Sociedade | 31-01-2018 18:39

Poluição no Tejo teve origem na indústria da pasta de papel

Poluição no Tejo teve origem na indústria da pasta de papel
Foto Arlindo Marques

Valores de celulose estão cinco mil vezes superiores aos recomendados. Celtejo é responsável por noventa por cento das descargas feitas naquela região.

O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) revelou esta quarta-feira, 31 de Janeiro, que a carga poluente que afectou o rio Tejo na zona de Abrantes, a 24 de Janeiro, teve origem nas descargas da indústria da pasta de papel.

“O que estamos aqui a referir é que, com base nestas análises efectuadas, e na monitorização e acompanhamento efectuados, se confirma que o acumular da carga orgânica nestas localizações do rio, com origem nas indústrias de pasta de papel localizadas a montante, tem um impacto negativo e significativo na qualidade da água no rio Tejo”, afirmou Nuno Lacasta.

O dirigente da APA, que falava na sede do organismo, no Zambujal, concelho da Amadora, explicou que a elevada concentração de carga orgânica resultou de uma conjugação de factores, mas que na próxima semana será avaliada a medida de redução de descargas, determinada pelo Ministério do Ambiente, da fábrica da Celtejo.

Em conferência de imprensa, Nuno Lacasta salientou que o rio Tejo “não tem cheias desde maio de 2016” e que 2017 se caracterizou por períodos de temperaturas muito elevadas, com registos de precipitação “abaixo da média”, contribuindo para uma redução de caudais.

Perante este cenário, a APA reforçou a monitorização da qualidade da água do Tejo, com particular “enfoque nas albufeiras de Fratel e Belver”, com amostragens de dois em dois dias, desde novembro, e mais recentemente todos os dias.

A monitorização, segundo explicou o responsável, demonstraram a existência de valores elevados no parâmetro de carência química de oxigénio, com elevada carga de matéria orgânica que, em algumas situações, se traduziram em anoxia (ausência de oxigénio).

Perante o foco poluente a 24 de janeiro, junto ao açude de Abrantes, os resultados das análises nos laboratórios da APA e de tecnologia florestal do Instituto Superior de Agronomia revelaram que a água “evidencia valores de concentração elevados de carência química de oxigénio e fósforo total”, revelou Nuno Lacasta.

“No que diz respeito aos valores obtidos para carência bioquímica de oxigénio, azoto amoniacal e parâmetros microbiológico, normalmente associados a descargas residuais urbanas e do sector pecuário, estes valores não revelam concentrações que indiciem impactos significativos com origem nestas actividades”, frisou.

Segundo Nuno Lacasta, as análises efectuadas às espumas e às águas revelaram “valores muito elevados” relativamente a fibras celulósicas, “correspondendo a um aumento de cerca de 30 vezes relativamente aos apurados noutras amostragens”.

“Também os valores de celulose, que avaliam toda a matéria vegetal em presença, se apresentam anormalmente elevados, cerca de 5.000 vezes superiores aos verificados em amostragens anteriores”, acrescentou.

Apesar de se escusar a nomear a empresa que estará na origem do foco de poluição, o presidente da APA reforçou “que as actividades por parte das indústrias de pasta de papel localizadas a montante, nomeadamente do açude de Abrantes, têm um impacto negativo e significativo na qualidade da água no rio Tejo”.

O dirigente do organismo do Ministério do Ambiente notou que, na semana passada, foi determinada à Celtejo uma redução de 50% de efluentes, durante dez dias, como “medida de precaução”, uma vez que a empresa “corresponde a cerca 90% da descarga naquela localização”.

Nuno Lacasta admitiu que parte dos efluentes industriais já passam pela nova Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), mas que o equipamento ainda se encontra “em afinação”.

“Não podemos descarregar efluentes num meio que não tem capacidade para os receber”, vincou o dirigente da APA, apontando a necessidade de avaliar “um conjunto de licenças” de empresas perante a alteração das condições do rio Tejo.

Quanto à redução imposta à Celtejo, Nuno Lacasta adiantou que, a 5 de Fevereiro, “será feita uma avaliação do meio e de um conjunto de informação” a prestar pela empresa, “com vista a eventualmente determinar o prolongamento ou a cessação” da medida de precaução em vigor.

O presidente da APA referiu ainda que a situação está também a ser investigada pela Inspecção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e Ordenamento do Território e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

A PGR revelou no sábado que o Ministério Público instaurou um inquérito a empresas de Vila Velha de Rodão, na sequência de uma participação de crime de poluição apresentada pelo Ministério do Ambiente.

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