Sociedade | 07-10-2006 14:32

Descoberto povoado com 3 mil anos em Vila Franca

A um leigo parece um amontoado de pedras. Mas aos olhos de um arqueólogo, os vestígios descobertos no vale de Santa Sofia, Vila Franca de Xira, são a prova da existência de um povoado com cerca de três mil anos."O 'monte de pedras' que ali está era, há três mil anos, a estrutura de protecção de uma cabana", explicou à Lusa no local o arqueólogo João Pimenta.Vestígios de um povoado da última fase da pré-história, a idade do Bronze Final, foram descobertos no vale de Santa Sofia, em Vila Franca de Xira em meados do mês de Setembro, na sequência de trabalhos de investigação que começaram dois meses antes.Em Julho de 2006 tiveram início no Vale de Santa Sofia trabalhos de arqueologia, no âmbito do projecto da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira de construção de um Parque Urbano.As investigações não começaram por acaso: há documentação que indica a existência de uma ocupação da época medieval na área do Bairro do Bom Retiro, situado a Este do futuro Parque Urbano, explicou à Lusa o arqueólogo João Pimenta.A área que começou a ser investigada em Julho tem uma extensão de seis hectares, que vai desde o viaduto da Auto-Estrada do Norte até à fonte de Santa Sofia.Além da descoberta do povoado com três mil anos, os arqueólogos descobrira, "numa zona mais perto do viaduto, uma área de enorme dispersão de materiais romanos, como cerâmicas ou restos de tijolos, dispersos pelo chão", revelou João Pimenta.O arqueólogo do Museu Municipal de Vila Franca de Xira acrescentou ainda que noutras zonas do vale se notou uma ocupação medieval com restos de cerâmicas, pedras e sílex trabalhados e algumas cerâmicas.Face a estas descobertas, a Câmara Municipal decidiu que dois arqueólogos iriam acompanhar todo projecto de construção do Parque Urbano de Santa Sofia.Devido à existência de dois núcleos de dispersão de materiais, romanos e medievais, decidiu-se, em concordância com o Instituto Português de Arqueologia (IPA), efectuar sondagens de reconhecimento nessas áreas.Na área romana, mais perto do viaduto, as sondagens revelaram a existência de uma ocupação rural, num vale fértil que desagua no rio Tejo e está localizado perto da estrada romana, que passava precisamente onde hoje é a Estrada Nacional 10."Nesta área detectámos estruturas precárias, restos de paredes e estruturas de combustão relacionadas com uma quinta, com um casal agrícola romano", explicou João Pimenta."Embora fosse um casal de camponeses, os materiais encontrados indicam uma grande dinâmica económica. Encontrámos cerâmicas dos mais diversos sítios do Império Romano, o que revela a relevância comercial do Vale do Tejo", acrescentou.Para que as obras do Parque Urbano não tivessem impacto nas descobertas decidiu-se, em consonância com o IPA, cobrir os vestígios para que ficassem preservados, inserindo-os na vida do Parque, que se limitará a zonas de lazer com espaços verdes e caminhos pedonais.Noutra das fases de investigação, numa área junto ao Bairro do Bom Retiro, foi feita "a grande descoberta, um povoado com três mil anos, da idade do Bronze Final, a última fase da pré-história", afirmou o arqueólogo.João Pimenta salientou a importância da descoberta explicando que este é um período de que há pouca documentação, de que não se conhecem muitos vestígios, em todo o Vale do Tejo."A descoberta deste povoado torna-se ainda mais interessante porque nos deparamos com uma série de inovações, começa a surgir a estratificação social, denota-se a existência de armas, o que na época era um elemento de prestígio social", explica o arqueólogo.Até ao momento foi detectada na área a existência de cerâmicas manuais e alguns artefactos em pedra que apontam para a existência de um povoado.Face a estas descobertas "decidimos fazer sondagens e estamos já a efectuar uma escavação em área com cerca de 50 metros quadrados para conseguir tratar as estruturas habitacionais, vestígios que não são monumentais, trata-se de hemiciclos em pedra que deverão ser estruturas de protecção das cabanas.A escavação está a revelar a existência de enormes contentores de cerâmica manual que serviam para guardar produtos alimentares e os excedentes da exploração agrícola do vale.A descoberta de restos das estruturas de cabanas e de materiais relacionados com a exploração agrícola e pecuária do vale só por si já seria bastante importante.Mas quando iniciaram a escavação, os arqueólogos depararam-se com algo ainda mais interessante."Este povoado de cabanas da sociedade do Bronze Final recebe as primeiras influências do mundo fenício, dos mercadores que começaram a chegar ao extremo ocidente peninsular no século VII antes de Cristo", revelou João Pimenta.Os mercadores fenícios começaram a estabelecer-se junto a povoados já existentes, perto da foz ou no Vale do Tejo, e a interagir com eles, uma interacção que aqui se materializa no terreno."Nesta cabana que estamos a escavar detectámos vestígios de uma ânfora fenícia, e no terreno já foi encontrada cerâmica a torno, técnica que os fenícios dominavam", explica o arqueólogo.As investigações irão continuar num vale em que fica provada a existência de povoados desde mil anos antes de Cristo.

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