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“Gastaram-se milhões na construção do Aquapolis que agora está ao abandono”
Luís Alves, presidente da União de Freguesias de São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo

“Gastaram-se milhões na construção do Aquapolis que agora está ao abandono”

Luís Alves critica Câmara de Abrantes por não querer a Junta de Rossio ao Sul do Tejo a administrar o espaço.

Edição de 07.02.2019 | Sociedade

“O Aquapolis é um espaço maravilhoso junto ao rio Tejo, onde se gastaram milhões de euros na requalificação, e agora está ao abandono. Tudo porque a Câmara de Abrantes não quer protocolar com a junta de freguesia, para que sejamos nós a administrar o espaço. O Aquapolis está na localidade de Rossio ao Sul do Tejo e sentimos este local como nosso, temos condições para o administrar e torná-lo um espaço de convívio da população”. Os desabafos são do presidente da União de Freguesias de São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo, Luís Alves.
O autarca, que foi eleito há seis anos como independente pelas listas do Partido Socialista (PS), critica a decisão do município, referindo ainda que depois do encerramento o Aquapolis ficou sem condições de utilização e não é seguro. “À noite ainda é pior porque não há iluminação. Não é um local para onde eu possa vir caminhar com a minha família e é uma pena porque esta é uma zona tão aprazível com o Tejo aos pés”, afirma.
A ideia de Luís Alves era reabrir os dois espaços que estão encerrados, e que já foram alvo de tentativas de arrombamento, e criar um local de promoção dos produtos do concelho, alargando também à área cultural com divulgação de livros.
Luís Alves diz que acreditou nas boas intenções de quem mandou construir o açude de Abrantes, que criou uma barreira artificial no Tejo, mas lamenta que todos os projectos tenham ficado pelo caminho e que os governantes deveriam tirar daí as suas conclusões.

“Temos que apostar nas pessoas para sermos uma região com futuro”

Numa altura em que o Governo pretende recuperar a profissão de guarda-rios O MIRANTE conversou com Luís Alves que foi guarda-rios durante cerca de 30 anos. Luís Alves é ribatejano por adopção e conta nesta entrevista como veio parar ao Ribatejo depois de muitos anos a viver em Évora e mais tarde em África e na Suíça. Uma viagem com um presidente de Junta comprometido e com boas ideias para a sua terra.

Que memórias tem dos 30 anos que trabalhou como guarda-rios?

Guardo muitas memórias e muito boas. Foi um tempo extraordinário, de trabalho mas também de aprendizagem. Conheci muitas pessoas. Ainda hoje há gente que já não me vê há muitos anos e que quando me encontra exclama: ‘olha o guarda-rios’. Ainda se lembram de mim e essa lembrança é muito gratificante. O que vivemos com as pessoas ao longo dos anos é o que levamos de melhor da vida.

Qual era realmente o seu trabalho?

O meu primeiro trabalho na Hidráulica do Tejo foi organizar o arquivo morto da secção hidráulica de Abrantes. Vi papéis que documentavam a região desde o tempo da monarquia e apaixonei-me por tudo.

Qual era a sua área de trabalho?

A Hidráulica do Tejo estava dividida por zonas. Comecei por ficar com as áreas de Rossio ao Sul do Tejo e Mouriscas. Tínhamos que fazer muitos quilómetros a pé. A nossa principal missão era na área da prevenção, explicar às pessoas o que é que lhes podia acontecer se não cumprissem a lei. No final da carreira já era o responsável pela fiscalização de 12 concelhos no norte do distrito de Santarém.

Apanhou muita gente a transgredir?

Apanhámos algumas pessoas mas fazíamos muita prevenção. As maiores transgressões eram na construção, quando não respeitavam as distâncias das linhas de água.

Os rios estavam mais limpos nessa altura?

Dantes havia mais poluição: Notava-se menos porque o rio levava mais água. Nos anos 80 e 90 havia muitas indústrias pujantes, que agora já não existem. As câmara municipais também poluem bastante os rios com as suas ETAR. Agora as coisas estão melhores, embora existam outros problemas.

De quem é a culpa das sucessivas agressões ao ambiente?

É do Estado, que abandonou a política de prevenção e começou a multar a torto e a direito. Traçaram uma política que correu mal. A escolha foi feita por tecnocratas, a maioria nunca veio ao campo, estavam nos gabinetes e não sabiam nada do que se passava no terreno. As licenças para as indústrias não tiveram em conta a diminuição do caudal do rio.

O Estado cometeu outros erros graves?

