Entrevista | 19-06-2019 07:00

É preciso combater os vândalos que estragam os espaços de lazer em Abrantes

É preciso combater os vândalos que estragam os espaços de lazer em Abrantes

António Mor é presidente da Assembleia Municipal de Abrantes e dirigente do Centro Social do Pego.

Foi vereador da Câmara de Abrantes durante década e meia, quando o poder local dava os primeiros passos, e integra a assembleia municipal desde 1999. Em 2015 assumiu a presidência desse órgão, cargo que ainda mantém. António Mor começou a trabalhar aos 16 anos como torneiro-mecânico na Metalúrgica Duarte Ferreira mas nunca desistiu de estudar. Aos 40 anos iniciou o curso de Gestão. É presidente do Centro Social do Pego e do Rancho Folclórico do Pego. Uma entrevista na semana em que Abrantes assinala mais um aniversário de elevação a cidade.

Como vê a saída de Maria do Céu Albuquerque da presidência da Câmara de Abrantes, para ir para o Governo?

É um percurso normal, estava no último mandato que a lei lhe permite. A pasta que lhe foi atribuída pelo Governo (secretária de Estado do Desenvolvimento Regional) é algo com que ela lidou durante estes anos como executora. Nesta fase de negociação em que o Governo está para o próximo quadro comunitário faz todo o sentido que tenha aceite o cargo.

Os políticos quando são eleitos para um cargo e depois o abandonam não estão a desrespeitar quem votou neles?

Aceitar um convite de quem lhe reconhece o mérito não vejo que seja uma situação de desrespeito nem nenhuma oportunidade de se ver livre da câmara.

Com a sucessão de Manuel Valamatos, é natural que seja ele o próximo candidato à presidência da Câmara de Abrantes?

Admito que possa ser. Agora que assumiu o cargo de presidente são-lhe reconhecidas particularidades que antes parece que passavam despercebidas.

Como por exemplo?

Diz o que pensa e reage no momento. Não está preocupado com o politicamente correcto mas percebe-se que as pessoas gostam dessa naturalidade. Ele não guarda nada nem esconde nada, é aquilo que mostra. O Manuel Valamatos esteve na concepção da cidade desportiva após ter-lhe sido feito um desafio para pôr de pé aquele projecto. Hoje temos ali um grande espaço. Pegou nos SMAS, que estão a sofrer uma grande transformação de continuidade gigantesca pela positiva. Nunca fez questão de mostrar que era o presidente do conselho de administração. A postura dele é o trabalho que fica feito. Será um bom candidato e já está a ser um bom presidente.

Cine-Teatro São Pedro está encerrado há demasiado tempo

É aceitável que o Cine-Teatro de Abrantes esteja encerrado há mais de um ano e não haja solução à vista?

Já passou tempo demais para o edifício estar encerrado. A determinado momento houve alguma radicalização de quem se sentou à mesa para negociar. A situação está a ser avaliada de ambos os lados e qualquer decisão que venha a ser tomada tem que ter em conta que aquele edifício não pode ser aberto sem que sejam feitas obras significativas. É preciso acelerar a resolução deste impasse.

O que falta a Abrantes para se conseguir afirmar como a grande cidade da região do Médio Tejo?

Falta algo que acrescente o valor produtivo. Sou dos que acredita na afirmação da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, que tem feito um trabalho bom e um esforço notável de afirmação e tem alguns cursos que pedem meças às boas escolas do país.

Falta investimento no concelho de Abrantes?

Falta que mais empresas queiram instalar-se no nosso concelho mas o que se está a desenvolver no Tecnopólo é um bom exemplo.

O processo RPP Solar foi o maior fiasco da governação socialista dos últimos anos?

Porventura foi, mas o projecto que foi apresentado na assembleia municipal era muito interessante do ponto de vista do desenvolvimento económico para o concelho. As autarquias querem é investimento para que haja crescimento.

Qual a sua opinião sobre a construção do açude insuflável no rio Tejo?

Se não tivéssemos feito o açude não teríamos uma atleta olímpica, como a canoísta Francisca Laia, que treina naquelas águas.

O que é que correu mal com o açude?

