Sociedade | 19-05-2006 10:25

A tradição cantada aos sete ventos

Dâna, neta do poeta de Azambuja Sebastião Mateus Arenque, decidiu recuperar alguns temas do cancioneiro popular reunido pelo avô para cantar aos sete ventos. A sonoridade já chegou ao Japão e Estados Unidos.

As notas suaves do piano soam na plateia. Dâna entra em palco silenciosa, num tecido seda de algodão, pose misteriosa, para entoar uma cantiga de embalar. É uma música tradicional da Ilha da Madeira. A cantora de Azambuja, 25 anos, canta para o filho que carrega no ventre, já em final de tempo, mas também para todos os meninos do mundo.É essa a alma do projecto “Dâna” (palavra em sânscrito que significa dom, a sétima etapa do percurso do Buda) que quer perpetuar a música tradicional portuguesa, conferindo-lhe um toque de modernidade.“É uma mensagem cultural e sentimental que está muito explícita no tema original ‘Esperança’. É realmente uma mensagem de esperança em relação ao estado das coisas do mundo, do acreditar e do amor que às vezes parece que desaparece”, diz a cantora que quer fazer a ponte entre o rural e o urbano e trazer os jovens à cultura tradicional.A tecnologia, a electrónica e a projecção de imagens complementam o projecto que quer dar vida à música tradicional e provar que nem só do fado vive Portugal. O segredo é agarrar na cultura e “descodificá-la para linguagens actuais”, explica o produtor e companheiro da cantora, Vasco Lima, que considera que os irlandeses souberam potenciar a cultura tradicional como ninguém. O álbum “Cantar Português” reúne músicas tradicionais de alguns reputados artistas nacionais. É o caso de Zeca Afonso e Carlos Mendes. Mas também temas populares recuperados pelo avô da cantora, o poeta popular de Azambuja, Sebastião Mateus Arenque. Na década de 80 do século passado o poeta popular coligiu um conjunto de temas para o cancioneiro popular respigados mais de 20 anos depois pela jovem cantora azambujense.A canção popular do Ribatejo “Ciranda” que evoca os tempos da apanha da azeitona na zona do bairro, em Azambuja, é um dos temas que integra o trabalho cantado em português. Ao som de instrumentos mediterrâneos e do Norte de África. “Quero dar continuidade àquilo que o meu avô fez. Ajudo à minha maneira, interpretando, dando um novo código à linguagem”, diz a cantora. Dâna é vista em terras do Oriente como uma voz popular embrenhada em sequências electrónicas. Com uma profusão de instrumentos de culturas completamente distintas. Desde os indianos até aos africanos.“Os estrangeiros captaram a ideia e acharam muito interessante fazer uma abordagem que não seja só fado”, diz o produtor Vasco Lima. O segundo álbum está já a ser preparado para ser editado ainda este ano e incluirá temas em galaico-português em mirandês, a língua falada em Miranda do Douro. A antiga dançarina de folclore, filha e neta de ensaiadores etnográficos, começou a interessar-se pelo mundo da música quando participou no Festival da Canção em 2001 e ficou em terceiro lugar. Formou-se em marketing musical, mas decidiu que queria estar do lado do palco e apegou-se às tradições que hoje canta. Abandonou o trabalho numa empresa privada para se dedicar ao mundo da música.Vasco Lima é o parceiro de Dâna na vida profissional e pessoal. Criaram a produtora do projecto e juntos enfrentam as dificuldades do dia a dia na promoção e edição do trabalho em Portugal.Depois de em 2003 encontrarem muitos obstáculos no mercado português cantora e produtor decidiram apostar no mercado norte-americano e asiático. A jogada resultou e o álbum, colocado no mercado por uma editora japonesa, vendeu milhares de exemplares. Os espectáculos sucedem-se na Europa – França e Itália, Bélgica – e no Japão. A Coreia é o país que se segue. Ana Santiago

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