Crónicas do Brasil | 04-10-2022 06:59

Sinal de Alerta

Vinicius Todeschini

As pesquisas têm errado muito no Brasil nas últimas eleições, seja na ordem das colocações ou nos percentuais dos candidatos e não foi diferente nesta vez. Na realidade, não se sabe o que está sendo feito para corrigir essas distorções, porque as pesquisas acabam influenciando os eleitores em seus direcionamentos para o voto, alterando votos e movimentos e não se sabe quais são as consequências reais desse fato, comprovando a tese que o cientista e o observador não só influenciam a experiência como fazem parte dela, como observou Heisenberg em seu “Princípio da Incerteza”.

                Os resultados do primeiro turno acenderam o sinal de alerta na equipe do ex-presidente Lula, principalmente pelas vantagens conseguidas por Bolsonaro em São Paulo e no Rio de Janeiro. Descobrir -só agora- que o Brasil é conservador é um erro duplo, porque o país vem se transformando para pior há alguns anos e, parte disso, é culpa dos dirigentes da esquerda, que nunca enxergaram com clareza o significado do vertiginoso crescimento dos setores mais reacionários. Os evangélicos não pararam de se multiplicar pelo país e esse fenômeno já acontece há mais de trinta anos, portanto, os resultados das urnas, que elegeram o atual presidente em 2018, não podem ser explicados somente pelo antipetismo. Existe sim um movimento organizado pelas igrejas evangélicas para manter o povo colado em uma pauta de costumes conservadora e, portanto, hipócrita, onde se assume de forma tácita duas caras para manter a sociedade coesa, pois assim se pode defender valores que não se pratica, mas suficientes para manter uma imagem respeitável, sem abrir mão de nenhuma prática obscura, desde que a sua imagem não seja arranhada pelos fatos, ou seja; nada de novo sob o sol, só a esquerda continua sem saber o que fazer diante disso.

                No Rio Grande do Sul, apesar do candidato Edegar Pretto ter quase chegado ao segundo turno, perdeu para o ex-governador Eduardo Leite, por uma diferença mínima, as pesquisas novamente erraram grosseiramente, porque no dia 30 de setembro, dois dias antes das eleições, colocavam Eduardo Leite bem na frente do segundo colocado, alguns davam 44%, outros 40% e 36%  para ele, mas na prática ele ficou disputando voto a voto com candidato do PT para tentar chegar ao segundo turno com o candidato bolsonarista. Na prática Eduardo ficou com 26,81%, contra 26,77% de Edegar do PT, enquanto Onyx Lorenzoni do PL alcançou 37,5%. As pesquisas têm errado muito no Brasil nas últimas eleições, seja na ordem das colocações ou nos percentuais dos candidatos e não foi diferente nesta vez, errando novamente nesses dois quesitos de forma acentuada. Na realidade, não se sabe o que está sendo feito para corrigir essas distorções, porque as pesquisas acabam influenciando os eleitores em seus direcionamentos para o voto, alterando votos e movimentos e não se sabe quais são as consequências reais desse fato, comprovando a tese que o cientista e o observador não só influenciam a experiência como fazem parte dela, como observou Heisenberg em seu “Princípio da Incerteza”.

                Eu previa uma disputa acirrada no segundo turno aqui no Brasil, escrevi neste espaço sobre isso, mas as pesquisas apontavam, até o último momento, uma chance real de vitória do ex-presidente Lula no primeiro turno. Evidentemente que existem várias formas de observar os movimentos de uma eleição e os pesquisadores parecem não os utilizar como mensuradores, no entanto, o desgaste dos institutos de pesquisa apontam, necessariamente, para mudanças em seus critérios e metodologias, caso contrário será muito difícil manter a sua credibilidade junto à opinião pública, porque, evidentemente, a tropa bolsonarista cairá com tudo em cima dos pesquisadores, como já avisou o presidente do PL, partido de Bolsonaro.

                Com o sinal de alerta ligado, à esquerda agora precisa se recompor para tentar equilibrar na Região Sudeste, onde estão os principais colégios eleitorais do país, porque ali, Lula, ganhou apenas em Minas Gerais e por um percentual menor do que previam as pesquisas No Rio de Janeiro, a derrota retumbante de Marcelo Freixo, mostrou a força da Milícia e corroborou o fato, em forma e conteúdo, que o Rio de Janeiro é o primeiro estado miliciano do país. O cenário pós-primeiro turno não deixa dúvida que o bolsonarismo veio para ficar e superá-lo não será tarefa fácil, nem rápida e quem pensava o contrário precisa, assim como os institutos de pesquisa, rever seus critérios para entender o que está acontecendo, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, onde novos líderes, defensores de regimes de força, começam a surgir com novos métodos e práticas muito mais modernas e agressivas, influenciando  não só os mais velhos, mas também os jovens que, muitas vezes, confusos com as duplas mensagens oferecidas pela esquerda tradicional, são facilmente cooptados pelo conservadorismo e pelo fundamentalismo religioso. Países onde a educação pública de qualidade vem sendo sucateada há muito tempo, as escolas privadas criaram novas elites, afinadas com neoliberalismo e capazes de entronizar ainda mais as franjas sociais privilegiadas em lugares onde a desigualdade é uma marca indelével há séculos.

Vinicius Todeschini 03-10-2022

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