Entrevista | 22-06-2019 15:00

Sinto-me feliz quando olho para os jornais e não vejo o meu nome associado a escândalos

Sinto-me feliz quando olho para os jornais e não vejo o meu nome associado a escândalos

Entrevista política com Vasco Cunha, ex-deputado, ex-vereador na Câmara do Cartaxo e ex-presidente da distrital laranja.

Vasco (Manuel Henriques) Cunha é uma figura conhecida na região sobretudo pela sua ligação à política, ao PSD, como deputado, presidente da distrital laranja e vereador da oposição na Câmara Municipal do Cartaxo.

Deixou a política num processo de renovação dentro do partido e voltou ao seu trabalho no banco BCP, de onde tinha vindo. Ao contrário da maioria dos políticos que passam pelas câmaras municipais, ou pela Assembleia da República, não andou de mão estendida a pedir cargos nas empresas municipais ou do Estado.

Vasco Cunha não é só um homem conhecido da região que se afastou da política para trabalhar no seu ofício; é também um dirigente associativo, um homem sempre ligado ao território, um cidadão que não se ausenta das suas responsabilidades e uma pessoa que é muito fácil encontrar num campo de futebol, na inauguração de uma feira ou simplesmente num restaurante da região.

Esta entrevista é uma conversa sobre questões políticas mas essa foi, desde o início, a razão principal do nosso encontro.

É dos poucos políticos que depois de missão cumprida volta para o seu emprego?

A única coisa que tinha a certeza absoluta é que quando saísse da política ia voltar ao meu trabalho no banco. Tive isto sempre certo, que regressaria ao meu posto de origem.

Mas ainda tentou um daqueles lugares nas empresas municipais que os camaradas sempre arranjam sem grandes dificuldades?

Nunca pus sequer a possibilidade de andar a pensar que iria ter um lugarzeco qualquer na administração pública. Na altura que saí do Parlamento pedi ao presidente do banco para marcar uma reunião de modo a apresentar-me. Tive algumas propostas para poder reorganizar a minha carreira. Escolhi uma delas e gosto muito daquilo que estou a fazer.

Fez mais amigos ou inimigos na política? É possível contabilizar?

Conheci muita gente por quem tenho muita consideração e que acho que é recíproca. Mas não posso dizer que tenho dezenas de amigos. Perdi o meu melhor amigo, o meu irmão, há cerca de 5 anos. Depois tenho meia dúzia de amigos de longa data que partilharam coisas na política, na escola, na universidade e no futebol. Há muitos amigos de amizades antigas e de proximidade.

Do que é que tem mais orgulho?

Tendo passado vinte e muitos anos na vida autárquica e quase treze anos no Parlamento, sinto-me feliz quando olho para os jornais e não vejo o meu nome associado a escândalos. No meu percurso político não tenho ideia de estar associado a coisas ilegais, ou a práticas ilícitas, que de alguma forma pudessem manchar a minha honra ou o meu nome.

Admite a hipótese de ainda poder ser? Os deputados não sabem onde se metem? São como cordeirinhos de um rebanho de bons pastores?

As pessoas não são estúpidas, não se deixam iludir com facilidade. Eu acho que a maior parte das pessoas que praticam actos de natureza corrupta têm plena consciência do que estão a assumir.

A Assembleia da República é uma casa mal frequentada?

Passam pelo Parlamento um grande conjunto de interesses que vão dos muito sérios assuntos empresariais, ambientais, autárquicos, até àqueles que são menos lícitos. Falando de deputados, também os há de todo o género.

A ideia que tenho de si é que foi sempre um deputado operário. Não estava lá para brilhar nas televisões e nos jornais?

Concordo que muitos deputados são mestres em criarem situações para brilharem na comunicação social e, na prática, não fazem nada. Eu entrei no Parlamento na época em que era primeiro-ministro Durão Barroso, que disse que o país “estava de tanga”. E saí quando a Troika se foi embora. Para bom entendedor meia palavra basta.

“Não aceitei ser secretário de Estado”

Há ou não há deputados operários, advogados, empresários, etc, etc...?

Há sim. Dito de outra forma, um deputado tem a possibilidade de fazer a agenda que quer. Há um conjunto de coisas que a Assembleia e o Parlamento exige que é a ordem do dia e a participação nas comissões. Depois, o resto é por conta dele. Se quiser trabalhar, trabalha, se não quiser ninguém lhe pede contas. No final da legislatura são os partidos políticos que são validados e não o trabalho individual de cada um dos deputados.

Chegou a ser apontado para secretário de Estado mas ficou pelo caminho.

Não aceitei. Ser secretário de Estado só para compor um ramalhete não era para mim. A política só pode servir para melhorar a vida das pessoas e não para fazer currículo. Gostei muito mais de ser presidente da Comissão Parlamentar de Agricultura e Mar, onde pudemos estabelecer uma agenda para todo o país com a presença de todos os partidos. Fui muito mais feliz assim do que ser secretário de Estado.

