Sociedade | 21-07-2018 13:22

Ciganos zelam pelo espaço público em Azambuja

Ciganos zelam pelo espaço público em Azambuja

Município aposta na integração dessa comunidade e já avançou também com candidatura ao Projecto de Mediadores Municipais Interculturais.

Faz em Novembro um ano que Vítor Salinas, 62 anos, celebrou um contrato inserção com a Câmara Municipal de Azambuja. Foi com este antigo feirante de etnia cigana que o bairro do Plano Especial de Realojamento (PER), situado na Quinta da Mina, em Azambuja, ganhou cara lavada. O lixo que outrora se acumulava pelos passeios e asfalto deixou de ser problema e agora há flores em canteiros improvisados pelo próprio.
“A limpeza do bairro é diária e para mim não há horário de trabalho. Ainda hoje me levantei às seis da manhã e iniciei os trabalhos. Se for domingo e vir um papel no chão também o apanho”, conta. “Os canteiros foram ideia minha porque adoro flores. Também plantei tomates e pimentos, por brincadeira, com o meu neto”, continua.
Vítor Salinas aufere 528 euros e paga 18 euros de renda, por um T1 onde vive com a esposa e mais recentemente com um filho, a nora e os netos. Já residiu no sexto bloco - ocupado pela comunidade cigana - mas foi mudado de prédio depois de fazer esse pedido à autarquia. “Não me sentia bem ali. Eu e a minha esposa somos respeitados por todas as pessoas e não somos alvo de preconceito. Somos ciganos, mas connosco é diferente”, explica Vítor.
O bairro do PER em Azambuja é hoje mais seguro, garante a vereadora da Câmara de Azambuja Sílvia Vitor, que antes só lá entrava com escolta policial. Desta vez, mais confiante do que vai encontrar, entra no bairro apenas acompanhada pela nossa reportagem. À entrada de um dos blocos está Cátia Pinto, de vassoura na mão. A jovem cigana de 23 anos, residente em Azambuja há oito, é responsável pela limpeza das zonas comuns de todos os blocos do bairro e das casas que se encontram desabitadas.
“Normalmente ninguém dá trabalho a ciganos”
Cátia celebrou há dois meses com a Câmara Municipal de Azambuja o seu primeiro contrato de trabalho. Antes recebia o Rendimento Social de Inserção. “Estou muito contente com a oportunidade que me deram. Normalmente ninguém dá trabalho a ciganos. Esforço-me por deixar tudo limpo, só espero que me renovem o contrato”, diz Cátia Pinto.
Mora no sexto bloco, o mais problemático e degradado do bairro, que mais parece saído de um cenário de guerra. Falta-lhe a porta de entrada, a luz nas escadas, janelas em algumas habitações e a pintura inicial deu lugar a grafitis e a outros sinais de destruição. Paga cinco euros de renda e garante que tem as contas em dia. Não tem filhos e mora sozinha há cinco anos, desde que o seu marido, também de etnia cigana, foi preso.
“Roubava, é mesmo assim, até ser apanhado. Agora já pode voltar a casa com pulseira electrónica, mas não o deixam sair porque não temos condições em casa”, explica Cátia revoltada com toda a destruição que a rodeia. Todos os sinais de vandalismo e destruição foram deixados por antigos moradores da família do seu marido, a única que vive naquele bloco.
Cátia diz que não se sente vítima de preconceito no bairro, mas sabe que é excepção à regra. “Comigo é diferente. As outras pessoas falam comigo, mas não gostam de falar com as outras ciganas, nem de ter as crianças por perto”. É quando desce à vila que sente o desdém da sociedade. “Se entramos nalguma loja ou café começam logo a olhar e expulsam-nos mal vêem uma criança das nossas a mexer nalguma coisa”, conta a jovem.

Câmara quer mediadores para ajudar à integração da comunidade cigana

Mediar e integrar as comunidades ciganas do concelho é o objectivo da candidatura que a Câmara de Azambuja fez ao Projecto de Mediadores Municipais Interculturais, lançado pelo PO ISE - Programa Operacional Inclusão Social e Emprego.
Segundo a autarquia, o projecto visa a contratação de dois mediadores interculturais de etnia cigana. A “aproximação das partes, comunicação, compreensão mútua, aprendizagem, desenvolvimento da convivência e regulação de conflitos” são alguns dos objectivos traçados para o projecto, explica a O MIRANTE, Sílvia Vítor, vereadora da autarquia. Melhorar a frequência escolar dos jovens da comunidade cigana, ministrar cuidados de saúde e higiene pessoal, habitação e espaços públicos são outras das metas.

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