Sociedade | 22-01-2005 12:16

Técnico de farmácia octogenário tem colecção com mais de 8 mil rótulos

Um técnico de farmácia de 85 anos mantém-se no activo há mais de sete décadas na Alta de Coimbra, onde organiza uma colecção já com mais de oito mil rótulos farmacêuticos.

Artur Braz trabalha há 76 anos na Farmácia Lopes Rodrigues, ao Arco de Almedina, e é na sua casa, também na Alta, que guarda aquela que se admite ser a maior colecção de rótulos farmacêuticos do país, com mais de oito mil exemplares, dos quais 6.500 já se encontram catalogados em álbuns +bordeaux+.Sócio fundador (nº 2) do Ateneu de Coimbra, Artur Braz alimentou desde criança o gosto por envergar uma bata branca, pelo que começou a trabalhar com nove anos na Farmácia (então apelidada de Arménio Ferreira) onde ainda hoje desempenha a sua actividade."Era muito bonito preparar os manipulados (medicamentos preparado à mão)", diz à agência Lusa, ao recordar, com saudade, estas práticas agora pouco habituais.Figura estimada na comunidade em que se insere, Artur Braz dedicou-se de alma e coração à prática farmacêutica e, antes de iniciar o seu horário de trabalho no estabelecimento, costumava deslocar-se à casa de alguns doentes, aplicando curativos e injecções.Emprestou uma devoção tal à profissão que, no dia do casamento, a cerimónia foi marcada para as 07:30, a fim de poder assegurar a abertura da Farmácia à hora habitual.Foi o primeiro presidente da comissão administrativa da Junta de Freguesia da Almedina e, nos anos oitenta, encabeçou, a título independente, uma lista do PCP para esta autarquia, que venceu o sufrágio com maioria absoluta."Disseram-me: +É a pessoa indicada porque leva as pessoas de direita e de esquerda a votar em si+", recordou Artur Braz, sendo voz corrente na comunidade que a sua vitória em muito se ficou a dever aos votos das religiosas das ordens localizadas na freguesia.Quando aceitou o convite para encabeçar a lista, prometeu entregar às lides autárquicas o mesmo empenho que depositava na profissão."Se for eleito, terão uma junta e um presidente à vossa disposição 24 horas por dia", prometeu então, lembrando que, durante o mandato, os munícipes o demandavam em casa, na farmácia, no café.Acabou por perfazer quinze anos de exercício de cargos na Junta de Freguesia de Almedina, tendo sido também presidente da Assembleia e secretário."Chamavam-me +o comunista da farmácia+ mas não sou filiado em partido nenhum. Sou um revoltado, votei sempre pela esquerda", afirma, ao salientar o aparente paradoxo de ter despertado esta estima na "freguesia com mais instituições católicas" da cidade.Chegou a ser detido pela PIDE por distribuir material considerado subversivo, o que, mais tarde, inviabilizou a sua aprovação num concurso para a farmácia central dos Hospitais da Universidade de Coimbra.Enquanto conversa, Artur Braz folheia os álbuns com os rótulos cuidadosamente dispostos, mostrando os nomes de produtos como a "Água de Botot", um elixir dentífrico, o óleo de fígado de bacalhau, os licores de rosa e de café, o confeito de aloés, o xarope de maçã reineta, a glicerina pura, o vinagre aromático (para as dores de cabeça) ou a tintura de cevadilha, indicada para o combate aos piolhos.Contendo exemplares de quase todas as farmácias das cidades e vilas do país, dos variados produtos preparados nestes estabelecimentos, a colecção inclui, entre outros dísticos centenários, um rótulo cor-de-rosa da Farmácia Nazareth (fundada em 1815 em Coimbra), premiado na Exposição Universal de Paris de 1900.Outros rótulos dão indicações sobre a forma de tomar - às colheres, às gotas, aos cálices, em jejum ou às refeições - ou aplicar os manipulados, advertindo para "Agitar antes de usar" ou alertando que se destinam a uso externo ou veterinário ou que se trata de um veneno.Alguns de cores vivas, outros já amarelados pelo tempo, exibindo grafias antigas como "Pharmacia" e apresentando o custo em reis, os rótulos coleccionados por Artur Braz devem também muito à disponibilidade da sua família."Fazíamos campismo de Norte a Sul do país e por onde passávamos pedíamos sempre rótulos nas farmácias", refere Maria Hermínia, filha de Artur Braz, ao recordar a forma como a colecção, iniciada na década de setenta em Coimbra, acabou por incluir exemplares de centenas de outros estabelecimentos.O entusiasmo pela colecção levou o técnico a dirigir circulares, com envelopes selados e com a sua morada, a diversas farmácias, pedindo o envio de rótulos, o que também contribuiu para aumentar a colecção, graças à receptividade que esta forma de angariação mereceu."Tenho tantos que até já arranjei 500 repetidos para um coleccionador de Coimbra", declara Artur Braz.Já incluída em várias exposições em todo o país, a colecção de rótulos de farmácia de Artur Braz permite uma viagem a uma época já extinta.Os estabelecimentos vendiam então produtos singulares como as "pastilhas de oxygenio", da Farmácia Figueiredo (Porto) e descritas como "o melhor, o mais enérgico e eficaz purificador da boca", que "tira o mau hálito e cura gengivites e inflamações da garganta".Apesar de aposentado e já há 76 anos a aviar medicamentos, o Senhor Artur, ou o "Dr. Pastilha" - como é carinhosamente apelidado na comunidade - continua a dirigir- se diariamente, apoiado na bengala, para a Farmácia, onde transmite o seu saber feito de experiência aos que se estão a iniciar na actividade

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