Crónicas do Brasil | 06-05-2022 22:13

Democracia na gangorra

Vinicius Todeschini

As eleições deste ano serão fundamentais para o futuro do país, mas existe uma preocupação que se acentua cada vez mais, na medida em que o governante atual já antecipou que não se conformará com uma derrota, o que parece iminente( : ) Em 21 anos de ditadura houve muita corrupção, mas no Brasil, tradicionalmente, os militares são uma sociedade à parte, com leis e tribunais próprios e nunca precisaram prestar conta à sociedade civil brasileira.

  Os democratas brasileiros acreditaram que o processo de redemocratização do país nunca mais sofreria retrocessos. Não imaginaram ou preferiram alienar qualquer possibilidade de involução, porque os militares, que permaneceram no poder durante 21 anos no Brasil, não obtiveram o sucesso esperado em seu projeto de manter o país sob o seu rebenque. Na verdade, os militares saíram a contragosto, grande parte deles pelo menos, haja vista, aquela tentativa de um golpe dentro do golpe pelo general Sílvio Frota, que foi, devidamente, reprimida por outro general, o que promovia o processo de abertura política no país, Ernesto Geisel, presidente e penúltimo ditador do regime, antes de João Batista Figueiredo, o derradeiro.

                Quando o neto de Tancredo Neves perdeu para a presidenta Dilma o pleito de 2014, não se conformou com a derrota e recomeçaram as velhas ruminações golpistas para depor a presidenta. O ministro do STF, Gilmar Mendes, gravou entrevista onde assinalava um projeto financiado pela corrupção do governo, liderado pelo PT, para se manter indefinidamente no poder, embora nunca tenha apresentado provas disso. Aécio Neves, ex-governador de Minas, perdeu a eleição, mas deflagrou um processo político que culminou com o impeachment da presidenta e a ascensão da extrema-direita no Brasil.

                O fenômeno da gangorra na política brasileira não é recente. Já aconteceram vários retrocessos e golpes por grupos antagônicos. Getúlio Vargas não foi um ditador ao gosto da direita e da extrema-direita brasileira, tanto que os camisas verdes de Plínio Salgado tentaram invadir o Palácio do Catete para depô-lo, mas foram impedidos -por muito pouco- pelo general Eurico Dutra, sucessor de Getúlio e que despontou como herói nesse episódio. O Brasil e a sua democracia sempre andaram para cima e para baixo, portanto, é de se pensar: por que os políticos democratas excluíram com tanta ênfase a possibilidade da gangorra descer novamente e a tragédia do retrocesso à direita voltar novamente?

O Brasil e a sua democracia estão na gangorra e não se sabe para que lado ela penderá, se vai parar em cima ou em baixo. O certo é que estamos em mais uma grave crise política, crise criada pelos próprios democratas brasileiros que deixaram brechas suficientes para a extrema-direita se infiltrar na sociedade como nunca dantes.

                As eleições deste ano serão fundamentais para o futuro do país, mas existe uma preocupação que se acentua cada vez mais, na medida em que o governante atual já antecipou que não se conformará com uma derrota, o que parece iminente. O governo montado por Bolsonaro está lotado de militares exercendo cargos, muito dos quais não têm nenhum preparo para exercê-los, tudo baseado no velho discurso moralista de que as Forças Armadas seriam a guardiã da honra e dos bons costumes. Em 21 anos de ditadura houve muita corrupção, mas no Brasil, tradicionalmente, os militares são uma sociedade à parte, com leis e tribunais próprios e nunca precisaram prestar conta à sociedade civil brasileira.

                A gangorra sobe e desce e leva o país por caminhos estranhos, criando tempos estranhos, onde o real se torna facilmente surreal e psicopatas assumem feições de salvadores da pátria, com discursos fundamentalistas e acordos com segmentos religiosos que os comparam aos santos e ao próprio Jesus. Por outro lado, os representantes da democracia são parcimoniosos no enfrentamento a isso, principalmente, pelo temor de fornecerem novos elementos para alimentar o espírito golpista que está sequioso para deflagrar mais um golpe. O medo se espalha, porque as ameaças são constantes e sucessivas, também com o objetivo de retirar, mesmo que temporariamente, qualquer avaliação sobre o péssimo governo, que está criando a maior inflação dos últimos tempos, com uma escalada de preços em um nível nunca visto depois que a inflação foi controlada, ainda nos tempos do governo Itamar Franco, que assumiu no lugar de Fernando Collor de Mello, outro presidente deposto na história recente do Brasil.

                A sorte está lançada e se Deus não joga dados com o Universo, como disse Einstein, só o futuro dirá o desfecho dessa dramática história que, por agora, se enseja no país do carnaval. O Brasil e a sua democracia estão na gangorra e não se sabe para que lado ela penderá, se vai parar em cima ou em baixo. O certo é que estamos em mais uma grave crise política, crise criada pelos próprios democratas brasileiros que deixaram brechas suficientes para a extrema-direita se infiltrar na sociedade como nunca dantes, porque agora tem a seu favor uma crise de valores e o crescimento do fundamentalismo religioso, que ameaça tornar o país uma espécie de Talibã/Cristão/Tropical, se me permitem o amálgama.

Vinicius Todeschini 06-05-2022

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