Sociedade | 22-12-2011 09:01

O bombeiro que salvou vidas luta agora para sobreviver à doença

O bombeiro que salvou vidas luta agora para sobreviver à doença
Francisco Graça compara a vida a uma escadaria. Em tempos, quando lhe pediam que subisse 20 degraus, subia 40 e ficava orgulhoso. Hoje pensa o contrário. Para o bombeiro - que combate pela segunda vez na vida um linfoma - o ideal será subir apenas 10. "Isto permite estar mais tempo em cada degrau e aproveitar as coisas simples da vida a que não damos valor quando andamos a correr, como o som dos pássaros e o cheiro da terra molhada".Quem fala assim, aos 42 anos, é um Francisco Graça renovado e apaixonado por duas princesas que apareceram na sua vida há oito anos para lhe mostrar que a felicidade existe. Uma chama-se Carla, é enfermeira e sua companheira. A outra é Joana, 12 anos, enteada, que Francisco Graça trata como se filha. A grande família dos Bombeiros Voluntários de Azambuja surgiu ainda há mais tempo na vida de Francisco Graça que antes era um jovem triste e sem rumo que chegou a tentar o suicídio. Encontrou nos soldados da paz uma nova inspiração. Quando percorria cabisbaixo as ruas de Azambuja depois de chegar de Lisboa, onde trabalhava como assistente administrativo no serviço de radioterapia do Hospital de Santa Maria, entrava no Café Tipóia e encontrava grupos de bombeiros em confraternização. Admirava esses heróis felizes. Ouvia histórias de emergência. De combate a incêndios. De bombeiros que tinham que fugir de um sítio para ajudar a apagar o fogo noutro. Houve um dia em que a conversa revelou os conhecimentos que tinha do curso de socorrismo da Cruz Vermelha Portuguesa que frequentou para saber movimentar-se melhor no serviço onde trabalhava. Deixou o fato e gravata, que sempre fazia questão de usar, não por obrigação mas por prazer, e vestiu a farda dos soldados da paz em 1996. Encontrou amigos, como o actual comandante Pedro Cardoso, e vestiu pela primeira vez calças de ganga. Conseguiu fazer o que sempre acreditou não ser possível, como subir escadas com vítimas às costas e enrolar mangueiras.Aprendeu a ser feliz ajudando os outros. "Recebemos mais em troca do que as pessoas imaginam", garante enquanto vai bebericando água de uma garrafa pequena que tem sempre a seu lado. A radioterapia retirou-lhe capacidade de produzir saliva. Quando em 2004 o linfoma (tumor do sistema linfático) apareceu na sua vida a família e os bombeiros foram o seu pilar. "Não me deixaram cair e quando precisei levaram-me ao colo". O bombeiro que salvava vidas passou a lutar contra a sua própria doença. Os papéis inverteram-se. Decidiu escrever textos sobre a sua experiência no voluntariado para deixar "alguma coisa". A ideia não era fazer um livro mas a obra acabou por nascer: "Voluntariamente feliz". O livro relata os bons e maus momentos da vida de um bombeiro. O parto assistido às quatro da manhã de uma noite de Natal mas também o trauma de muitos acidentes. Como o que aconteceu numa noite fatídica em plena Estrada Nacional 3. A vítima foi projectada e estava em paragem cardiorespiratória. O objectivo era reanimar mas a noite roubava a visibilidade. "Meti as mãos na grelha costal para iniciar compressão toráxica e as minhas mãos ficaram lá dentro. Toda a grelha costal estava desfeita". O trauma supera-se, explica, porque todos os bombeiros aprendem a ser psicólogos deles próprios. "Este é um livro de esperança. Um tributo ao voluntariado, aos profissionais de saúde porque descrevo muitas situações por que passo enquanto doente oncológico e também um tributo a Deus porque é um livro de fé", diz Francisco Graça que acredita que a obra deixará o cidadão comum mais tranquilo em relação ao trabalho dos bombeiros que não se limitam a carregar doentes.Está actualmente de licença sem vencimento do hospital e colabora com os bombeiros. Espera voltar ao trabalho em Janeiro, fazer exames médicos e continuar a luta pela vida depois de dois anos de quimioterapia. Isto porque a doença regressou em 2009 com mais intensidade. Entrevista completa na próxima edição.

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