Sociedade | 01-11-2018 08:53

Tradição de pedir bolinhos em dia de Todos os Santos está a desaparecer

Tradição de pedir bolinhos em dia de Todos os Santos está a desaparecer
Em 2014 O MIRANTE acompanhou um grupo de crianças da aldeia de Casal dos Bernardos (Ourém) a pedir o bolinho de porta em porta

Já poucas crianças andam de porta em porta no dia de pedir Pão por Deus

O pedir “Bolinhos em louvor de todos os santinhos” ou de “Pão por Deus”, que grupos de crianças iam fazendo, de porta em porta, na manhã do dia de Todos os Santos (1 de Novembro), ouve-se cada vez menos. E quando alguma porta se abre, ao invés das tradicionais broas de azeite e erva doce, maçãs, romãs e frutos secos, quem acede ao pedido dá rebuçados, gomas, chupa-chupas, chocolates e em alguns casos dinheiro.
Se aquela tradição está a desaparecer, a tradição de comer broas nesta altura não está e as pastelarias continuam a fabricá-las. O objectivo, dizem os proprietários dos estabelecimentos, é não deixar cair a tradição e aproveitar também para experimentar novas ideias.
É o caso da pastelaria Doce Saudade, em Torres Novas, que este ano decidiu colocar à venda não só os habituais bolinhos do Dia de Todos os Santos e as broas podres e de mel e noz, mas também cupcakes e bolachinhas alusivos ao...Dia das Bruxas, que se celebra a 31 de Outubro e que é uma tradição do mundo anglófilo implementada em Portugal nos últimos anos. Nesse dia em vez de bolinhos para os santos as crianças desses países vestem-se com fantasias alusivas e vão de casa em casa recitando a fórmula “doce ou travessura”
Para já são as broas que se vendem mais na Doce Saudade. “Nós aqui, como não festejamos tanto o Dia das Bruxas, é natural que os cupcakes e as bolachinhas não tenham tanta saída, mas não deixamos de as fazer”, confessa a proprietária, Sónia Prates, adiantando que vai continuar a confeccionar os bolinhos e as broas até ao Natal.
Já com algumas encomendas de bolos especiais alusivos ao Dia de Todos os Santos e ao Dia das Bruxas, Sónia Prates conta que ainda se lembra bem quando, em criança, em Casével, concelho de Santarém, andava de porta em porta a pedir os tradicionais bolinhos desta época. “Foi uma altura muito feliz que tenho pena que esteja em desuso”, admite a empresária de 33 anos que confecciona todos os seus doces com base em receitas tradicionais, sejam elas portuguesas ou americanas.
Quem também se guia pelas receitas antigas que já a acompanham há gerações é Carla Serra, proprietária, em conjunto com o marido, das quatro pastelarias Santa Clara na cidade de Santarém. Este ano, além das broas, decidiram apostar também em bolos para assinalar o Dia das Bruxas. “Sabemos que a tradição do Dia das Bruxas é mais americana que portuguesa mas não quisemos deixar o dia de lado”, explica.
O fabrico de broas vai manter-se até ao Natal. “Nós, todos os anos, fazemos questão de fazer broas de café, castelar e podres apesar de notarmos que este tipo de bolinho tem tido menos saída”, confessa, lembrando que antigamente a tradição das crianças de pedir bolinhos do Dia de Todos os Santos era muito mais engraçada e genuína do que actualmente.

Uma tradição que começou com o terramoto de 1 de Novembro de 1755

A tradição de pedir o “Pão por Deus” terá começado em Lisboa, em 1756, um ano depois do terramoto que destruiu a cidade, que provocou milhares de mortos. A maioria da população, que já era pobre, ficou ainda mais pobre e como o terramoto aconteceu no Dia de Todos os Santos essa data era aproveitada para desencadear, por toda a cidade, um peditório. As pessoas percorriam a cidade, batiam às portas e pediam que lhes fosse dada qualquer esmola, mesmo que fosse pão. Foi já nas décadas de 60 e 70 do século XX, que a data passou a ser comemorada, de forma mais lúdica do que pelas razões que criaram a tradição, passando a ser conhecida em muitas regiões como o “Dia do Bolinho”. A partir dos anos 80 a tradição começou gradualmente a desaparecer e actualmente, raras são as terras onde ela se mantém.

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