Sociedade | 30-03-2006 10:12

A jovem dos "ossos de vidro"

Mafalda Ribeiro sofre da doença dos ossos de vidro. Tem 22 anos, 97 centímetros e uma grande força interior. É uma profissional dedicada, noctívaga assumida, que detesta ficar fechada em casa.Encontro marcado nos escritórios da empresa. Às 13h30. Para aproveitar o intervalo do almoço. A semana de Mafalda Ribeiro, técnica de comunicação, jornalista e promotora cultural, está especialmente agitada. À hora marcada Mafalda Ribeiro ruma até à recepção da Valorsul, em S. João da Talha. Desce pelo elevador de cadeira de rodas, ultrapassa três portas de vidro e apresenta-se na naturalidade dos seus 22 anos e 97 centímetros.A osteogénese imperfeita, vulgarmente conhecida como “doença dos ossos de vidro”, não é motivo de embaraço ou limitação para a jovem residente em Calhandriz, concelho de Vila Franca de Xira. Os condicionalismos de um erro genético que lhe deixou os ossos frágeis e lhe roubou a capacidade de andar foram ultrapassados por uma força interior inexplicável. Os amigos acham-na inspiradora. Não sabe porquê. É simplesmente ela própria.É hora de grande movimento junto ao bar-refeitório. Ninguém se cruza com Mafalda Ribeiro sem atirar uma palavra de cumprimento ou um sorriso. Na empresa, onde trabalha há ano e meio, já todos se habituaram à presença simpática da técnica que comunica como ninguém. A uma entrevista pedida por e-mail Mafalda Ribeiro responde poucos minutos depois.A eficiência foi um dos motivos que levou a empresa do sector ambiental a apostar no seu trabalho. Começou como trabalhadora estudante ainda na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, fez um estágio profissional e hoje integra os quadros da firma. É Mafalda Ribeiro quem produz os conteúdos para a página da Internet, atende a linha azul, faz os contactos com a imprensa e elabora os textos para o boletim da empresa, entre outras tarefas.O edifício está totalmente preparado para receber pessoas “diferentes”. O único problema é chegar lá. São os pais que a levam até ao local de trabalho porque os transportes públicos ficam inacessíveis.As verdadeiras dificuldades são as barreiras arquitectónicas com que ainda se depara sempre que sai à rua. Levantar dinheiro, ir aos correios ou andar de autocarro são tarefas quase impossíveis sem ajuda. Mafalda Ribeiro já se habituou a esbarrar na falta de acessibilidades. Sempre que é preciso pais e amigos colocam em marcha o plano de contingência. Mafalda Ribeiro, 20 quilos, passa da cadeira de rodas para o colo. Seja no teatro ou na discoteca. A posição só é desconfortável para quem a olha como se de um extraterrestre se tratasse. Mafalda Ribeiro até aceita a curiosidade dos outros. Só não admite faltas de educação. “Os meus amigos é que mais sofrem com esta situação. Cada vez que eles sonham que alguém está a magoar-me com um olhar ou comentário querem logo tirar-me dali”, diz Mafalda Ribeiro que sempre viveu bem na sua pele.O trabalho de técnica de comunicação ocupa-a apenas das nove da manhã às seis da tarde. As restantes horas do dia são aproveitadas para frequentar cursos, sair à noite e preparar projectos de voluntariado. Ainda arranja tempo para escrever num jornal regional, fazer a gestão de carreira da cantora e intérpetre de língua gestual Paula Teixeira e apresentar desfiles de moda. “Há pessoas que me perguntam como arranjo tempo para dormir”, diz quem raramente se deita antes da uma da manhã e todas as semanas sai à noite. “Sou muito mais independente do que algumas amigas minhas que também vivem com os pais, que também têm 22 anos e que têm namorado. Muitas estão dependentes ou dos namorados ou dos pais”.A menina a quem os médicos não davam muitos anos de vida foi vingando. Teve uma infância quase normal. Aos quatro anos tinha o tamanho de um bebé de ano e meio. O pai levava-a ao café. Sentava-a no balcão e Mafalda adoçava e mexia a bebida. “O meu pai deixava-me para ir à casa de banho e as pessoas ficavam em pânico a pensar que o bebé podia cair”, recorda.Atravessou as fases difíceis como muitas outras adolescentes, mas nunca viveu atormentada pela doença. “Preocupava-me sim em saber porque é que aquele rapaz não gostava de mim”, diz com humor a rapariga que calça o 26 e veste roupa de tamanho para criança rosa bebé. Foi esse tom que escolheu para colorir a sua vida.

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