Sociedade | 14-04-2006 18:10

A guerra que ainda faz chorar os homens

Enclave de Cabinda, Angola. Março de 1973. António José Oliveira tinha 21 anos. Conduzia a berliet que levava o correio ao aquartelamento da Companhia de Transportes Elefantes Amarelos, no norte da província.O militar miliciano, residente no Sobralinho, Vila Franca de Xira, nunca mais esqueceu esse primeiro serviço. No dia da sua chegada uma emboscada fez tombar cinco militares portugueses. Foi o jovem motorista que ficou incumbido de transportar os corpos.A noite era de luar, frio e chuva. “Os relâmpagos iluminavam as urnas lá atrás como se fosse dia. Eu que ainda ontem tinha estado com a minha mulher e com a minha filha de cinco meses só pensava se também regressaria num daqueles caixotes”, recorda.Os olhos do ex-combatentes enchem-se de água. É sempre assim quando fala das recordações de guerra. “Estou aqui a contar-lhe esta história e já sei que hoje à noite sonho com isto”, confidencia o antigo militar.A guerra deixou-lhe marcas profundas, tal como a outros ex-combatentes que ainda hoje sentem na pele o stress pós-traumático provocado por situações de conflito.“Fomos usados numa guerra com muitos interesses. Hoje não há ninguém que diga assim: façam alguma coisa por estes desgraçados”, diz António José Oliveira, que é também presidente da delegação de Vila Franca de Xira e Vale do Tejo da Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra.António José Oliveira, 54 anos, fez carreira na área da construção civil. Refugia-se nos momentos solitários da caça e da pesca e não costuma partilhar as memórias com a família. Ao contrário de Norvaldo Martins que gosta de falar sobre a guerra. É uma espécie de terapia para fintar o trauma.O mecânico e motorista de profissão, 65 anos, senta-se na mesa da biblioteca de Benavente, onde reside. É neste espaço que procura refúgio das memórias que o atormentam. A conversa começa serena. O discurso flui. De repente as palavras calam-se. O rosto de Norvaldo Martins transforma-se, o queixo treme. Agarra o boné e dobra-o com as mãos agitadas. Pede um pouco de silêncio. É difícil recordar a participação numa guerra que nunca compreendeu.Foi há mais de 40 anos. Em 1962. Vivia-se o princípio do conflito. Norvaldo Martins gosta de contar a sua história ao contrário. Vestindo a pele de quem estava do outro lado. “Quando cheguei a Angola não havia infra-estruturas. As dificuldades eram de toda a ordem. E tínhamos que enfrentar situações de confronto com o chamado “inimigo”. Havia quem os alcunhasse de terroristas. Para mim as pessoas que defendem a terra onde estão não são terroristas”.Norvaldo Martins viveu duas guerras. Uma no terreno, com o cenário místico de África como pano de fundo. Uma outra guerra interior. Entre si próprio e a sua consciência. “Sinto culpa sem ser culpado. Fui obrigado a sê-lo”, confidencia o antigo militar.O ex-combatente não esquece aquele dia em que a companhia chegou a um acampamento de nativos. Lá estavam mulheres, idosos e crianças. O oficial que comandava mandou Norvaldo avançar com uma máquina retro-escavadora. O militar recusou. O oficial conduziu a máquina e encabeçou um acto de genocídio. “Escusado será dizer o que aconteceu”, recorda incomodado.Norvaldo sempre foi revoltado contra a guerra. Desde o primeiro minuto que chegou a África. Muitos oficiais conheciam as suas convicções, mas apesar de tudo foi escapando ao Tribunal de Guerra. Ajudou involuntariamente um oficial a passar a fronteira com o Congo. Falhou uma oportunidade de fuga por não saber as verdadeiras intenções do superior que o deixou longas horas à espera na viatura militar. Não lhe passava pela cabeça de que a liberdade pudesse estar ali tão perto e regressou ao aquartelamento. Só mais tarde percebeu a dimensão da operação de fuga em que tinha sido envolvido. O acaso permitiu que não fosse castigado porque ninguém deu pela sua falta.A revolta invade-o ainda hoje. A revolta contra os apoios repetidamente prometidos pelos governantes que nunca se cumpriram. Como tantos outros ex-militares, Norvaldo Martins precisa de assistência psicológica, de ajuda médica, de alguém que o compreenda. Mais do que um qualquer prestação pecuniária por caridade Norvaldo Martins procura reconquistar a sua tranquilidade.

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