Sociedade | 15-01-2005 11:44

Capelinha das aparições reabre em Asseiceira

Seja segunda- feira, quinta ou domingo, sob chuva ou sol, a 16 de cada mês, a população de Asseiceira, Rio Maior, sai em procissão, mantendo vivo há 50 anos, um culto inicialmente mal aceite e hoje tolerado pela Igreja Católica.Este domingo, a procissão de Nossa Senhora do Rosário da Asseiceira tem para os habitantes da freguesia um significado especial, pois marca a reabertura da "capelinha das aparições", depois de obras que a "rodearam" de uma estrutura de vidro que alargou o local de culto.É dessa capelinha, construída pela população, que todos os dias ininterruptamente desde há 50 anos, se continua a ouvir o terço, cumprindo o que o menino vidente da Asseiceira disse ter-lhe sido pedido, a favor da paz, pela Nossa Senhora que lhe apareceu junto a um loureiro em 16 de Maio de 1954.A teimosia do menino, na altura reprimida pela Igreja e pela GNR - que, segundo os jornais da época, a 16 de Dezembro de 1954 testemunhou e "não pôde ocultar a verdade dos factos ocorridos" -, levou à Asseiceira, nesse ano, "dezenas de milhares de peregrinos" que alegavam presenciar fenómenos, olhando directamente para o sol, igualmente relatados pela imprensa nacional e regional.As "aparições marianas de Asseiceira - Rio Maior" motivaram, há quatro anos, uma tese e foram relatadas à Agência Lusa pelo presidente da Junta de Freguesia local, Augusto Figueiredo, um autarca eleito pela CDU que tem lutado ao lado da população pelo reconhecimento do culto a Nossa Senhora do Rosário da Asseiceira por parte da Igreja Católica.Augusto Figueiredo lamenta que durante perto de 40 anos a sua freguesia, onde existem três capelas, tenha sido privada de celebrações religiosas ou mesmo da catequese, o que motivou tomadas de posição da população, nomeadamente dando conta do seu descontentamento em cartas enviadas, em 1982 e 1983, ao Vaticano, ao Bispo de Santarém e ao Governo Civil.Só no início da década de noventa do século XX se realizaram as primeiras celebrações religiosas na freguesia, tendo em 1995, durante uma visita do primeiro bispo de Santarém, sido lançada a primeira pedra de uma igreja que continua à espera de melhores dias.Augusto Figueiredo não esconde que a sua ambição é criar uma paróquia na freguesia, "para que os casamentos e os baptizados se façam aqui e não em Rio Maior", esperando que a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo desbloqueie o projecto para a construção da igreja, que tem em mãos há quatro anos.Segundo o autarca, o Direito Canónico reconhece uma prática diária de culto ininterrupta num período de 50 anos, pelo que, no seu entender, é tempo de um reconhecimento oficial por parte da Igreja."Os sacerdotes e a religião católica assumem uma atitude de algum distanciamento, ou seja, vão ao local, presidem à comissão (criada para gerir e manter o recinto das aparições e os bens que os fieis aí depositam), mas mostram-se alheados e evitam comentários relativamente aos factos e actos religiosos praticados pelo povo", lê-se no trabalho académico de Maria José Figueiredo."O povo nem sempre entende a dualidade de critérios que a Igreja assume e a pergunta surge frequentemente: se a Igreja aceita como verdadeiro o caso de Fátima, por que é que não aceita a aparição de Nossa Senhora em Asseiceira?", escreve.Para Augusto Figueiredo, a resposta pode ser que a disseminação de fenómenos pelo país retiraria importância a Fátima.O envolvimento da Igreja acabou por ficar registado numa escritura pública, celebrada na época em que proliferaram as seitas em Portugal, em que a Comissão de Melhoramentos e Conservação do Recinto das Aparições de Nossa Senhora do Rosário de Asseiceira doa o terreno, sob o compromisso de na sua área ser construído um centro de dia e uma igreja.A comissão, que passa a ser presidida por um pároco, gere ainda os donativos entregue pelos crentes em troca de favores obtidos de Nossa Senhora, incluindo objectos em ouro, valores aplicados em melhorias no recinto e, os mais valiosos, reserva do património guardada em cofre num banco.As obras na capela, orçadas em 90 mil euros, foram decididas depois de um processo conturbado, há três anos, quando o povo reagiu com revolta à intenção da comissão de alterar a capela, disse Augusto Figueiredo."Consultado o povo, manteve-se a capela exactamente como era, só que recuperada, e o espaço envolvente foi alargado com uma estrutura em vidro, com sete metros e um cruzeiro", disse, sublinhando que, quando a igreja for construída, a capelinha manter-se-á, preservando-se como local de culto.O regresso da imagem de Nossa Senhora do Rosário, resguardada noutro local durante as obras, vai acontecer domingo a partir das 14:00, seguindo-se missa, realizando- se hoje à noite uma procissão de velas.Lusa

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