O açude ficou sem trabalhar tanto tempo porque, no momento em que se teve que preparar as obras na ponte sobre o Tejo, foi esvaziado e alguém destruiu o equipamento. Houve um conjunto de factores que levaram ao anormal funcionamento do açude, como decidir quem é o responsável pela sua reconstrução e o que teria que ser feito para garantir que o circuito dos peixes não fosse prejudicado. O açude é uma mais-valia. Sem ele aquele espaço seria uma lixeira. Agora todos podem usufruir daquele local.

A população deu o devido valor ao investimento feito no Aquapolis?

As pessoas usufruem de tudo mas nem sempre dão valor àquilo que têm ao dispor. Os equipamentos desportivos colocados na margem sul de vez em quando aparecem vandalizados.

O que se pode fazer para tornar os espaços de ambas as margens do rio Tejo mais aprazíveis e apetecíveis para as pessoas?

É lamentável que os espaços sejam alvo de vandalismo. A lei deve ser aplicada e deve ser dura com quem prevarica. Se isso começar a acontecer o vandalismo diminui e as pessoas vão ter mais vontade de usufruir dos espaços de lazer.

O campo de baseball na cidade foi um projecto megalómano?

Não. A prova disso é que continua a ter outras utilizações. Foi preparado para áreas complementares.

Mas não existe baseball em Abrantes?

O baseball foi na altura um movimento inovador em Portugal mas não vingou. Aquele espaço passou a ser utilizado por alguns dos atletas para disciplinas que não são de pista. O estádio tem uma utilização intensiva, apesar de não ser para o baseball. Readaptou-se o campo para outras modalidades que são procuradas pelos atletas.

O cemitério à americana foi uma boa ideia?

Quando integrei o executivo da Câmara de Abrantes passámos por um boom grande de cemitérios novos ou reformulação dos já existentes. Hoje temos espaços, em algumas dessas localidades, onde é quase maior o cemitério do que as zonas de espaços vivos. Também os cemitérios e a sua reutilização merecem uma visão actual numa perspectiva de futuro.

Houve investimento desnecessário em Abrantes?

Nos 15 anos após o 25 de Abril houve investimentos que as pessoas sabem que valeram a pena. Foram os cemitérios mas também as recuperações de escolas e o alcatroamento das estradas, por exemplo. Muita gente não sabe reconhecer, mas foi feito um investimento muito grande em redes de água e de saneamento. Está praticamente tudo feito e foram obras fundamentais para o concelho.

“É complicado gerir o CRIA”

Como vê a crise por que passa o CRIA de Abrantes, uma das principais instituições do concelho?

O CRIA teve que se ir adaptando àquilo que é a sua realidade, uma unidade que cuida de pessoas com deficiência, por forma a responder a esse sector da sociedade. O CRIA sofreu transformações e teve que se adaptar. Fez candidaturas que são aprovadas pelo Estado mas depois para receber o dinheiro desses apoios é à medida que se vai prestando contas. Estes atrasos manifestam-se no dia-a-dia da instituição. Mesmo que vá o melhor do mundo gerir o CRIA, quando lá chegar passa de bestial a besta.

Porquê?

Gerir sem meios e ter que encontrar soluções não é nada fácil. A forma de financiamento através do Estado, que nem sempre paga atempadamente, torna a gestão complicada.

Que prenda daria a Abrantes por ocasião do aniversário da elevação a cidade?

Muito mais do que o materialismo, oferecia algo que faça com que as pessoas se sintam melhor, que possa melhorar a qualidade de vida de cada um. O grande desafio actual da sociedade é perceber que, com o envelhecimento da sociedade, em 2050 haverá muitos mais centenários do que existem hoje. As pessoas continuam a ser gente que merece ser tratada dignamente até ao último momento.

Com o envelhecimento da sociedade há mais falta espaços para acolher idosos?

Temos que continuar a dar dignidade à vida das pessoas, por isso os lares de idosos ou estruturas de residências para idosos são cada vez mais importantes.

