Sociedade | 09-06-2018 12:02

“Os deficientes intelectuais são os excluídos dos excluídos”

“Os deficientes intelectuais são os excluídos dos excluídos”
Manuela Ralha colocou Vila Franca de Xira no mapa nacional da luta pela inclusão

A vereadora Manuela Ralha é desde há muito uma activista pelos direitos das pessoas com deficiência.

“Aquilo que é imperfeito em termos de saúde assusta, porque nos torna mais frágeis e mais próximos da morte. Quando as pessoas não estão dentro desses conceitos de normatividade são diferentes e logo são olhadas de lado”. As palavras são de Manuela Ralha, vereadora da Câmara de Vila Franca de Xira com o pelouro da Educação e Cultura e responsável pela Divisão de Desenvolvimento Social (área das Pessoas com Deficiência), entre outros pelouros.
A autarca esteve, nos dias 23 e 24 de Maio, no evento Portugal Economia Social, onde interveio no Fórum de Debate, no painel Acessibilidade Comunicacional e Diversidade Humana com o tema da Diversidade Humana e falou a
O MIRANTE sobre a sua participação no Fórum, Acessibilidade, Inclusão e Diversidade Humana. Ela que tem sido uma activista pelos direitos das pessoas com deficiência.
Manuela Ralha explicou que foi convidada para participar não só por ser uma activista dos direitos das pessoas com deficiência, mas também pelo facto de ser um exemplo de diversidade humana e pelos vários projectos que a Câmara de VFX tem dinamizado em matéria de inclusão (Xiradapta, Passerelle D’Ouro, Sistema de Atendimento e Acompanhamento Social Integrado – SASSI, Universidade Sénior, Dignilândia Terra dos Direitos, Acessibilidade dos espaços públicos e, mais recentemente, o Dia Paralímpico Municipal).
“Normalmente, costumo dizer que o que é diferente assusta-nos. Nós aceitamos que o outro é diferente, mas não tem só a ver com o facto de ele ter uma diversidade funcional ou falar uma língua distinta, tem a ver com ter um aspecto diferente. Vivemos ainda muito debaixo do jugo daquilo que consideramos perfeito nas sociedades ocidentais”, diz a autarca.

“Temos a necessidade de gritar a igualdade dentro da nossa diversidade”
A sua intervenção no Fórum de Debate visou “chamar a atenção para a necessidade da comunicação se tornar cada vez mais inclusiva e de respeitarmos as diferenças comunicacionais dos cidadãos”. Manuela Ralha defende a equidade e que as pessoas devem ser aceites com as suas diferenças, referindo que o caminho para a mudança passa por “começarmos a ver as pessoas pelas suas capacidades”.
Numa entrevista a O MIRANTE, em 2008, Manuela Ralha disse que era impossível andar em Vila Franca de Xira de cadeira de rodas. Hoje considera que o panorama melhorou: “Há muita coisa que já está diferente”. Admite que muitos dos avanços foram fruto da luta das pessoas com deficiência. Enumera o Tribunal, os Correios, o Centro de Saúde como lugares acessíveis, mas admite que o problema de acessibilidade das Finanças ainda não foi resolvido pelo Estado e que o Hospital e o Museu do Neo-Realismo ainda têm algumas dificuldades de acessibilidade, sobretudo em termos comunicacionais.
No evento realizado em Lisboa, o seu discurso foi centrado no direito à cidade e à comunicação para todos. Vê a acessibilidade comunicacional como um problema a ser resolvido com urgência: “Porque uma pessoa que não consegue ouvir ou ver sente-se completamente perdida neste mundo. Eu se não posso ir pelo passeio, posso ir pela estrada. Eles não podem ir por lado nenhum”.
Pela sua ligação à Educação e à Cultura, a acessibilidade nos museus e exposições é uma das suas batalhas. Começou por fazer questão que se incluíssem legendas em Braille e visitas guiadas para cegos na exposição “Outros Olhares sobre a Grande Guerra”, que esteve patente no Celeiro da Patriarcal, e que os cartões-de-visita dos dirigentes e vereadores tivessem a informação também nesse sistema de escrita.
E o trabalho na acessibilidade comunicacional não acaba aqui: “Temos um programa de arte para todos, na qual as pessoas vão ser convidadas a perceber os monumentos, a senti-los, a fazer uma visita inclusiva aos nossos locais patrimoniais. O nosso serviço educativo está já a trabalhar para que todos os programas de arte para crianças sejam sempre construídos tendo em conta o público com deficiência e incapacidade”, diz.

O parente pobre da deficiência

A vereadora considera que, em Portugal, “ainda há muito a visão assistencialista na deficiência intelectual. Ainda achamos que as pessoas precisam de ser protegidas; que têm de viver com os pais a vida inteira; que não podem casar, não podem ter filhos, trabalhar, ir para a faculdade… Se podemos dizer que existe um parente pobre dentro da deficiência, é a deficiência intelectual. Esses são os excluídos dos excluídos. São olhados ainda mais como incapazes”.
A infantilização das pessoas com deficiência intelectual é um problema que preocupa Manuela Ralha, na medida em que impede a evolução e independência destas pessoas. “O princípio da vida independente é as pessoas terem alguém que as ajude a fazer aquilo que elas não conseguem. Algumas pessoas com deficiência intelectual, se tiverem quem as acompanhe naquilo em que têm mais dificuldade, são tão capazes como outra pessoa qualquer”.

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