Sociedade | 26-12-2010 00:03

Comerciante evoca os antigos bairros dos pescadores junto ao Tejo

A chegada dos avieiros à Póvoa de Santa Iria a partir da década de cinquenta do século passado - bem como a futura urbanização Vila Rio - estão retratadas na montra de uma loja tradicional na zona antiga da Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila Franca de Xira. Desde 2005 que é comum encontrar na loja nº29 da Rua da República, estabelecimento com 85 anos, um “presépio” original. O tema deste ano começou a ser pensado por Célia Monteiro, 57 anos, há um ano. Para contar a história dos avieiros foi comprando algumas peças ao longo do tempo e recuperando outras de presépios passados. Uma pequena casa de madeira que encontrou à venda serviu para representar as casas palafíticas, típicas dos avieiros. Um amigo fez a porta, a janela e colocou as estacas por baixo. De uma farmácia trouxe a casa que representa a futura urbanização Vila Rio. Uma caixa verde serviu para criar a tenda militar onde os avieiros viveram durante dois anos depois de verem as suas casas destruídas. Um barco típico dos avieiros, o mouchão da Póvoa com os caçadores em miniatura, e o rio Tejo, com os filhos dos avieiros a tomar banho, são alguns elementos de uma representação recheada de pormenores. Na montra da loja estão afixadas umas folhas onde se lê a história dos avieiros da Póvoa. Foram escritas por Célia Monteiro que conviveu desde sempre com os pescadores que se vinham abastecer à loja do pai, na altura uma mercearia. Os avieiros chegaram à Póvoa de Santa Iria oriundos de Vieira de Leiria e começaram a construir casas em madeira, assentes em cima de estacas de madeira (casas palafíticas). Segundo a comerciante no princípio da década de sessenta o Porto de Lisboa, proprietário dos terrenos onde os avieiros construiram as casas, mandou deitar abaixo todas as construções, deixando seis famílias sem tecto a viver na rua ao frio e à chuva. O capitão Henrique Tenreiro, conta Célia Monteiro, mandou colocar umas tendas do exército para abrigar as famílias desalojadas, onde viveram durante dois anos. O antigo bairro dos avieiros durou quase quarenta anos até 2004, ano em que foi entregue à comunidade avieira o bairro social. Existe um projecto de Candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional que defende a recuperação da aldeia avieira da Póvoa de Santa Iria para valorizar o património cultural existente e integrar uma rota turística com base no rio Tejo, que ligará a Marina do Parque das Nações à Golegã por vias fluvial, rodoviária e aérea. “Infelizmente a Câmara de Vila Franca de Xira entende que é mais fácil projectar um condomínio fechado para a Póvoa do que preservar toda a cultura da comunidade”, critica Célia Monteiro nas páginas que colocou na montra da loja, referindo-se ao polémico empreendimento Vila Rio que vai ser construído na zona ribeirinha.Num canto da montra da loja está também o presépio tradicional com as figuras de barro que Célia Monteiro também vende na loja. “Gosto muito de ver as crianças a espreitar a montra. Pretendo principalmente mostrar um pouco da nossa cultura às pessoas da Póvoa que vieram depois do 25 de Abril”, conta Célia Monteiro que levou três dias a criar a montra que pode ser vista até ao dia 31 de Dezembro.

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