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Mergulhar no Tejo para resgatar um corpo é como entrar dentro de um quarto escuro

Mergulhar no Tejo para resgatar um corpo é como entrar dentro de um quarto escuro

Sérgio Ferro tem 44 anos e tomou posse como comandante dos Bombeiros de Alhandra. Confessa-se um apaixonado por adrenalina e tirou todos os cursos mais radicais que existem nos bombeiros: de resgate de grande ângulo a resgate em grutas e mergulho.

Edição de 29.11.2018 | Sociedade

Se há pessoa que conhece as águas do rio Tejo como as palmas das mãos é Sérgio Ferro, 44 anos, novo comandante dos Bombeiros Voluntários de Alhandra e que foi também durante mais de uma década um dos mergulhadores de serviço da corporação.
Já resgatou dezenas de corpos do rio e de barragens, poços e até de manilhas de esgoto. Tudo para poder dar alguma paz de espírito às famílias das vítimas. No fundo do Tejo, conta, a escuridão é completa. “Nem vale a pena usar lanterna, não se vê absolutamente nada, é como estar num quarto escuro”, revela.
Os resgates são, por isso, feitos pelo tacto e com muita intuição, ganha através de anos de experiência. Nunca olha para os rostos das pessoas que retira da água. A história que mais o marcou até hoje passou-se na zona de Azambuja, com uma rapariga de 14 anos que estava desaparecida há dois dias.
“Andavam 15 mergulhadores na zona há imenso tempo e não a conseguiam encontrar. Fizemos uma linha de mergulhadores, todos ao mesmo tempo, e decidi ser o último da linha para não encontrar ninguém, não estava nos meus dias e sempre tive a sensação que atraía os corpos. Mergulhei e senti logo a criança a rolar por cima de mim. O meu corpo estremeceu. Senti que era ela, fiquei parado no fundo do Tejo e com a sensação que o corpo estava à minha frente. Queria esticar a minha mão e não conseguia. Para mim esse momento pareceu uma eternidade”, conta.
Por fim consciencializou-se de que tinha de superar isso, esticou a mão e ela estava lá, a 15 metros de profundidade. “Vim por ali acima, quando saí fora de água fiquei com o rosto da criança a olhar para mim e aquilo marcou-me de uma forma muito forte porque olhei para ela e vi um filho meu. Foi muito difícil e os pais dela estavam na margem”, recorda.
O responsável admite que ficam sempre marcas psicológicas destes eventos, que não se esquecem. E defende que falta acompanhamento psicológico para os bombeiros. “Apanhamos de tudo um pouco e as pessoas por vezes não falam disso, guardam para si. Mas com o tempo isso vai deixando muitas marcas. Ainda hoje quando sinto o cheiro do lixo a primeira coisa que me vem à cabeça é o cheiro dos corpos na Turquia quando lá estive em serviço com os bombeiros de Alhandra. Isto não se apaga da memória”, conclui.
O gosto pela adrenalina
A humildade e o respeito pelo outro são os valores fundamentais para Sérgio Ferro. O novo responsável pela corporação confessa-se um homem simples e aberto à comunidade. Entrou para os bombeiros há 27 anos por influência familiar. A primeira vez que se estreou num fogo foi na Sertã. “Hoje era impensável. Lembro-me do Jerónimo estar aflito para arranjar pessoal para ir e eu ofereci-me, mesmo sem experiência. Deram-me luz verde, corri para casa, agarrei num saco com alguma roupa e vim a correr para os bombeiros. A minha mãe ameaçou meter-me fora de casa se eu fosse. Mas arrisquei e estive lá cinco dias. Foi a melhor recruta que tive”, recorda a O MIRANTE.
Sérgio Ferro tirou todos os cursos mais radicais que existem nos bombeiros: de resgate de grande ângulo a resgate em grutas e mergulho. Integrou duas missões internacionais, no sismo da Turquia em 1999 e em Moçambique em 2000. O comandante diz estar a lidar bem com as novas responsabilidades. Para já a primeira prioridade é mudar a orgânica interna da corporação e adaptá-la aos tempos actuais. “Irei ser o comandante que o meu pessoal quiser, neste momento estou super feliz por a equipa sentir que vão haver coisas novas”, explica.

Mergulhar no Tejo para resgatar um corpo é como entrar dentro de um quarto escuro

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