Sociedade | 05-12-2018 15:00

“Lembro-me de ser pequeno e ir espreitar as touradas pelas frinchas das portas”

“Lembro-me de ser pequeno e ir espreitar as touradas pelas frinchas das portas”
TRÊS DIMENSÕES

Armando Jorge Carvalho, 67 anos, Provedor da Misericórdia de Vila Franca de Xira

Armando Carvalho, o novo provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca de Xira tem uma vida ligada à venda de vinho, tendo passado por casas vinícolas como a Carvalho, Ribeiro e Ferreira e a Sogrape. Cresceu nas ruas da cidade ribatejana a brincar aos toiros. Diz que cada um deve preocupar-se em devolver à sociedade um pouco do que recebeu ao longo da vida. Lamenta não ter influenciado mais jovens a aderir ao associativismo. Gosta de pensar que o maior bem que deixa aos seus é a integridade.

A culpa dos jovens de hoje não ligarem às causas do associativismo foi da nossa geração. Somos culpados porque não levámos os jovens para esses caminhos e eles hoje têm outras coisas com que se entreter. Nós brincávamos ao toiro na rua e jogávamos à bola. Eles têm Playstation e passam muito tempo dentro de casa. A diferença está aí.

Algumas vezes quando era miúdo ainda mergulhei no Tejo. Mas eu não era tão afoito como os meus colegas. Se calhar, por causa disso nunca apanhei muitos sustos. Seja como for cresci de forma natural na barroca.

Quando era pequeno queria ser vendedor. Achava que era uma vida que me dava outra visão das coisas. Acabei por ingressar nessa vida sem saber bem como. Trabalhei sempre na área do vinho. Comecei aos 14 anos na Carvalho, Ribeiro e Ferreira (CRF) na Vala do Carregado. Ainda passei por outras casas e por fim acabei na Sogrape de onde saí já reformado. A minha passagem pela tropa, em cumprimento do serviço militar obrigatório, também me ajudou muito a crescer.

A sede do Ateneu resultou de uma ocupação feita em 1975, na qual participei. Eu e mais uma rapaziada entendemos que devíamos ocupar aquilo. Toda a gente tinha à volta dos 20 anos. Ainda passámos lá umas noites até que se legalizou aquilo tudo.

A minha relação com a Santa Casa da Misericórdia começou em 1982. Fiz-me sócio e mais tarde convidaram-me para integrar a Mesa Administrativa. Entretanto aceitei o desafio de poder ser Provedor. A minha bandeira é a recuperação do antigo hospital e a sua transformação numa unidade de cuidados continuados.

Tudo me tira o sono porque sou uma pessoa que se preocupa. A Santa Casa tem 110 empregados e quase 200 utentes, entre residentes e apoio domiciliário. Sou uma pessoa que se preocupa com os que me rodeiam. Claro que é mais fácil estar em qualquer lado a beber um café sem nos preocuparmos com os nossos semelhantes, mas temos de dar um pouco de nós. Devolver à sociedade um pouco do que ela já nos deu.

Não gosto da ingratidão nem da mentira. As pessoas falam do que não sabem e não tentam saber a verdade. Algumas pessoas têm falta de memória. Há pessoas que nunca fizeram nada nem pelo seu semelhante nem pela comunidade e mesmo assim criticam sem saber.

Sou um homem dos toiros. Estive sempre ligado aos momentos taurinos importantes que foram acontecendo na minha terra, desde o monumento ao campino à criação do clube taurino, de que sou sócio fundador. Se tivesse mais dinheiro iria mais vezes a Espanha ver touradas. Sou um aficionado do toureio a pé.
Lembro-me de ser pequeno e ir espreitar as touradas pelas frinchas das portas por não ter dinheiro para entrar. Hoje posso ver as corridas nos lugares de honra da Palha Blanco. É curiosa a vida. Aquela praça é um prestígio grande para a Misericórdia.

Trabalho para a minha família e quero deixar-lhes o legado que os meus pais deixaram que é a integridade. O meu pai costumava dizer que se não me deixasse mais nada pelo menos deixava as ruas livres para eu passear.

Gosto muito de comer e beber mas na medida certa. Gosto de ajudar a minha esposa em casa naquilo que for necessário mas também sei cozinhar. Faço umas caldeiradas para os amigos (riso). Quando trabalhava e estava mais pressionado descontraía aos fins-de-semana a cozinhar. Enquanto ia pensando no que estava a fazer desviava a atenção do trabalho.

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