A extinção da Hidráulica do Tejo, que tinha 400 pessoas a trabalhar e meia dúzia a dirigir, foi um erro colossal. Havia um organismo, o INAG (Instituto Nacional da Água), que mandava a nível nacional e recebia toda a informação gerada pelos órgãos dependentes. Quando decidiram dividir tudo por cinco organismos diferentes foi uma escolha infeliz, porque é impossível fazer uma boa coordenação entre todos.

Ficou contente por saber que os guarda-rios estão de volta?

Fico contente por ver que se está a tentar remediar um erro cometido no passado. Tenho receio que seja só fogo de vista. Têm que dar condições de trabalho às pessoas e formação. Cinco guarda-rios para o Tejo e afluentes é muito pouco. Mas o mais importante é que vai haver toda uma estrutura de trabalho que é importante desenvolver. Temos que esperar para ver se vai funcionar.

“Só vamos conseguir ser cidade a sério se conseguirmos indústrias”

Sente-se realizado no papel de autarca?

Quando nos entregamos aos cargos e fazemos as coisas em prol dos cidadãos é gratificante mas é difícil porque hoje está a exigir-se às juntas de freguesia uma quantidade de coisas que não temos meios nem estruturas para fazer. Temos que ser resilientes e não desistir.

Quais são os principais problemas da sua União de Freguesias?

A falta de meios económicos para conseguirmos desempenhar as várias tarefas que nos estão destinadas através do protocolo da delegação de competências com a câmara municipal.

O que faz falta na sua União de Freguesias?

O mais importante é trazer gente jovem e não deixar fugir os que vivem cá. Para isso tem de haver criação de empregos. Sem empregos as pessoas saem daqui e vão à procura de melhores condições de vida.

Defende a agregação de freguesias?

Todas as fronteiras são artificiais e com as freguesias acontece o mesmo. São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo ganharam escala com a fusão e são as pessoas que ganham com isso.

Abrantes é a cidade dos seus sonhos?

Tirei o curso de sargentos milicianos nas Caldas da Rainha e quando fazia a viagem de camioneta entre Évora, onde vivia, e as Caldas, sempre que passava por aqui ficava encantado com a vista do rio Tejo. E pensava nas pessoas que aqui viviam. Só podiam ser muito felizes por terem uma paisagem destas. Quis o destino que viesse viver para cá e por isso sou feliz.

O que poderia ser melhorado no concelho?

Só vamos conseguir ser um concelho a sério, uma cidade com pessoas, se conseguirmos captar indústrias que fixem jovens e lhes dêem uma perspectiva de vida. O que mais interessa são as pessoas. Quem não apostar nas pessoas, sobretudo nos jovens, vai perder o comboio do desenvolvimento e arrisca-se a uma desertificação ainda maior.

O guarda-rios que foi emigrante durante mais de duas décadas

Luís Alves tem 73 anos e é presidente da União de Freguesias de São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo, concelho de Abrantes, há cerca de seis anos. Nasceu em Trás-os-Montes e viveu em Évora até ir para Moçambique, onde fez a tropa e conheceu a esposa. Depois de mais de duas décadas a viver em países como Angola, África do Sul e Suíça, a trabalhar na área da metalomecânica, regressou a Portugal e foi viver para Abrantes, terra da família da esposa. Tem dois filhos e dois netos.
Em 1981 foi um dos últimos a concorrer à profissão de guarda-rios. A intenção era entrar na função pública e depois mudar para outro serviço, mas descobriu que estavam a pagar-lhe para fazer algo que gostava muito. “Tínhamos completa liberdade para organizar o serviço na nossa área. Quatro dias por semana fazíamos trabalho externo e à sexta-feira o trabalho era feito à secretária”, recorda.
Apaixonado pela natureza, ainda se lembra do canto dos rouxinóis. Hoje não come peixe do rio e diz que tem mais medo da poluição que não se conhece e de que nem se fala, como a das ETAR. Os esgotos de Madrid, por exemplo, uma cidade com milhões de pessoas, vão até Toledo sem serem tratados e acumulam-se nas barragens. A água vem sempre com poluição”, afirma convicto.
Luís Alves guarda na memória as muitas sestas que dormiu à beira rio e as vezes que pescava. Recorda também uma vez que tentou atravessar o Tejo a nado e viu-se aflito. “O rio parecia calmo mas no meio tem sempre uma corrente forte e vi-me atrapalhado, mas lá consegui chegar à outra margem”, conta. Há 30 anos ia ao banho no Tejo com mais confiança do que agora e nem nessa altura matava a sede com a água do rio.

“Gastaram-se milhões na construção do Aquapolis que agora está ao abandono”

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