Perdeu a oportunidade de ter uma guarda de honra, ouvir a banda a tocar só para si e ouvir muitas sirenes da polícia nas suas deslocações.

Ando todos os dias na rua e tenho a perfeita noção do que é o excesso do poder do político. Ao fim e ao cabo é isso que as pessoas mais penalizam na classe política, essa fantochada de protocolo levado ao cúmulo. Eu não gosto nem simpatizo.

O seu PSD vai tornar-se um partido insignificante a médio prazo?

Eu acho que corre esse risco. O PSD sempre teve diferentes tendências. Nos últimos anos fomos perdendo esses grandes dirigentes e hoje a disputa de poder dentro do partido não tem quem a saiba, e possa, moderar.

A geração política de hoje é mais fraca que as anteriores?

É diferente. Temos sempre tendência para dizer que os nossos tempos eram melhores. Houve gente no passado que conheci com muita qualidade em todos os partidos. Tenho admiração por pessoas da região que certamente acharam na altura que eu era de uma geração mais fraca, nomeadamente o Sérgio Carrinho, da Chamusca, Sousa Gomes, de Almeirim, Martins Lopes, da Golegã, Pereira da Silva, de Coruche. Mas não fujo à pergunta: quando olho para o nosso distrito acho que está anestesiado. Não vejo os partidos políticos com maior expressão a trabalharem sobre o que entendem que está a correr mal na região. Um dos grandes objectivos para os próximos 30 anos para esta região é o projecto rio Tejo. Não vejo nem ouço os deputados a unirem-se ou a tomarem uma posição pública sobre este assunto. E só estou a falar do caso mais gritante de que ninguém vai poder fugir a curto prazo.

Esse divórcio com os eleitores e os problemas do país deve-se aos partidos ou à falta de qualidade dos políticos?

Não são os eleitores que têm de ir à procura dos políticos. São os políticos que procuram os eleitores para lhes pedirem o voto e depois para lhes apresentarem os resultados do voto que lhes pediram. Hoje em dia a classe política aparece nas redes sociais e não no dia-a-dia da vida da comunidade, nas empresas, nas autarquias. Cada vez passam mais a ideia que só aparecem na altura de eleições.

Algum dos políticos com quem trabalhou lhe ligou nestes últimos anos para lhe pedir ajuda ou uma simples opinião ?

Não. Mas isso não é importante. O importante foi o que pude fazer na altura, como valorizar as lutas pela despoluição do Alviela, a concessão da medalha da Liberdade à cidade de Santarém, entre outras. E tenho orgulho de ter trabalhado para que muitas figuras nacionais que foram candidatas pela região tenham deixado marcas como foi o caso de Mira Amaral e Nuno Morais Sarmento. Esse trabalho hoje não existe nem é valorizado. Ou então as pessoas perderam o norte.

Já percebi que continua ligado.

Sim, mas estou no meu trabalho.

Como é que vê hoje o processo da regionalização?

Não tenho dúvidas que faz sentido que haja descentralização e desconcentração. Não sou contra a ideia da regionalização mas tem de ser um grande trabalho. O distrito de Santarém hoje já paga o preço da interioridade. Abrantes há 25 anos era uma cidade pujante com 40 mil habitantes. Eu achava que o limite da fronteira para o interior era algures por ali. Hoje a interioridade vai até à Chamusca. Está dentro do coração de Santarém.

As empresas que continuam a ter os apoios do Estado para se instalarem nos grandes centros deviam ser apoiadas mas para virem para o coração do país. Este seria o trabalho actual dos deputados e dos autarcas em conjunto se tivessem a noção destes dramas que vão custar muito caro a muita gente.

O Cartaxo está na terceira divisão da qualidade de vida

Foi autarca e vive num concelho dos mais endividados do país. Teve noção do caminho desastrado da política no Cartaxo?

Claro que sim, fui candidato à câmara em 2011 e em 2004 começámos a denunciar que da forma como tudo era gerido mais tarde ou mais cedo acabava-se na banca rota. Hoje o Cartaxo está na terceira divisão da qualidade de vida a nível nacional. Não é seguramente por aquilo que eu fiz. Devo ser o único cidadão que participou em dois resgates: o resgate do país na Assembleia da República e o resgate da Câmara Municipal do Cartaxo.

Não se sente também culpado uma vez que era autarca no activo?

Só tinha o poder de denunciar e isso está documentado quer nas actas quer na comunicação social. Todos os indicadores legais diziam que o trabalho que estava a ser feito na câmara municipal dava o resultado que veio a dar. É impossível gastar aquilo que não se tem.

Nunca contribuiu para a desgraça?

Posso dizer que não. Não fui nem governante municipal nem governante do país. Nunca contribui com uma despesa.

Quem foram os lideres políticos que o marcaram mais?

