Sociedade | 28-09-2010 00:02

O neto do médico dos pobres do Cartaxo que morreu sem um tostão

O actor António Montez chega ao espaço da cafetaria do Centro Cultural do Cartaxo pelo elevador. Acena ao público, distribuído por mesas, em ambiente informal, e alisa com a palma da mão o cabelo já grisalho. Regressa ao Cartaxo, onde nasceu há 69 anos, depois de uma ausência de quarenta. Na revisitação é acompanhado pelo conterrâneo José Raposo. Foi ali, ainda existia o velhinho Cine-Teatro Ribatejo, que em 1969 apresentou “A Preguiça”, ao lado de Raul Solnado. No final, ainda que António Montez acreditasse passar despercebido, alguém surpreendeu o cartaxeiro com um ramo de flores. É noite de domingo. António Montez levanta o guardanapo para espreitar os pastéis de bacalhau que a organização distribui aos convidados, mas prefere o vinho tinto. Por esta hora já passou o vídeo de Frederico Curado com alguns dos melhores momentos do actor em vários géneros. “Tive a sorte de nunca ter sido o jovem galã”, reconhece com humor. Uma hora depois uma voz feminina levantar-se-á da plateia para dizer que não foi galã, mas teria perfil para o ser, mesmo agora, aos 69 anos. Também poderia ter sido médico se tivesse seguido as pegadas do avô, Júlio Montez, baptizado pelo povo como “pai dos pobres”. Mas decidiu-se pelo teatro. Na mesma tarde o cabelo voltou a crescer-lhe no sítio de onde uma coroa redonda se tinha desprendido. A medicina ficou para trás apesar das boas notas do jovem. O actor de voz rouca e forte, inconfundível, deu provas em todos os géneros. Do teatro ao cinema. Da animação às dobragens. Foi figura conhecida na televisão e participou em novelas como “Vila Faia”, “Chuva na Areia” e “Cinzas”.Foi no Cartaxo que nasceu o menino António Montez, a 25 de Maio de 1941, e lá viveu até aos oito anos. Para prosseguir os estudos a família escolheu Lisboa em vez de Santarém. O pai morreu sem o conhecer. O avô, médico, partiu quando António Montez tinha dois anos, mas ainda assim o actor tem na memória os seus bigodes e as suas brincadeiras. Cinco anos depois da morte do médico Júlio Montez a vila prestou-lhe um tributo. Ergueu um mausoléu no cemitério. “Ao pai dos pobres o Cartaxo agradece”, lê-se na inscrição. “O único médico do concelho do Cartaxo morreu teso que nem um carapau”, testemunha o neto. Aos dez anos a pedido da avó, o menino percorreu as ruas da vila, porta a porta, na tentativa de cobrar dívidas antigas. Sem sucesso. “Muitas vezes o que recebi foi um manguito”, desabafa. Reportagem completa na edição semanal de O MIRANTE.

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