Sociedade | 09-02-2019 12:30

A importância das zonas húmidas a que o cidadão comum não dá muita importância

A importância das zonas húmidas a que o cidadão comum não dá muita importância

Preservar o estuário do Tejo e o Paul do Boquilobo na bacia hidrográfica do Almonda.

Combater o desconhecimento da comunidade face à importância do papel das zonas húmidas do estuário do Tejo é a grande luta dos técnicos do EVOA - Espaço de Visitação e Observação de Aves, em Vila Franca de Xira. Subindo o Tejo encontramos, entre os concelhos da Golegã e Torres Novas, a Reserva do Paul do Boquilobo, onde o combate é igual. A 2 de Fevereiro assinala-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas, este ano dedicado às alterações climáticas, pretexto para O MIRANTE lhe dar a conhecer duas das mais importantes da região.

No Paul do Boquilobo ainda há fontes poluidoras que têm de ser erradicadas

Novas espécies na Zona Húmida nos concelhos de Golegã e Torres Novas

Apesar de ainda haver registo de episódios de poluição, com algumas fontes fortemente poluidoras, as recentes melhorias no saneamento na bacia hidrográfica da Almonda têm contribuído para a qualidade da água no Paul do Boquilobo.

Fernando Pereira é o interlocutor da reserva desde 1984, com um interregno de uma década dedicada à Serra de Aire. António Figueiredo é vigilante da natureza e tanto pode estar na Reserva do Boquilobo como em Coruche a vigiar o montado de sobreiro ou na Serra de Aire em vigilância dos incêndios durante o Verão. São eles que conduzem O MIRANTE numa visita guiada ao espaço da Reserva Natural do Paul do Boquilobo, pelos seis quilómetros de trilhos onde, nesta altura do ano, ainda não se avistam tantas aves como seria de esperar, devido à fraca pluviosidade, explicam.
A visita dá-se a propósito do Dia Mundial das Zonas Húmidas, que este ano tem como tema as alterações climáticas. E, como nos explica Mário Antunes, Presidente da Ongatejo e presidente do Órgão de Gestão da Reserva da Biosfera do Paul do Boquilobo, as alterações climáticas provocam mudanças no regime de pluviosidade e contribuem para alterar o regime hídrico na Reserva, quer em situações de seca quer em situações de alagamento dos terrenos, com a subida súbita das águas que, em altura de nidificação de espécies, é prejudicial para a fauna e compromete o normal funcionamento das actividades agrícolas.
As alterações climáticas têm também contribuído para o aparecimento de novas espécies, a maior parte delas nidificantes, isto é, que aqui constroem o ninho e se reproduzem. Mário Antunes refere que se nota também um aumento significativo de determinadas espécies como a cegonha branca que dantes só era visível no período de reprodução e agora se pode observar praticamente durante todo o ano. Mas também há várias espécies que têm desaparecido da reserva, em particular alguns anfíbios e peixes. Na origem desse desaparecimento está o aparecimento de espécies exóticas “fortemente agressivas” como o lagostim da Luisiana.
Estando a reserva integrada num troço do rio Almonda, a poluição das águas é um tema sensível. Segundo o presidente da Ongatejo “é um factor que compromete seriamente o ecossistema contribuindo significativamente para a diminuição da sua biodiversidade”. Mário Antunes refere no entanto que, embora ainda se notem alguns episódios de poluição e ainda haja fontes fortemente poluidoras, as recentes melhorias no saneamento na bacia hidrográfica da Almonda têm contribuído para a melhoria da qualidade da água.

Agricultura, pastoreio e turismo de natureza
“É importante criar uma consciência ambiental que envolva todos os actores intervenientes no território. Quer através da sensibilização quer com acções de fiscalização”, defende Mário Antunes que explica que o facto da poluição ter vindo a diminuir afasta o risco da reserva ver ser retirada a classificação da Unesco.
Com o alargamento da área de intervenção, em 2014, o novo modelo de gestão tem como principal objectivo aliar o esforço de conservação da biodiversidade à investigação e conhecimento e a actividades conexas, como a agricultura, o pastoreio, mas também o turismo de natureza, onde se inserem acções como passeios, observação de aves e anilhagem. “O importante é trazer valor acrescentado ao território”, sublinha.
Restaurar, conservar, fazer um uso sustentável, não degradar, não drenar e não construir por cima são as regras de ouro para manter as zonas húmidas, ecossistemas que absorvem e armazenam carbono, reduzem inundações, atenuam secas e onde a biodiversidade reina.
A meio da visita, numa breve passagem por um dos postos de vigia remodelados, Fernando Pereira e António Figueiredo avistam um par de açores e não escondem o contentamento. “São aves que habitualmente não se vêem por aqui”, explica Fernando Pereira.

Primeira Reserva Mundial da Biosfera em Portugal

Criada em 1981, a Reserva Natural do Paul do Boquilobo (RNPB) foi a primeira área protegida portuguesa a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO. É reconhecida a importância da Reserva como zona húmida natural e como local de abrigo para um grande número de aves, como local de reprodução, alimentação e repouso nas rotas de migração. Alberga uma das mais importantes colónias de garças da Península Ibérica e é também lar para cerca de 200 espécies de aves, além de outra fauna como cágados, rãs, lontras, texugos e raposas. A RNPB acompanha um troço do rio Almonda constituindo uma zona húmida com características de paul, que inunda sazonalmente pelo transbordo dos rios Almonda e Tejo.

