Sociedade | 23-04-2006 12:15

“Se não durmo a sesta até troco as letras das canções”

Quando era criança a sesta era uma tortura. Agora o cantor Pedro Barroso não pode passar sem uma hora de sono a meio do dia. Quando isso não acontece começa a trocar as letras das canções e a ver teclas a mais no piano.Quando criança, a hora da sesta era irremediavelmente precedida por uma valente birra. Afinal, esse tempo correspondia, no mínimo, a uma hora de brincadeira perdida. Actualmente, o músico Pedro Barroso não resiste a “passar pelas brasas” ao final da tarde, e se não o faz, admite que há grandes possibilidades de o verem levemente rabugento. É por isso que defende entusiasticamente o direito a um horário de trabalho em que esteja prevista uma interrupção para fazer a sesta. E, foi nesse sentido que, em 2003, se tornou sócio fundador da Associação Portuguesa dos Amigos da Sesta, juntamente com um grupo de caras conhecidas que ao início eram vistos como “uns lunáticos preguiçosos a defender uma ideia exótica”.Pedro Barroso não tem dúvidas de que dividir o dia em duas partes, intercaladas com uma sesta, só pode ser benéfico para o rendimento profissional, pessoal e social de cada um. E já sabe que, quando a mulher lhe diz que está com “cara de gorila adormecido”, não há hipótese. Tem mesmo de parar e fechar os olhos: “Parece que o mundo está desabar perante as minhas pestanas, e naquele momento é impositório e tem mesmo de acontecer. Fico completamente espapaçado”.Normalmente, é entre as cinco e as seis horas da tarde que o músico faz uma pausa para repousar, porque o organismo assim o exige: “Começo a trocar as letras das canções e a ver teclas a mais, por isso, não vale a pena continuar. E, em dias de espectáculo, é para mim muito importante conseguir retirar-me uns minutos durante a tarde para fechar os olhos e recuperar energias”, confessa o músico.E, não se pense que esse é tempo perdido, pelo contrário. Pedro Barroso garante que “com vinte minutos de sesta se consegue substituir uma hora de sono nocturno com vantagem”. Além disso, o músico admite que quando acorda da sesta está pronto para enfrentar o resto do dia com boa disposição: “A revitalização que eu sinto quando acordo da sesta é tal, que para mim o final da tarde é uma hora de energia extraordinária e ao cair da noite, começo a sentir um fulgor imenso e ninguém me para. Nunca me deito antes das três da manhã”.O segredo está na sesta, mas a verdade é que nem todos têm o privilégio de poder gerir o seu horário de trabalho em função daquilo a que muitos consideram um capricho, e a que outros chamam de “necessidade fisiológica”.Primeiro é precisoconvencer os patrões.Pedro Barroso diz que é tudo uma questão de “regionalidade comportamental”, e que é preciso fazer ver aos empregadores que só têm a ganhar com a vitalidade que os seus assalariados ganham quando acordam da sesta.“Isto passa muito pela mentalidade das pessoas. Porque, se o patrão for inteligente e perceber que ao abdicar de uns minutos, o rendimento do empregado aumenta exponencialmente, não tem dúvidas e contempla um tempo de sesta dentro do horário de trabalho”, defende o músico.Além disso, Pedro Barroso explica que “cada país tem as suas idiossincrasias e por isso, os horários de trabalho devem de ser diferenciados em função dessas características: “Hoje em dia vivemos numa aldeia global, com horários globais. E isso é destituído de razão do ponto de vista geo-político. Basta dizer que nós não podemos ter o mesmo ritmo profissional que um finlandês ou um norueguês”.Convicto das suas ideias, que começam a ser “provadas cientificamente e defendidas por profissionais de saúde”, o músico explica que a sesta não é uma correcção do sono nocturno e que nada tem a ver com “ fazer ronha ao trabalho”: “Não estamos a falar de parar de trabalhar durante três horas, porque isso não é uma sesta. Isso é uma deficiência do sono. Estamos a falar de uns escassos minutos para repor energias”.E para os mais cépticos, Pedro Barroso aconselha: “Recomendo vivamente que as pessoas façam a sesta. Para além de ser considerado pelas grandes esteticistas de Hollywood como o melhor tratamento de beleza, o sono é também importantíssimo para que nós estejamos de bem com a vida”.

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