Sociedade | 30-03-2006 09:55

Perigo debaixo de telha na Ribeira de Santarém

Na Ribeira de Santarém já foram feitas vistorias para avaliar a segurança das habitações que apontam para a necessidade de obras urgentes. Antes que as casas desabem em cima das pessoas.Maria Eugénia Couto entra em casa de olhos fixos no tecto de madeira que se vai desfazendo pela humidade, com receio que o telhado desabe. Há dias uma pedra da empena caiu por um buraco do forro. Só não lhe acertou na cabeça porque estava de chapéu-de-chuva aberto para não ficar molhada pela água que entra pelos furos do telhado. A cena passa-se na Ribeira de Santarém, às portas da cidade de Santarém, onde muita gente vive em casas em risco de ruína. Quando liga o interruptor emergem do escuro rachas nas paredes onde cabe quase um dedo. O chão de madeira range a cada passo. Na pequena sala onde mal cabem quatro pessoas há um bocado de tecto a desprender-se. Um quadro com uma criança triste pendurado numa parede enegrecida pela humidade torna o local ainda mais soturno. Maria Eugénia Couto conduz-nos ao quarto onde nos dias de chuva dorme com uma toalha impermeável de cozinha por cima para não ficar molhada. “Nesses dias chuvosos tenho que desligar o quadro eléctrico porque corre um fio de água pelo candeeiro”, explica. A terceira divisão é a cozinha, onde está também a improvisada casa de banho constituída apenas por uma pia a servir de sanita. É assustador estar entre aquelas paredes que emitem estalidos como se estivessem a desintegrar-se. Sons que assustam Maria Eugénia que vive sozinha, é diabética, cega de um olho e ganha cerca de 150 euros do Rendimento Social de Inserção (antigo Rendimento Mínimo). O drama desta inquilina, que paga 54 euros mensais pela renda da habitação, estende-se à maior parte das pessoas que ainda vão resistindo na freguesia. “Os rendeiros são pobres e os senhorios, na maior parte dos casos, também não têm dinheiro para fazer obras”, explica o presidente da junta de freguesia, Vítor Gaspar (CDU).Maria Eugénia, de rosto pesado das amarguras da vida, 61 anos, ainda tem esperança de mudar para outra casa antes que esta lhe desabe em cima. Mas enquanto isso não acontece passa noites sem dormir com medo de ser atingida por bocados de parede ou tecto que a deviam proteger. “Sento-me na cama a fazer renda ou a ver televisão. Há noites que só durmo duas horas”, desabafa. Desespero idêntico vive Helena Teles que de dia está em casa com o irmão e a avó de 92 anos, que ocupam o rés-do-chão. À noite, com receio, prefere ir dormir a casa de uma amiga. No primeiro andar, onde está o seu quarto, há alguidares a aparar os pingos de chuva que o telhado não consegue conter. O soalho está molhado, cheira a humidade, a decadência.Ao contrário de Maria Eugénia a casa é propriedade da família. Helena Teles já solicitou orçamentos para pelo menos arranjar a cobertura. Pediram-lhe 50 mil euros e mais. O irmão está desempregado, a avó ganha uma reforma pequena. Os 400 euros que ganha de ordenado a trabalhar no centro de dia da Ribeira não lhe permitem sequer obter um empréstimo ao banco para fazer as obras. Uma parte da casa que dá para um pequeno quintal não aguentou o peso dos mais de duzentos anos que o imóvel já tem. Várias barras de ferro tentam segurar a parede periclitante. “A sorte é a casa ser composta por vários telhados. Se fosse um único para todo o edifício já tinha caído tudo”, vaticina Helena apontando para dez recipientes cheios de água só da chuvosa quinta-feira, dia 23. Helena não sabe quantas mais invernias a casa vai aguentar, mas sente que a qualquer momento algumas partes podem ruir. As velas a iluminar os santos em cima de um móvel, à entrada da casa, vão alimentando a esperança que um dia aconteça um milagre.

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