Cultura | 15-02-2020 07:00

Carlos Saramago é um pintor de Mação que sofre de uma doença rara nas mãos e lutou contra dois cancros

Carlos Saramago é um pintor de Mação que sofre de uma doença rara nas mãos e lutou contra dois cancros

Carlos Saramago está permanentemente insatisfeito com o seu trabalho e faz da procura constante da perfeição a luta para encontrar tudo aquilo que um artista deseja, que é a obra perfeita que o redima de uma vida dedicada à arte.

Carlos Saramago é um pintor de Mação, com reconhecimento nacional e internacional, que nasceu com uma doença rara que lhe tolhe as mãos. Aventurou-se aos 17 anos no estrangeiro onde ganhou bom dinheiro a desenhar e a pintar. Regressou três anos depois e aproveitava os meses de Verão para fazer retratos aos turistas nas praias portuguesas e espanholas. Dois cancros de pele nas mãos limitaram-lhe ainda mais o trabalho mas continua a pintar e a expor as suas obras, num confronto com a arte e a vida que considera uma derrota permanente mas com a qual ainda ganha mais alento para lutar de forma a alcançar a obra perfeita.

O artista nasceu com uma doença rara (epidermólise bolhosa distrófica crónica) que impede o normal movimento das mãos. A doença provoca-lhe bolhas na pele que a tornam demasiado sensível a ponto de haver alturas em que fica em carne viva. Devido à doença os dedos uniram-se e as mãos ficaram em forma de concha. O uso de ligaduras é a solução para ultrapassar todas as dificuldades. Carlos Saramago recebeu O MIRANTE no seu espaço de trabalho, que fica no último andar da sua casa, e enquanto conversava pegou no pincel e começou a pintar uma tela para que a nossa conversa ficasse da cor da paisagem que se via pela janela.

A paixão pela pintura surgiu em criança quando tinha que ficar muitas vezes internado no hospital por causa da doença. A mãe levava-lhe livros de banda desenhada de super-heróis e Carlos desenhava numa folha de papel. Não gostava da escola porque os outros meninos o afastavam das brincadeiras devido ao seu problema de saúde. Só gostava de pintar.

Nascido no seio de uma família muito humilde, com mais quatro irmãos, o pai ficou numa cadeira de rodas com 40 anos depois de ter sofrido um AVC (Acidente Vascular Cerebral), o que dificultou ainda mais a situação financeira da família. Além de se sentir deslocado em Mação, por não entenderem aquilo que desenhava, a falta de dinheiro também o levou a emigrar. “Se pintava um quadro com uma mulher nua era um choque para quem via. Comecei a sentir que este não era o meu lugar. Precisava de conhecer mundo e também de ganhar dinheiro”, conta a O MIRANTE o pintor que foi o convidado da iniciativa “À conversa com...”, que decorreu no auditório do Centro Cultural Etelvino Pereira, em Mação, no final de Janeiro.

Aos 17 anos foi ao encontro de uma das irmãs e do cunhado que vivem na Suíça. Esteve em Lausanne cerca de dois anos e meio, onde pintava na rua. Nos anos 90 ganhava 350 euros por dia a pintar na rua. “Às vezes começava o esboço de um desenho. Fazia quatro ou cinco rabiscos e logo me tocavam no ombro e diziam: ‘Não mexa mais, está bom assim. Fico com ele’. Pensava ‘ainda agora comecei’ mas as pessoas pagavam e eu vendia como elas queriam”, recorda.

Quando vivia na Suíça teve conhecimento que poderia fazer uma operação plástica às mãos. Viajou para Laiane, perto de Milão, no norte de Itália. A cirurgia correu mal e Carlos esteve durante algum tempo em coma e não conseguiu melhorar o problema. Ao fim de seis meses regressou à Suíça e nunca mais pensou em operações. Aceitou a sua condição e não fez disso um problema. Continuou a pintar e aprendeu a fazer retratos.

Após uma aventura de cerca de três anos no estrangeiro veio a Portugal. Era para ser só em férias mas conheceu a sua actual companheira e ficou por cá. Foi um feliz acaso. Há dias de sorte, embora quanto às questões amorosas Carlos Saramago assuma que nunca teve dificuldades em arranjar namoradas apesar de afirmar que não é um homem bonito.

Regressou a Portugal e ganhou a vida a pintar retratos nas praias

Questionado sobre o quadro mais caro que vendeu diz que foi à volta de sete mil euros. Mas confessa que a vida não é fácil para um artista. Saramago tem noção que se tivesse ficado na Suíça hoje seria mais reconhecido internacionalmente, porque, na altura, já davam importância ao seu trabalho e conseguia vender quadros. A galeria mais emblemática onde expôs os seus trabalhos foi a AAA, em Ascona, na Suíça. Nessa altura já distante vendeu um quadro por 350 euros e com esse dinheiro comprou o seu primeiro cavalete.

Quando regressou a Portugal passava o Verão no Algarve e percorria a costa espanhola. Durante quatro ou cinco meses fazia retratos nas ruas. O dinheiro que ganhava durante o Verão dava para viver no Inverno. A companheira, que não tinha jeito para desenhar, aprendeu a fazer tatuagens temporárias aos turistas para estar entretida e ganharem mais dinheiro. Esta vida durou até 2017 quando lhe foi diagnosticado cancro de pele que lhe afectou a mão. Mais tarde descobriu outro carcinoma de pele na outra mão.

Da primeira vez fez duas sessões de electroquimioterapia, um tratamento localizado. Da segunda vez fez apenas uma sessão. “As dores mais fortes são durante as sessões de tratamento. Ainda tenho dores nas mãos mas estou tão habituado a elas que isso não condiciona o meu trabalho”, confessa, acrescentando que tem que fazer o controlo da doença de seis em seis meses.

Aos 47 anos, tem dois filhos adultos e o terceiro neto vem a caminho. Carlos prefere viver na tranquilidade de Mação, que diz ser o seu refúgio, e permite-lhe dar azo à criatividade num quarto pequeno da sua casa, onde tem todos os quadros espalhados pelas paredes e sobre a cama. Também faz escultura mas a preferência é a pintura. Tem quadros em galerias no Porto e Cascais. Considera-se um auto-didacta e diz ter um estilo muito próprio.

“Galeristas cobram aos artistas para exporem, o que desvirtua a arte”

Carlos Saramago diz que todos os meses recebe convites para expor mas recusa porque o mercado está saturado e não se vende como antigamente. Além disso, adianta, os galeristas cobram aos artistas para poderem expor. Perfeccionista e insatisfeito por natureza, diz que tem um ou dois bons quadros e que o resto é obra de um pintor à procura da perfeição. Questionado sobre onde gostaria de expor, relativizou a importância desse reconhecimento dizendo que não é a fama que o move nem o faz trabalhar mais.

“Procuro a obra perfeita mas tenho que ser realista. Só é boa arte aquela que vende bem, porque é essa que alimenta a vida do pintor. Noutras alturas relativizo todas essas ideias e esqueço o dinheiro. Só quero encontrar o caminho na tela para produzir a obra da minha vida”. Confessa que é exigente no seu trabalho e que isso um dia dará ainda mais frutos.

“Não procuro reconhecimento ou fama. O que procuro é criar uma obra de arte que me realize completamente. Não sei se algum dia vou conseguir. A minha maior obra de arte talvez fosse pegar em todos os meus quadros, juntá-los, e fazer a maior tela do mundo num campo de futebol”, afirma entre sorrisos, provando com palavras aquilo que é uma ideia fixa desde que se reconhece artista.

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