmara e ninguém levou um mês de suspensão. Isto mostra bem as injustiças que eles cometem. Só não existe uma ditadura na câmara porque a oposição não o permite. Se a oposição consentisse estávamos perante uma democracia muito doente e muito condicionada.

O que vai mal no concelho? Onde está a falhar a actual gestão?

Apostaram no alcatrão e substituição de lâmpadas LED. O PS entende que não é esse o caminho para o investimento público. A saúde e acção social têm sido esquecidos, nem 1 por cento do orçamento a CDU investe, chuta a bola para o governo quando este lhes deu a possibilidade de receberem as novas competências. Este orçamento é semelhante ao que fizeram em 2013. A CDU não tem feito praticamente nada, prometeu em 2013, agora promete para 2021, não vai alterar significativamente o progresso e a modernidade do município. Não acredito na capacidade deste executivo, no projecto de investimentos que querem para o município nem na sua capacidade de concretizarem obras com qualidade.

Carlos Coutinho foi durante anos o braço direito de António José Ganhão. Pode dizer-se que o aluno superou o mestre?

Não vejo no presidente potencial para fazer o que em determinados mandatos o Ganhão fez. O Ganhão desenvolveu o município ao nível dos seus equipamentos básicos, na cultura, desporto, acção social e saúde. O Coutinho ainda não deixou nenhuma marca do seu registo e já está no segundo mandato.

Estaria disponível para uma coligação PS/PSD nas próximas eleições?

O PS terá de construir alternativa e projecto para o município. Se for possivel albergar propostas de outros partidos não excluo essa hipótese e estar pelo menos aberto para falar do assunto. Os partidos não se podem fechar a entendimentos.

O especial carinho pelas duas sobrinhas

Pedro Pereira tem 41 anos e começou na política aos 19 anos, integrando o PS como militante em 2011. É o seu primeiro mandato como vereador, depois de concorrer à presidência da câmara pelo PS. Esteve 20 anos ao serviço da Câmara de Benavente, primeiro como vigilante das piscinas municipais na área do desporto, colaborou com algumas actividades das escolas primárias e esteve no sector do ordenamento do território e urbanismo. É licenciado em gestão autárquica. Recentemente pediu mobilidade para a Câmara de Alenquer, estando actualmente ligado ao apoio às actividades económicas e às pequenas e médias empresas. É sportinguista e chegou a ser treinador das camadas jovens do Futebol Clube de Alverca. Tira-o do sério a mentira, as injustiças e as calúnias. A nível familiar o seu maior carinho é pelas suas duas sobrinhas.

Depois das críticas o elogio

Pedro Pereira passou boa parte da sua campanha eleitoral a criticar o papel de O MIRANTE mas admite ter mudado de ideias. Hoje diz que o jornal tem feito um trabalho positivo e diferenciador na região. “É um trabalho positivo em termos globais e um dos órgãos regionais com maior projecção, impacto e incidência na nossa região, tem vindo a melhorar e a evoluir. É um caminho que não devem perder”, refere.

Relações com a Quercus na mira

O concelho de Benavente está na mira da associação ambientalista Quercus, que tem interposto diversas acções populares visando a declaração da nulidade do seu Plano Director Municipal (PDM). Numa das últimas acções, os actuais vereadores do PS, Pedro Pereira e Florbela Parracho, foram pronunciados como testemunhas da Quercus e não como réus, ao contrário dos restantes vereadores do executivo. A situação já levou o presidente da câmara, Carlos Coutinho, a levantar suspeições quanto à possibilidade de alguém dentro da câmara estar por trás das queixas (ver texto na página 21 desta edição). Pedro Pereira nega ter qualquer relação com a Quercus, lamenta as acções da associação mas refere não acreditar que os ambientalistas estejam a mover todas aquelas acções em tribunal apenas para perseguir a gestão CDU. “Dizerem que estamos por trás das intervenções da Quercus é uma teoria da conspiração falsa, caluniosa e mentirosa. Nunca falámos com a Quercus. É uma falsa questão”, vinca.

Samora Correia é um bom sítio para viver

Pedro Pereira é natural de Samora Correia, cidade onde ainda vive e diz que é uma boa localidade para viver, segura e com a vantagem de se ter a qualidade de vida do Ribatejo com a proximidade a Lisboa. Mas lamenta que nas últimas décadas tenha sido descaracterizada pelo que considera ter sido uma gestão urbanística e de planeamento “descuidada” por parte de quem estava no poder camarário. “Cada um fez aquilo que quis e construiu aquilo que mais ou menos lhe apeteceu. Isso deu votos, os favores que se fazem aos particulares. Isso originou que Samora não seja uma cidade embelezada do ponto de vista estético e já não é fácil recuperar o que se destruiu”, considera.

“Admito que aqui ou ali possa cometer excesso no que digo”

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