Sociedade | 02-12-2010

Igreja de Azambuja foi pequena para acolher multidão no último adeus a Ortigão Costa (vídeo)

“Tantas flores para o doutor. Palmas de glória. Tanta fome matou a mim e aos meus sete filhos”, chora enquanto vai acenando ao passar do carro funerário, Maria Vitorino, 69 anos, mãe de sete filhos. O funeral do médico veterinário, ganadero e empresário Ortigão Costa, que faleceu aos 83 anos em Azambuja, onde residia, na terça-feira, vítima de doença prolongada, reuniu uma multidão. A igreja matriz da vila foi pequena para acolher todos os que lhe quiseram prestar a última homenagem na tarde de 1 de Dezembro. Ao último adeus compareceu o povo, mas também cavaleiros tauromáquicos (Manuel Jorge de Oliveira e António Ribeiro Telles), ex-ministros (Sevinate Pinto e Gomes da Silva), autarcas, campinos e empresários.Numa entrevista que concedeu em 2006 a O MIRANTE Ortigão Costa, apaixonado pela festa brava, disse defender a morte dos toiros na arena. O criador acreditava que o sofrimento era menor na corrida à espanhola. “No ardor da luta toda a sensibilidade fica embotada”, descreveu quem criou toiros de lide durante mais de 50 anos.Luís Jorge Roldaen Ortigão Blanck Costa nasceu em Alcantarilha, Silves, Algarve, mas há mais de meio século que vivia na vila de Azambuja, na quinta da Fonte do Pinheiro, a descer sobre a lezíria. Em frente ergue-se a fábrica de transformação de tomate que na década de 50 acabou com o desemprego na Azambuja.A fábrica Sugal foi construída nos terrenos do sogro, engenheiro Moniz da Maia, figura ilustre de Azambuja e um dos grandes promotores imobiliários da época, que em 1957 aceitou o desafio de participar na sociedade da empresa.O médico veterinário, então funcionário do Direcção Geral dos Serviços Veterinários, deixou Lisboa e partiu à aventura por terras do Ribatejo, de onde é originária a esposa, Maria Berta Moniz da Maia Ortigão Costa.É na “Herdade de Alcobaça”, naquela cidade alentejana, que pastam os toiros bravos marcados a fogo com o ferro de uma das mais reputadas marcas a nível internacional – OC - Ortigão Costa.Na vila de Azambuja está concentrada a coudelaria da família, a produção de leite, fábrica de transformação de tomate, culturas agrícolas e suinicultura.O patriarca da família de sete filhos – quatro rapazes e três raparigas - fez gradualmente a sucessão. Construiu um império em anos difíceis para os empresários portugueses. O rigor e o perfeccionismo eram características da sua personalidade.No dia da entrevista, como em muitas ocasiões, vestia fato escuro e gravata ao estilo clássico. Relógio de bolso pendurado com cordão prateado. Pontualidade rígida. Era um observador treinado. Não lhe escapava nem o pormenor do desnivelamento dos quadros pendurados na sala de convívio entre a coudelaria e o picadeiro.A disciplina exasperada era temperada com bom humor e cavalheirismo. Diz quem o conhece que dava a mão a quem precisa. Recusava qualquer rótulo político. A sua ideologia era a Igreja Católica.Ortigão Costa, com origem espanhola e alemã por via das avós materna e paterna, descrevia-se à boa maneira dos ganadeiros. “Sou um híbrido”, confessou em 2006 entre duas gargalhadas.

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