Pedro Passos Coelho. Já o conhecia. Houve outros que pela sua forma de ser e de estar me deixaram sempre boas recordações. O caso do Pedro Santana Lopes, que continua a ser uma pessoa exatamente igual a si própria. Já ganhou muita vez, já perdeu muita vez. Nunca o vi com um pedaço de rancor. O Durão Barroso também, mas na minha opinião era o mais distante de todos os líderes.

O Passos Coelho vai voltar a liderar o partido mais cedo ou mais tarde?

Acho que sim. Não tenho muitas dúvidas.

O associativismo no seu concelho vai de mal a pior?

O movimento associativo está a pagar a factura da situação económica da autarquia. Não há infra-estruturas que estejam em boas condições para a prática desportiva, cultural e associativa. E a Câmara do Cartaxo não tem dinheiro nem pessoas para ajudar. O Sport Lisboa e Cartaxo, só para falar de uma grande associação, hoje não apresenta contas, deixou de ter contabilista. É verdade que uma grande parte do associativismo está moribundo.

Enquanto esteve na política teve noção de que estes escândalos à volta das instituições bancárias como a Caixa Geral de Depósitos e os casos da Operação Marquês, que envolvem José Sócrates, pudessem vir a público e tornarem-se esta escandaleira que nos envergonha?

Sim. Também fui convidado para muita coisa e não aceitei. Não é novidade para mim o que se está a passar.

Acha que o sistema judicial melhorou assim tanto e que desta vez eles não se safam?

Acho que o sistema judicial melhorou muito. Mas o crime económico está sempre um pouco mais à frente do que é a capacidade da justiça em acompanhar. Quero acreditar que a justiça fará o seu caminho melhor do que nunca.

Fale-me do seu trabalho.

Estou numa equipa do banco que trabalha com fundos comunitários e não comunitários. Acompanho em particular tudo o que tenha a ver com projectos ligados à agricultura, ao mar, à economia social e autarquias.

Voltou ao trabalho mas não foi para caixa do banco?

Já não era antes o meu trabalho. Sou responsável pelo marketing de empresas, na criação de produtos financeiros que depois as redes comerciais vendem. Estou no mundo activo dos negócios, andando pelo país inteiro a contactar as pessoas no sentido de fazer negócio a favor do banco e do cliente. Sou também administrador da Agrogarante, que é uma sociedade financeira de garantia mútua.

No Cartaxo ainda o abordam na condição de deputado?

Hoje não. Mas há dois anos ainda julgavam que eu era deputado.

Sente-se frustrado pelo trabalho político ou acha que foi útil à sua terra ?

Acho que sim. Tenho pudor de falar de alguns assuntos mas recordo-me que quando fui para o Parlamento, a principal ambição na altura era resolver o problema das vítimas da Escola Secundária do Cartaxo. Tinham passado 17 anos e o Estado não estava a cumprir o seu papel. Quando cheguei ao Parlamento, o ministro da Educação, David Justino, sensibilizou-se e ajudou a resolver a questão. Este foi o meu primeiro objetivo. E foi resolvido. Foi uma vergonha: o Estado durante quase duas décadas portou-se muito mal com aquelas crianças que foram vítimas de um terrível acidente.

A região do ponto vista político não existe

Dei-lhe oportunidade de durante esta conversa dizer mal de muita gente citando o nome próprio. Porque não o fez?

Não digo mal das pessoas. Claro que não posso esconder que houve muita gente que me desapontou. E que a trabalhar em equipa não conseguimos realizar bem todos os objectivos. Vou dar-lhe um exemplo: estive num grupo que constitui a génese da candidatura de Moita Flores à Câmara de Santarém. Quando foi eleito fiquei satisfeito porque tinha sido algo para o qual tinha dado o meu contributo. Mas ao fim de dois anos percebi rapidamente que o Francisco Moita Flores tinha um projecto para Santarém que não era do PSD, mas sim o seu projecto. Um projecto individual no qual o PSD não interferia nem tinha hipótese de participar. A partir dessa altura não tive mais nenhuma proximidade com o Francisco Moita Flores.

Os protagonistas políticos da nossa região não existem a nível nacional. Bem diferente do tempo de Jorge Lacão e Miguel Relvas, só para falar de dois casos. Como é que se puxa pela auto-estima de quem vive no Ribatejo e não se sente representado no poder de Lisboa?

Os partidos políticos têm que ter dirigentes que sejam as âncoras na região. Nunca estive próximo do Jorge Lacão mas reconheço que nos últimos anos foi o principal protagonista do PS. A seguir a ele foi o deserto. Dentro do PSD também não apareceu ninguém. A região do ponto vista político não existe.

Os novos partidos como o PAN podem fazer mossa nos partidos tradicionais?

Acredito que sim. O PSD corre o risco de ter uma erosão muito grande. Se olharmos para o PCP a situação é idêntica. O partido não se reforma e vai perdendo eleitorado.

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