António Mor dirige o Centro Social do Pego há 19 anos

António Mor é presidente da direcção do Centro Social do Pego desde 2000 quando o Centro de Dia começou a funcionar. Actualmente dispõe das valências de lar de idosos, apoio domiciliário, creche e jardim-de-infância. Tem cerca de uma centena de funcionários e 170 utentes. São 30 utentes em centro de dia e 16 em apoio domiciliário. No lar têm 68 camas disponíveis e estão todas ocupadas. A instituição pretende alargar os apoios estatais para poder apoiar um maior número de pessoas, sobretudo na área do apoio domiciliário. “Uma das principais questões da velhice é a solidão por isso as pessoas optam cada vez mais pelo Centro de Dia porque estão ocupados”, afirma.

O dirigente conta que quando iniciaram a valência de Centro de Dia, a refeição em que mais se comia pão era à segunda-feira ao pequeno-almoço por isso essa valência também funciona ao domingo. No lar de idosos, António Mor explica que a instituição é cada vez mais uma unidade de saúde porque a maioria dos utentes estão acamados. Têm médico sempre que é necessário e serviço de enfermagem todos os dias.

Quando a creche começou a funcionar muitos jovens do Pego regressaram à sua terra para viver e houve gente de fora que comprou habitação na freguesia. “Já tinham onde deixar os filhos durante o dia e vivem na sua terra ou numa localidade com qualidade de vida. Somos todos responsáveis pela nossa terra e pelo seu desenvolvimento e evolução”, considera.

Depois de 19 anos à frente da instituição, António Mor não esconde algum cansaço e já manifestou a vontade de sair. No entanto, sabe as dificuldades que existem para que toda a estrutura funcione. “O Centro Social do Pego já é uma máquina pesada e eu estou por dentro de tudo. Percebo que as pessoas pretendam que eu continue. Há eleições este ano, vamos ver o que se decide”, diz.

De torneiro-mecânico a autarca

António Mor nasceu a 6 de Dezembro de 1948 no Pego, concelho de Abrantes, onde ainda vive. Fez o curso industrial da Escola Industrial e Comercial de Abrantes. Na maioria das vezes fazia o percurso a pé, 15 quilómetros por dia. Aos 16 anos começou a trabalhar como torneiro mecânico na Metalúrgica Duarte Ferreira. No entanto, a sua vontade de estudar nunca desapareceu. “É algo que tenho que continuar a fazer até ao dia em que morrer”, diz.

Depois de terminar o serviço militar acabou por concluir, à noite, a Secção Preparatória Industrial – durante três anos – e fez mais um curso complementar de Mecanotecnia. Ainda se matriculou em Engenharia Mecânica, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, que frequentou até ao segundo ano. Desistiu por não conseguir conciliar com a vida autárquica.

É militante do Partido Socialista desde 1974 tendo sido vereador na Câmara de Abrantes entre 1978 e 1989, integrando a maioria socialista liderada por José Bioucas. Entre 1989 e 1993 foi vereador da oposição, apesar de considerar que esse termo não existe. “Somos todos eleitos de um executivo municipal. Não existem vereadores da oposição”, considera. Foi eleito na Assembleia Municipal de Abrantes em 1999. Após a saída de Nelson Carvalho do cargo de presidente desse órgão, em 2015, assumiu a presidência, onde ainda se mantém.

Em 1990 inscreveu-se na Universidade Internacional, em Abrantes, para fazer o curso de Gestão, que conseguiu terminar. Esteve envolvido na criação da Associação de Municípios do Médio Tejo - actual Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo -, tendo sido convidado para administrador delegado desse órgão. Entre 2007 e 2011 integrou o conselho de administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo.

Antes do 25 de Abril de 1974 já era dirigente associativo. Sempre teve interesse em ajudar a crescer e desenvolver a sua terra e o seu concelho. É presidente do Centro Social do Pego e do Rancho Folclórico do Pego. Foi membro da Comissão de Trabalhadores da Metalúrgica Duarte Ferreira. É casado, tem uma filha e dois netos. Gosta de pescar mas é na pequena horta que tem em casa, e onde planta os morangos para a família, que gosta de se refugiar. “Ali consigo ouvir os melros a cantar e é uma sensação de paz inigualável”, confessa.

Costumava correr mas uma lesão leva-o agora a praticar caminhadas. Quando era mais novo costumava andar de bicicleta. “Ninguém queria ser meu adversário nas subidas, porque era muito forte”, conta, com um sorriso.

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