Sociedade | 12-03-2005 12:24

Peregrino marcar Caminho de Santiago entre Coimbra e Porto

Um peregrino que viaja há 26 anos em defesa da livre circulação no planeta vai simbolicamente marcar com as tradicionais setas amarelas o percurso do Caminho de Santiago entre Coimbra e Porto.

Esse percurso nunca foi marcado com as setas que, colocadas em muros ou no chão, orientam os peregrinos no seu caminho até Santiago de Compostela, local de peregrinação na Galiza, tendo a Associação dos Amigos do Caminho de Santiago decidido aproveitar a primeira visita do "vagabundo" Alain Bezard a Portugal - encontra-se no Porto -, para concretizar esse sonho antigo.Alain Bezard notabilizou-se nas últimas décadas pela defesa da livre circulação pelo planeta Terra, sem vistos nem obrigações burocráticas, tendo percorrido praticamente todo o mundo com uma mochila às costas e sem um tostão no bolso.Com uma saúde de ferro - nunca adoeceu nos seus 26 anos de marcha - Alain Bezard, 50 anos, já contactou os mais desconhecidos povos do planeta, desde os esquimós do Alasca até aos curdos das montanhas turcas, passando pelos habitantes "esquecidos" do interior da Ásia.Com 24 anos, em 1978, cansado de uma vida de tipo "casa- trabalho, trabalho-casa", Bezard decidiu entregar todos os seus bens aos amigos: "o carro para este, a televisão para aquele, a mobília para aqueloutro"."Foi a 28 de Outubro de 1978, um domingo. Cheguei a casa e pensei para mim próprio: Mais não! Dei tudo aos amigos, comprei uma bicicleta em segunda mão por 150 francos e parti em direcção a Leste.O Leste é para quem quer descobrir. O Oeste para quem quer ganhar dinheiro".Com 300 dólares no bolso, seguiu para a Grécia, onde teve de vender a bicicleta para conseguir viver.Vivia-se ainda a influência da ideologia hippie e chegavam da Índia e do Paquistão peregrinos cheios de histórias e de cores nas palavras.Alain deixou-se entusiasmar e partiu de novo, desta vez para uma viagem que, com uma ou outra pausa pelo caminho, ainda não terminou 26 anos depois.Depois de uma primeira visita à Índia - onde se deslocou já quatro vezes - viveu quatro anos numa aldeia da Lapónia e seis na China, onde abriu um restaurante, casou, teve um filho e ganhou problemas com as máfias locais.A passagem do milénio apanhou-o a viver nas ruas de Londres, com os sem-abrigo, e a notícia de que um grupo de milionários ia alugar um Concorde para festejar vários reveillons pelo planeta fora abriu-lhe o apetite para uma nova aventura."Pensei: vou provar que é possível festejar também duas passagens de milénio sem dinheiro". Dito e feito: partiu com a mochila do costume em direcção ao Alasca, e daí embarcou para as duas ilhas que, no Estreito de Bering, dividem os Estados Unidos e a Rússia."Numa ilha é por exemplo domingo e na outra segunda-feira. Era o local ideal para passar duas vezes o milénio. Com um grupo de habitantes locais e recorrendo a motos de água, após as badaladas conseguimos chegar à outra ilha a tempo de novos festejos", explicou.Fora o Alasca, Alain Bezard nunca conseguiu, porém, visitar os Estados Unidos, porque nunca conseguiu provar que do Canadá pretendia seguir para o México: um vagabundo não tem bilhete de avião no bolsoÓ "Quando na fronteira (dos Estados Unidos) me impediram a entrada eu exigi falar com o dono da terra, porque pelos vistos alguém tinha comprado os Estados Unidos e se achava seu proprietário. Tentei com isso provar que a terra não é de ninguém mas sim de todos", disse.Também a Rússia foi até ao momento um destino impossível, porque o trajecto que o francês tentou efectuar - atravessar a Sibéria até ao Norte - foi considerado demasiado perigoso pelas autoridades de Moscovo, particularmente para alguém sozinho e sem equipamento próprio."Quando cheguei ao Estreito de Bering e vi os imensos maciços de neve do lado russo percebi que tinham toda a razão: teria sido uma loucura", recordou.Considerando-se cidadão do mundo - "o meu emprego é visitar o planeta", diz Bezard - o francês só não se sente em casa na sua terra natal, país que o faz sentir-se "oprimido, doente, com falta de ar".E de facto o peregrino não tem grandes motivos para sentir saudades de uma infância e juventude muito pobres, que o obrigaram a viver onze anos numa instituição do Estado, período que o marcou de forma muito negativa.A sua visão de um planeta sem dono leva-o a ter uma total solidariedade com os que tentam emigrar para destinos mais auspiciosos, considerando "vergonhoso que na Europa exista um dia para as vítimas de acidentes nas estradas e ninguém pense nos muitos que perdem a vida a tentar lutar por uma vida melhor".Sem um tostão no bolso - "tenho duas mãos: é quanto me basta para em qualquer lugar nunca morrer de fome" - e apesar de repudiar o sistema instituído, Alain Bezard tem um site na Internet, no endereço "http://membres.lycos.fr/supervoyage/, criado por um técnico informático de Taiwan que conheceu algures na Índia, quando explorava viagens de camelo.Se a saúde é de ferro, a sorte com assaltos também não lhe fica atrás, já que foi roubado apenas uma vez nestes 26 anos - tiraram- lhe o dossier onde compila todas as notícias que saem sobre si e os diários que ao longo dos anos tinha escrito."Devolveram-me o dossier, mas exigiram dinheiro pelos livros.Disse-lhes que não e a partir daí passei a guardar tudo na cabeça", acrescentou.A maneira como se encontra hospedado no Porto mostra a habilidade que Alain Bezard tem para criar sinergias em seu redor:Dorme no quartel dos Bombeiros Voluntários do Porto, está a tentar emprego com a ajuda dos Amigos do Caminho de Santiago e aprende o Português suficiente para partir para o seu novo destino, o Brasil.

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