Câmaras da Golegã e Torres Novas envolvidas na gestão

A Reserva do Paul do Boquilobo integra as freguesias de Pombalinho, Azinhaga e Golegã, do concelho da Golegã e Riachos e União de Freguesias de Brogueira, Parceiros de Igreja e Alcorochel, pertencentes ao concelho de Torres Novas, numa área total de cerca de 5896 hectares. Desde 2014 passou a ter um modelo de gestão presidido pela Ongatejo, que inclui representantes do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) e das câmaras municipais da Golegã e de Torres Novas. O novo modelo de gestão envolve as populações e os actores locais, ligados ao sector ambiental, social, educativo, cultural, económico e outros. Manter a classificação de Reserva da Biosfera atribuída pela UNESCO obriga a uma maior responsabilidade de actuação no território para garantir níveis de excelência e de qualidade. A Câmara da Golegã financiou recentemente a requalificação dos passadiços e dos postos de observação. E, em breve, será a Câmara de Torres Novas a financiar o melhoramento dos trilhos e a sinalização.

Estuário do Tejo está em risco e pode desaparecer daqui a cinquenta anos

Maior zona húmida do país está situada na região de Vila Franca de Xira

O Estuário do Tejo, a maior zona húmida existente em Portugal, está em risco e precisa de ajuda. A culpa é das alterações climáticas e da falta de conhecimento da comunidade sobre a real importância deste património natural único. Se nada for feito dentro de 50 anos poderá estar destruído.

Se o impacto das alterações climáticas não for travado ou minimizado, dentro de 50 anos o Estuário do Tejo, a maior zona húmida do País e uma das dez maiores da Europa, poderá estar destruído. O alerta é deixado por Sandra Silva, bióloga e coordenadora do Espaço de Visitação e Observação de Aves (EVOA) de Vila Franca de Xira, situado no coração do estuário.
As zonas húmidas têm um papel fundamental na qualidade de vida das pessoas e actuam na natureza como os rins num ser humano. Fazem a filtragem e depuração das águas, absorvendo inclusive metais pesados e outros poluentes fruto de descargas ilegais.
“Esta zona está em risco e os dados indicam que estamos num período muito crítico. Se não forem tomadas medidas sérias para mitigar as alterações climáticas, a subida média da temperatura e dos níveis de água, levará a que esta zona onde estamos tendencialmente ficará submersa. E isso afectará bastante toda a região, incluindo a grande Lisboa. A estimativa é que isso poderá acontecer em 50 anos se nada for feito”, alerta Sandra Silva a O MIRANTE.
“As barragens que se encontram a montante do Tejo, ao reduzir os sedimentos, reduzem o processo natural de desenvolvimento do estuário e isso diminui o crescimento deste sapal que devia ser de um crescimento progressivo. Uma região como a nossa está mais protegida dos efeitos das cheias por exemplo, porque o sapal do estuário é uma esponja que absorve bastante água e reduz a velocidade da corrente”, explica.
O Estuário do Tejo ocupa uma área protegida e classificada de 70 hectares e tem um equilíbrio delicado mas fundamental, sendo refúgio de 90 espécies de aves, que representam 40 por cento das espécies existentes. Mas há outros animais neste vasto território natural, como lontras, raposas, javalis, cobras, lagartos, rãs e outros anfíbios. Incluindo borboletas nocturnas. “Temos uma monitorização com mais de um ano de todos os insectos existentes e a lista já vai em mais de 300 insectos diferentes”, explica.
Combater o desconhecimento da comunidade face à importância do estuário é a grande luta dos técnicos do EVOA. “As zonas húmidas são o eco-sistema mais valioso do planeta apesar de terem uma área pequena relativamente às florestas tropicais. O seu papel é muito valioso mas não existe ainda esse conhecimento. É uma questão cultural e histórica. Estas zonas são vistas pelas pessoas como espaços desagradáveis, com cheiro estranho e com muitos insectos, que tendencialmente deveriam ser eliminadas e substituídas por zonas mais aprazíveis. Esse é um erro”, lamenta. Visitar o estuário, explica Sandra, é também uma boa medida que se pode tomar, permitindo conhecer de perto tudo o que se pode proteger para o futuro.

Sete anos a promover o contacto com o estuário

O EVOA foi inaugurado em 2012 e o seu papel é gerir toda a zona do estuário, visando receber aves migratórias vindas de toda a Europa. A promoção da educação ambiental é outro dos seus grandes objectivos, acolhendo a visita de escolas de todo o país, além do público em geral e dos apreciadores de bird-watching. O café deixou de ser servido em copos de plástico e toda a energia usada é proveniente de painéis solares. O número de visitantes tem vindo a crescer e em 2018 bateu todos os recordes, tendo o espaço sido visitado por 7.777 pessoas. A melhor altura para avistar aves, em variedade e quantidade, é entre Novembro e Fevereiro.

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